“Minha mãe está morrendo, e eu não tenho dinheiro pra passagem”, a enfermeira soluçava no balcão do aeroporto.

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Chapter 3

As palavras dele ficaram suspensas no ar do corredor do hospital como fumaça que se recusava a se dissipar.

— Isso é impossível — eu disse, dando um passo para trás. — Minha mãe nunca mencionou seu nome. Nunca, em vinte e nove anos.

— Provavelmente porque ela tentou esquecer aquela época — Daniel respondeu, a voz baixa, cuidadosa. — E eu não a culpo por isso.

— Que época?

Ele olhou ao redor do corredor movimentado.

— Não aqui.

Levou-me até uma pequena sala de espera vazia no fim do corredor, longe de ouvidos curiosos. Sentei-me numa cadeira plástica, ainda tremendo, meio de exaustão, meio de choque.

— Sua mãe trabalhava como enfermeira num hospital em Springfield, no início dos anos noventa — Daniel começou. — Eu era um paciente jovem, recém-formado, atropelado por um carro que fugiu sem prestar socorro. Fiquei internado três meses. Sua mãe cuidou de mim quase todos os dias daquele período.

— E daí? Isso não explica por que você apareceu do nada num aeroporto de Chicago justo no dia em que ela teve um infarto.

— Eu soube que Margaret Carter estava internada porque monitoro certas coisas há anos, Emily. Não por obsessão. Por dívida.

— Dívida de quê?

Daniel esfregou o rosto com as duas mãos, como se estivesse decidindo até onde contar.

— Sua mãe salvou minha vida naquele hospital. Não só fisicamente. Eu estava destruído por dentro também — tinha acabado de perder meus pais num acidente separado, meses antes. Ela ficava depois do turno dela só para conversar comigo, para que eu não ficasse sozinho com meus pensamentos à noite.

Ele fez uma pausa, os olhos distantes.

— Prometi a mim mesmo, na saída daquele hospital, que um dia retribuiria isso. De qualquer jeito que fosse possível.

— Então você ficou… vigiando ela? Por trinta anos?

— Não vigiando. Só… prestando atenção, de longe. Discretamente. O suficiente para saber se ela precisasse de ajuda algum dia.

Cruzei os braços, ainda desconfiada.

— Isso é estranho, Daniel. Muito estranho.

— Eu sei como parece.

— E por que agora? Por que aparecer justo hoje?

Ele hesitou de novo, e dessa vez, a hesitação durou mais.

— Porque eu soube, através de um contato no sistema hospitalar, que Margaret Carter tinha dado entrada de emergência em Chicago antes de ser transferida. E quando vi o nome da filha dela na lista de contatos de emergência tentando embarcar num voo sem conseguir pagar… eu soube que era a hora de finalmente pagar essa dívida.

Meu celular vibrou no meio da conversa. Era um número desconhecido.

Atendi, ainda processando tudo que Daniel tinha acabado de me contar.

— Emily? — era a voz da minha tia Diane, agora repentinamente preocupada. — Soube que você conseguiu chegar até sua mãe num jato particular. Quem é esse homem que está ajudando vocês?

Minha mão apertou o celular com força.

— Agora você se importa, Diane?

— Emily, não seja injusta. Eu estava numa reunião importante, não pude atender antes…

— Minha mãe quase morreu sozinha porque ninguém da nossa família apareceu. E agora, de repente, você quer saber quem está pagando as contas?

Silêncio do outro lado.

— Madison me contou sobre o jato particular — Diane finalmente admitiu. — Quem é esse homem, Emily? Ele tem dinheiro?

Minhas mãos tremeram de raiva.

— Isso é tudo que importa pra vocês agora?

— Estou só preocupada com você, querida.

— Você não estava preocupada há seis horas, quando minha mãe estava entrando numa ambulância.

Desliguei antes que ela pudesse responder, o coração batendo forte de raiva e exaustão misturadas.

Daniel me observava em silêncio, mas havia algo em seu rosto que sugeria que ele já esperava exatamente esse tipo de reação da minha família.

— Elas vão aparecer agora — ele disse baixinho.

— Do que você está falando?

— Notícia de dinheiro viaja rápido, Emily. E famílias que desaparecem quando você precisa costumam reaparecer muito rápido quando pensam que existe alguma vantagem a ganhar.

Ele não estava errado.

Menos de uma hora depois, Madison entrou pela porta do hospital, maquiagem perfeita, sorriso ensaiado, como se as mensagens cruéis da noite anterior nunca tivessem existido.

— Emily! — ela abriu os braços, como se fôssemos as melhores amigas do mundo. — Que bom que você chegou a tempo. E quem é esse cavalheiro tão… generoso?

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