O ar no tribunal de Manhattan parecia pesado, misturando o cheiro de perfume caro com o peso esmagador da palavra “fim”.

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Chapter 3

Naquela noite, sentada no convés do Solaris com uma taça de vinho intocada na mão, Clara deixou a mente voltar para o momento exato em que tudo tinha começado a mudar.

Três anos antes, numa noite chuvosa de novembro, ela tinha encontrado por acaso um extrato bancário impresso, esquecido dentro do bolso de um paletó que Nathaniel havia mandado para a lavanderia.

Uma conta nas Ilhas Cayman, com um saldo que ultrapassava qualquer coisa que ela tivesse visto nos relatórios “oficiais” da empresa.

Naquela mesma semana, ela tinha visto, sem querer, uma mensagem no celular dele — uma mensagem de Sienna Rossi, íntima demais para ser apenas profissional.

Clara não tinha confrontado Nathaniel na hora.

Ela tinha aprendido, ao longo de doze anos de casamento, que confrontá-lo sem provas concretas só resultava em gaslighting sofisticado, em reuniões marcadas com terapeutas que secretamente reportavam a ele, em cartões de crédito subitamente cancelados como forma de “lição”.

Então, em vez de gritar, ela tinha ligado para a única pessoa que sabia que jamais a trairia: Victor Kaine, seu primeiro amor, o homem que ela tinha deixado para trás quando escolheu a segurança financeira de Nathaniel Thorne em vez do amor incerto de um jovem investidor ainda construindo seu próprio nome.

— Eu lembro da nossa primeira ligação depois de tantos anos — disse Victor, sentando-se ao lado dela no convés, trazendo-a de volta ao presente. — Você mal conseguia falar direito, com medo de que as linhas estivessem grampeadas.

— Eu tinha certeza de que estavam — respondeu Clara, com um meio sorriso amargo. — Descobri depois que, na verdade, estavam mesmo. Nathaniel monitorava até minhas ligações “privadas”.

— E, ainda assim, você continuou me ligando, de telefones públicos, de números emprestados, sempre que conseguia escapar da vigilância dele.

— Porque você foi a única pessoa que acreditou em mim sem exigir provas primeiro.

Victor girou a taça de vinho na mão, pensativo.

— As provas vieram depois, é claro. Levou meses até conseguirmos documentar completamente as contas offshore, os pagamentos irregulares para Sienna disfarçados de “bônus de consultoria”, os subornos para auditores que garantiam que tudo parecesse legal nos relatórios anuais.

— E, mesmo assim, levamos anos para agir — completou Clara. — Por quê?

— Porque agir cedo demais significava expor você a um divórcio litigioso, sujo, onde Nathaniel usaria cada recurso do império dele para te destruir na mídia antes mesmo de qualquer verdade vir à tona. Precisávamos que ele se sentisse seguro. Precisávamos que ele cometesse erros grandes o suficiente para não haver como negar.

Clara se lembrou das últimas semanas antes da audiência — como Nathaniel, confiante de que ela nunca contestaria nada, tinha ficado descuidado, movendo grandes somas às pressas, sem o cuidado paranoico dos primeiros anos.

— A oferta ridícula de quinze milhões no tribunal hoje… — ela começou.

— Foi exatamente o que precisávamos — completou Victor. — Ele achou que estava fechando um acordo vantajoso, quando na verdade estava assinando a confirmação pública, perante um juiz, de que voluntariamente cedeu qualquer direito de contestar as movimentações financeiras que fizemos nos bastidores.

Clara balançou a cabeça, ainda impressionada com a intrincada armadilha que tinha sido construída ao longo de tanto tempo.

— E o que Sienna sabe sobre tudo isso?

O rosto de Victor ficou mais sério.

— Sienna Rossi não é apenas a amante de Nathaniel, Clara. Ela é CFO da Thorn Development por um motivo. Ela ajudou a estruturar boa parte do esquema de lavagem através das contas offshore.

— Ela vai cair junto com ele.

— Se as coisas seguirem o plano, sim. E, pelo que descobrimos essa semana, ela já começou a demonstrar sinais de que sabe que algo está errado. Fez duas transferências pessoais suspeitas para uma conta na Suíça nos últimos dez dias.

— Ela está tentando fugir sozinha com uma parte do dinheiro.

— Exatamente. O que significa que precisamos agir mais rápido do que planejávamos originalmente.

Clara ficou em silêncio por um momento, observando as luzes distantes de outro barco no horizonte.

— Existe uma parte de mim que ainda sente pena dele — ela admitiu, baixinho. — Doze anos são doze anos, Victor. Não importa quantas mentiras existiram no meio do caminho.

Victor pousou a mão sobre a dela, gentil.

— Sentir isso não te torna fraca, Clara. Só te torna humana. Mas lembre-se do que ele disse hoje, na frente de todo mundo: que você seria “apenas mais uma divorciada”.

— Eu lembro.

— Então lembre também que compaixão e justiça não são a mesma coisa. Você pode sentir pena do homem que ele já foi, e ainda assim garantir que ele responda pelo que fez.

Clara respirou fundo, sentindo a determinação voltar a se firmar dentro dela.

— O que vem a seguir?

Victor se levantou, estendendo a mão para ajudá-la a ficar de pé.

— A seguir, mostramos ao conselho da Thorn Development exatamente com quem eles têm negociado nos últimos anos. E deixamos que eles escolham entre continuar ao lado de um homem prestes a ser investigado por fraude financeira, ou aceitar uma nova liderança que já provou ser capaz de multiplicar aquele império silenciosamente, nos bastidores.

— Você está falando de uma tomada de controle.

— Estou falando da tomada de controle que você merece, Clara. Afinal, boa parte do capital que usei para comprar essas empresas de fachada veio de investimentos que fizemos juntos, secretamente, nos últimos dois anos.

Clara olhou para ele, percebendo, talvez pela primeira vez completamente, o tamanho real do que tinha sido construído em silêncio enquanto ela ainda usava o sobrenome Thorne.

— Você nunca teve dúvidas de que eu ia conseguir sair daquele casamento?

Victor sorriu, um sorriso cansado, mas genuíno.

— Nunca. Eu só tinha medo de que demorasse tanto que não sobrasse nada de você para reconstruir depois.

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