Chapter 3
Eu fiquei olhando para ele, tentando entender o que aquelas palavras significavam.
“Como assim, algo maior?” — perguntei, minha voz baixa, quase um sussurro, com medo de que alguém ao redor pudesse ouvir.
“Você sabe do que estou falando, Emily.” — ele disse, o tom calmo, mas firme. “E eu não vim aqui por acaso esta noite.”
Meu coração começou a bater mais rápido. “Você me conhece? Desde quando?”
Ele hesitou por um segundo, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado.
“Meu nome é Damian Cross.” — ele disse finalmente. “E há três anos, seu ex-noivo destruiu a empresa da minha família.”
Eu senti o chão balançar sob meus pés. “Do que você está falando?”
“Julian não é só um homem que abandonou uma mulher grávida.” — Damian continuou, os olhos fixos nos meus. “Ele é um homem que falsificou documentos, desviou investimentos e arruinou pessoas para conseguir o que tem hoje.”
“Isso não tem nada a ver comigo.” — eu disse, tentando manter a voz firme, embora por dentro tudo estivesse desmoronando.
“Tem sim.” — ele respondeu. “Porque você é a única pessoa viva que pode provar quando ele começou a mentir.”
Eu balancei a cabeça, confusa. “Eu não sei nada sobre negócios dele, Damian. Eu só sei que ele me abandonou.”
“Você sabe mais do que imagina.” — ele disse, inclinando-se um pouco mais perto. “As datas, Emily. Os lugares onde ele estava quando devia estar em outro canto assinando contratos que nunca existiram.”
Minhas mãos começaram a tremer levemente sobre a mesa. Eu me lembrava, sim, de certas viagens estranhas, de desculpas que não faziam sentido na época.
“Por que você está me contando isso agora?” — perguntei, a voz cheia de desconfiança.
“Porque hoje, quando vi ele se aproximando de você daquele jeito,” — Damian disse, “percebi que talvez a gente precise um do outro.”
“Eu não preciso de ninguém.” — eu respondi rápido demais, e ele sorriu, um sorriso pequeno, quase triste.
“Todo mundo precisa de alguém, Emily. Principalmente quando está lutando contra um homem como Julian sozinha.”
Fiquei em silêncio por um momento, processando tudo aquilo. Era loucura confiar em um estranho, ainda mais um que tinha acabado de se declarar meu marido na frente de toda a minha família.
“E o que você ganha com isso?” — perguntei, encarando ele diretamente.
“Justiça.” — ele respondeu sem hesitar. “Pela minha família. Pelo meu pai, que perdeu tudo por confiar na pessoa errada.”
Alguma coisa na voz dele mudou quando falou do pai, uma dor que parecia genuína demais para ser fingida.
“E você acha que eu posso ajudar com isso?” — perguntei, ainda incerta.
“Eu acho,” — ele disse, “que você tem mais poder do que imagina. Só precisa parar de se esconder.”
As palavras dele mexeram com algo dentro de mim, algo que eu tinha enterrado fundo desde que Julian me deixou.
Do outro lado do salão, eu via Julian conversando baixinho com Amanda, os dois olhando na nossa direção de vez em quando.
“Ele está nervoso.” — Damian observou, seguindo meu olhar. “Homens como ele ficam nervosos quando perdem o controle da situação.”
“E ele vai perder o controle como, exatamente?” — perguntei, uma pontinha de curiosidade se misturando ao medo.
“Aos poucos.” — Damian respondeu. “Primeiro, ele vai perceber que não sabe quem eu sou de verdade. Depois, vai perceber que você não está mais sozinha.”
Minha tia Deborah escolheu justamente aquele momento para se aproximar da nossa mesa, o rosto brilhando de curiosidade.
“Emily, querida, você não vai nos apresentar seu… marido?” — ela perguntou, a palavra saindo carregada de sarcasmo.
Damian se levantou educadamente, estendendo a mão para ela com um sorriso que parecia genuíno demais para a situação.
“Damian Cross.” — ele disse. “É um prazer conhecer a família da Emily.”
Minha tia arregalou os olhos ao ouvir o sobrenome, e pela primeira vez naquela noite, vi algo diferente em seu rosto — respeito, talvez até um pouco de medo.
“Cross… como em Cross Capital?” — ela perguntou, a voz de repente muito mais educada.
“Exatamente esse.” — Damian confirmou, ainda sorrindo.
O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Eu podia sentir os olhares mudando ao meu redor, as pessoas sussurrando entre si.
Pela primeira vez naquela noite, eu não era mais o erro da família sentado sozinho na mesa quatorze.
E ao ver o rosto de Julian do outro lado do salão, pálido e confuso, entendi que aquilo era só o começo de algo muito maior do que eu podia imaginar.
