Chapter 3
Fiquei numa das suítes de hóspedes que eu mesma tinha limpado incontáveis vezes, agora do outro lado completamente diferente daquela realidade — dormindo nos lençóis que eu trocava, não trocando eles.
Não consegui dormir.
Por volta das quatro da manhã, desci até a cozinha, incapaz de ficar parada com os próprios pensamentos, e encontrei Adrian já lá, sentado à mesa comprida, um laptop aberto e uma xícara de café intocada esfriando ao lado dele.
— Você também não dormiu — falei, mais afirmação do que pergunta.
— Nunca durmo bem depois que alguém tenta me matar. Estranho hábito meu.
Havia humor negro na voz dele, mas os olhos continuavam duros, cansados.
Sentei do outro lado da mesa, e por um longo momento, nenhum de nós disse nada, o silêncio da casa enorme ao nosso redor quase confortável, de um jeito inesperado.
— Meu nome verdadeiro não é Evelyn Hart — falei, finalmente, as palavras saindo antes que eu tivesse tempo de decidir se realmente queria dizê-las.
Adrian ergueu os olhos do laptop, mas não disse nada, só esperou, dando espaço pro resto vir no meu próprio tempo.
— Eu me chamava Evelina Kovalenko.
Alguma coisa mudou no rosto dele — reconhecimento, choque contido, as peças de um quebra-cabeça se encaixando rápido demais.
— Kovalenko.
— Meu pai era Dimitri Kovalenko. Talvez você já tenha ouvido esse nome.
— Ouvi. Ele controlava metade do tráfico de armas na costa oeste antes de morrer.
— Ele morreu porque decidiu, tarde demais, que não queria mais aquela vida pra mim. Tentou me tirar de tudo isso, tentou negociar minha saída da organização, e por isso, um dos próprios sócios dele mandou matá-lo.
Adrian ficou completamente parado, absorvendo cada palavra.
— Isso foi há quanto tempo?
— Cinco anos. Eu tinha vinte e três, no meio da faculdade de medicina, achando que finalmente ia ter uma vida normal, longe de tudo aquilo. No dia em que meu pai morreu, eu soube que precisava desaparecer completamente, ou seria a próxima.
— Por isso o treinamento médico. Por isso reconhecer explosivos.
— Cresci ao redor daquele mundo minha vida inteira, mesmo meu pai tentando me manter afastada o máximo possível. Eu via coisas. Aprendia coisas, sem querer aprender. E, quando finalmente decidi estudar medicina de verdade, achei que estava deixando tudo aquilo pra trás.
— Mas nunca deixou.
— Nunca completamente. Uma parte de mim sempre ficou alerta, sempre calculando saídas, sempre notando detalhes que pessoas normais nunca notariam. Achei que isso ia desaparecer com o tempo. Só ficou mais discreto.
Adrian fechou o laptop devagar, dando toda atenção pra mim.
— E os Kovalenko que restaram? Onde eles estão agora?
— Espalhados. Alguns continuaram o negócio do meu pai, sob nova liderança. Outros desapareceram, como eu. Eu troquei de nome, me mudei três vezes, cortei todo contato com qualquer coisa que me ligasse ao passado, até vir pra Phoenix há dois anos.
— E veio trabalhar bem aqui, na minha casa.
— Eu não sabia quem você era quando aceitei o emprego. Só sabia que pagava bem, em dinheiro, sem perguntas. Foi só depois que descobri o resto.
Um silêncio pesado caiu entre nós, o tipo de silêncio carregado de implicações que nenhum dos dois queria dizer em voz alta primeiro.
— A bomba de hoje — falei, finalmente, a peça final se encaixando com um horror gelado. — Você acha que pode ter alguma coisa a ver com meu passado, não só com o seu.
Adrian assentiu devagar.
— O modelo do gatilho, ligado aos Kovalenko através dos Kovalenko três anos atrás… Evelyn, isso pode não ser coincidência nenhuma. Se alguém do seu passado descobriu onde você está, e por acaso essa mesma pessoa também tem motivo pra querer minha morte…
— Então eu não sou só uma testemunha que salvou sua vida por acidente.
— Talvez você seja o motivo de a bomba ter sido plantada, pra começo de conversa.
O medo que eu vinha controlando a noite inteira finalmente transbordou.
— Se for isso, eu preciso ir embora. Agora. Preciso desaparecer de novo, antes que mais alguém se machuque por minha causa.
— Não.
A palavra saiu dele com uma firmeza absoluta.
— Adrian, você não entende. Isso é o que eu faço. Quando o perigo chega perto demais, eu desapareço, recomeço em outro lugar, protejo as pessoas ao redor cortando qualquer ligação comigo.
— E por quanto tempo isso funcionou de verdade? Cinco anos fugindo, e o perigo ainda te encontrou, bem aqui, na minha casa, numa noite qualquer.
Aquilo me atingiu como um soco.
— Então o que você sugere? Que eu fique? Que eu vire alvo de novo, dessa vez puxando você e sua organização inteira comigo?
— Sugiro que, pela primeira vez em cinco anos, você pare de enfrentar isso sozinha.
Ele estendeu a mão pela mesa, não tocando na minha, só deixando ali, um convite silencioso.
— Eu tenho recursos, gente, informação, que você nunca teve sozinha. Deixa eu ajudar a descobrir quem está por trás disso, de verdade, em vez de fugir de um fantasma que nunca vai parar de te perseguir enquanto você não souber quem ele realmente é.
Olhei pra mão dele, depois pro rosto cansado e determinado, e senti, pela primeira vez em cinco anos, uma fração minúscula de esperança de que talvez eu não precisasse carregar aquilo tudo completamente sozinha.
— Tudo bem — sussurrei. — Mas se as coisas piorarem, se eu perceber que estou colocando você ou qualquer pessoa daqui em perigo maior—
— Vamos atravessar essa ponte se ela aparecer. Juntos.
Antes que eu pudesse responder, o telefone dele vibrou na mesa, a tela acendendo com uma mensagem que fez o rosto dele endurecer instantaneamente.
— O que foi? — perguntei, o coração já acelerando de novo.
Ele virou a tela pra mim.
Uma única frase, de um número desconhecido:
Diga a Evelina que a família dela nunca esqueceu o que o pai dela tentou fazer.
