Chapter 2
Vincent não foi para casa naquela noite. Ficou sentado no escritório vazio, olhando para a mesa de Danielle do outro lado do vidro, como se ela fosse voltar se ele esperasse tempo suficiente.
Ela não voltou.
Na manhã seguinte, encontrou Marcus Reyes, o diretor financeiro, esperando na sala de reuniões com uma expressão que Vincent não conseguiu decifrar.
— Você soube — disse Vincent, sem pergunta.
— O escritório inteiro soube em dez minutos. — Marcus se sentou, cruzando os braços. — Você quer saber o que ninguém te contou nesses sete anos?
Vincent sentiu o estômago apertar.
— Fale.
— Em 2021, a Danielle recebeu uma proposta da Whitfield Capital. Diretora de operações. O dobro do salário dela aqui.
Vincent ficou parado.
— Ela nunca me contou isso.
— Porque ela recusou no mesmo dia. — Marcus balançou a cabeça. — Eu perguntei por quê. Ela disse: “O Vincent está no meio da fusão com a Kessler. Não posso sair agora.”
— A fusão da Kessler foi há cinco anos.
— Exatamente. — Marcus se levantou. — Sempre tinha uma razão pra ela ficar. Só que a razão sempre era você.
Vincent sentiu o peso daquilo se instalar no peito devagar, como um contrato que ele ainda não tinha lido até o fim.
Ele foi até a sala de Danielle — vazia agora, as prateleiras já meio esvaziadas. Encontrou uma caixa no canto, meio embalada. Dentro, entre pastas e canetas, havia um caderno pequeno, de capa marrom.
Ele sabia que não devia abrir. Abriu mesmo assim.
Nas primeiras páginas, anotações de trabalho — horários, lembretes, listas de compras de presente para clientes. Mas no meio do caderno, a letra mudava. Ficava mais apertada, mais pessoal.
“15 de março — Vincent trabalhou até as 23h de novo. Deixei chá na mesa. Ele nem perguntou quem trouxe.”
“2 de junho — Recusei a proposta da Whitfield hoje. Não contei pra ele. Ele ia achar estranho eu recusar por um motivo que eu mesma não sei explicar direito.”
“9 de setembro — Ele apresentou a namorada dele pra equipe hoje. Sorri o dia inteiro. Fui pro banheiro duas vezes.”
Vincent fechou o caderno como se tivesse tocado em algo que queimava.
Sua mãe ligou de novo enquanto ele ainda segurava o caderno.
— Você foi atrás dela? — perguntou Eleanor, sem cumprimento.
— Ainda não.
— Vincent Moretti. — A voz dela ficou afiada. — Eu observei aquela moça por sete anos. Ela adivinhava seus enjoos antes de você sentir. Sabia quando sua pressão estava alta só de olhar sua testa. E você a mandou catalogar mulheres como se fosse comprar um carro.
— Eu não pedi isso pra machucar ela.
— Não. Você pediu isso porque nunca imaginou que pudesse ser ela. — Eleanor suspirou, cansada. — Isso é pior, filho. Muito pior.
— O que eu faço agora?
— Você lê o que está bem na sua frente, pela primeira vez na vida.
A ligação caiu antes que ele pudesse responder.
Vincent voltou para o próprio escritório, o caderno ainda na mão, e olhou de novo para a pasta clara aberta sobre a mesa — Caroline, Rebecca, Lauren. Três rostos que ele tinha estudado por catorze dias, escolhidos por uma mulher que, segundo o próprio caderno dela, ia ao banheiro chorar quando ele apresentava outra pessoa pra equipe.
Ele pegou o telefone e ligou para Danielle. Caiu na caixa de mensagens depois do segundo toque.
Tentou de novo. E de novo.
Na quarta tentativa, uma mensagem chegou: “Por favor, não. Preciso de espaço pra pensar.”
Vincent olhou para as palavras por um longo tempo, o polegar parado sobre a tela.
Então ele fez algo que não tinha feito em sete anos de trabalho junto: cancelou a agenda inteira do dia.
Foi até o apartamento dela, um prédio simples no Brooklyn que ele só sabia o endereço porque tinha assinado, sem prestar atenção, um formulário de emergência médica anos atrás.
Bateu na porta. Ninguém atendeu.
Bateu de novo, mais forte.
A porta do vizinho se abriu em vez da dela. Uma mulher de meia-idade, de roupão, olhou pra ele com desconfiança.
— Ela não está — disse a vizinha. — Saiu com uma mala há uma hora.
O sangue de Vincent gelou.
— Mala? Pra onde?
— Não sei. Mas ela estava chorando quando entrou no táxi.
Vincent ficou parado no corredor, o caderno marrom ainda apertado na mão, entendendo, tarde demais, que talvez tivesse levado sete anos para ver Danielle Carter — e apenas algumas horas para perdê-la de vez.
