O ar no tribunal de Manhattan parecia pesado, misturando o cheiro de perfume caro com o peso esmagador da palavra “fim”.

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Chapter 4

Dois dias depois, em Nova York, Nathaniel Thorne acordou para um pesadelo que ele jamais tinha imaginado possível.

Robert Blackstone invadiu seu escritório sem sequer bater, o rosto pálido, segurando um tablet com as mãos trêmulas.

— Nathaniel, temos um problema sério.

— Que tipo de problema? — perguntou Nathaniel, sem tirar os olhos dos relatórios trimestrais na mesa.

— As empresas que administram suas contas nas Ilhas Cayman… elas foram vendidas.

Nathaniel finalmente ergueu os olhos.

— Do que você está falando? Aquelas empresas são minhas.

— Eram — corrigiu Blackstone, virando o tablet para ele. — Segundo esses documentos, três das quatro holdings que controlam suas contas offshore mudaram de proprietário há dois anos. A transferência foi feita de forma completamente legal, através de uma estrutura societária que só veio à tona agora.

O sangue de Nathaniel gelou.

— Isso é impossível. Eu tenho controle total sobre essas empresas.

— Você tinha controle operacional, mas não a propriedade majoritária. Alguém comprou silenciosamente as ações, através de uma holding em Singapura.

— Quem?

Blackstone hesitou antes de responder.

— Victor Kaine.

O nome atingiu Nathaniel como um soco no estômago.

— Isso não é possível. Kaine é só um investidor qualquer que aparece em algumas revistas de negócios de vez em quando.

— Era o que todos pensavam. Mas, aparentemente, ele construiu uma rede de investimentos consideravelmente mais sofisticada do que qualquer um imaginava. E, Nathaniel… existe mais uma coisa.

— O que mais poderia ter dado errado?

— Sua ex-esposa está listada como consultora estratégica em duas dessas holdings desde o ano passado.

O tablet quase caiu das mãos de Nathaniel.

— Clara? Isso é ridículo. Ela nunca teve interesse em finanças. Ela mal sabia ler um balanço patrimonial quando nos casamos.

— Talvez ela tenha aprendido — respondeu Blackstone, sério. — Porque, segundo esses documentos, essa “consultora estratégica” aprovou pessoalmente a estrutura que agora controla mais de sessenta por cento dos ativos que você tentou mover antes da audiência de divórcio.

Nathaniel se levantou tão rápido que a cadeira caiu para trás.

— Ela sabia. Esse tempo todo, ela sabia de tudo.

Naquele mesmo instante, seu telefone vibrou. Era Sienna, com uma mensagem curta e desesperada:

“Precisamos conversar agora. Alguém congelou minhas contas na Suíça.”

Nathaniel sentiu o mundo desmoronar ao seu redor, peça por peça.

Ligou imediatamente para Sienna, que atendeu já chorando.

— Nathaniel, o que está acontecendo? Meu dinheiro sumiu. Simplesmente sumiu!

— Eu não sei — respondeu ele, tentando manter a compostura que já lhe escapava por completo. — Mas vamos descobrir.

— Você prometeu que estávamos protegidos! Que ninguém conseguiria rastrear nada até você resolver o divórcio!

— Cale a boca, Sienna — ele rosnou, olhando ao redor do escritório como se as paredes pudessem estar ouvindo. — Não fale sobre isso pelo telefone.

Ele desligou e se virou para Blackstone.

— Localize Clara. Agora.

— Ela está em algum lugar no Mediterrâneo, a bordo de um iate chamado Solaris. Nossos contatos confirmaram que pertence a Victor Kaine.

Nathaniel bateu o punho na mesa com tanta força que um porta-retratos caiu, o vidro se espatifando no chão — uma foto antiga dele e Clara, sorrindo em algum evento de caridade anos atrás.

— Prepare o jato. Vamos até lá.

— Nathaniel, pensa bem. Se você for até esse iate sem entender exatamente o que está acontecendo, pode estar caminhando direto para uma armadilha.

— Eu não vou ficar sentado aqui vendo tudo que construí ser roubado na minha cara!

Blackstone respirou fundo, tentando pensar rapidamente numa estratégia.

— Tudo bem. Mas vamos com nossos próprios advogados, e com provas de que você ainda detém direitos legítimos sobre pelo menos parte dessas holdings. Chegar lá gritando não vai resolver nada.

Horas depois, o jato particular de Nathaniel sobrevoava o Mediterrâneo, aproximando-se lentamente das coordenadas onde o Solaris tinha sido localizado pela última vez.

Do lado de dentro, Nathaniel encarava o oceano através da janela, repassando mentalmente cada momento dos últimos anos, tentando entender onde exatamente tinha subestimado a mulher que dividiu sua cama por mais de uma década.

— Ela me chamou de “rei do concreto” uma vez — murmurou, mais para si mesmo do que para Blackstone. — Disse que eu construía impérios de pedra, mas nunca soube construir nada que durasse de verdade em casa.

— Talvez ela estivesse certa — respondeu Blackstone, cauteloso.

Nathaniel o encarou, furioso, mas não conseguiu argumentar.

Porque, no fundo, ele sabia que ela estava certa. E agora, prestes a confrontá-la a bordo de um iate que pertencia ao homem que aparentemente controlava seu império inteiro, ele finalmente entendia o tamanho do erro que tinha cometido ao subestimá-la durante tantos anos.

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