Chapter 1
Pediram para a secretária dele achar uma esposa — ela pediu demissão, e só aí Vincent Moretti percebeu que tudo o que procurava estava a seis metros da porta dele havia sete anos.
Por sete anos, Danielle Carter organizou a vida de Vincent Moretti com tanta perfeição que ele nunca percebeu o quanto da vida dela estava desaparecendo dentro disso.
Até que ele entregou a ela uma lista de qualidades que queria numa esposa — leal, inteligente, independente, indiferente a dinheiro, corajosa o suficiente para desafiá-lo — e pediu que ela encontrasse alguém assim.
Vinte e quatro horas depois, Danielle colocou o pedido de demissão sobre a mesa dele, e Vincent finalmente encarou a possibilidade de que a mulher que ele procurava era a mesma que ele nunca tinha realmente enxergado.
Danielle Carter deslizou o envelope branco sobre a mesa de mogno de Vincent Moretti com tanta discrição que ele quase confundiu com mais um contrato. Lá fora, no quadragésimo terceiro andar, Manhattan brilhava sob um céu duro de dezembro, torres prateadas recortadas contra a luz fria da manhã. Dentro da sala, o café de Vincent esfriava ao lado de uma pasta clara com fotos de três mulheres que ele poderia se casar. O envelope de Danielle parou ao lado dela como uma sentença.
— O que é isso? — ele perguntou.
— Meu pedido de demissão.
Vincent levantou os olhos. Em sete anos, ele tinha visto Danielle desarmar crises de agenda, acalmar investidores furiosos, controlar jornalistas e dizer na cara dele que estava errado enquanto vice-presidentes ficavam paralisados de silêncio.
Nunca tinha visto as mãos dela tremerem. Não estavam tremendo agora.
— Eu sei ler — ele disse. — Por que isso está aqui?
O rosto de Danielle continuou imóvel.
— Porque depois de sexta-feira, você não vai mais precisar que eu encontre uma esposa pra você. Vai precisar de uma nova secretária.
A palavra “secretária” soou estranha nos ouvidos dele. Tecnicamente Danielle era a secretária executiva dele, mas o cargo nunca tinha dado conta do que ela realmente fazia. Ela lembrava das consultas médicas da mãe dele, sabia quais diretores mentiam quando diziam que estava tudo bem, e conseguia adivinhar, só pelo jeito que ele afrouxava a gravata, se uma reunião tinha custado dinheiro ou confiança.
Vincent se levantou devagar.
— Alguém está te oferecendo mais dinheiro?
— Não.
— Então eu dobro seu salário.
Pela primeira vez, a decepção rachou a compostura dela.
— Você ainda acha que dinheiro resolve tudo.
Vinte e quatro horas antes, Vincent tinha entregado a ela a pasta clara e dito, no mesmo tom que usava para falar de aquisições:
— Ache uma esposa pra mim.
Seus conselheiros queriam estabilidade, a mãe dele queria uma família, e aos trinta e oito anos, solteiro e no centro de um império empresarial poderoso, Vincent tinha decidido que casamento era só mais um risco a gerenciar. Danielle tinha perguntado que tipo de mulher ele queria.
— Leal. Inteligente. Independente. Indiferente a dinheiro. Calma sob pressão.
Ela anotou cada palavra.
— Mais alguma coisa?
Vincent respondeu:
— Alguém que me diga a verdade quando todo mundo tiver medo demais pra fazer isso.
Os dedos dela apertaram o tablet.
— Isso pode ser difícil de encontrar.
Vincent quase sorriu.
— Por isso estou passando essa tarefa pra você.
Ele achou que estava fazendo o maior elogio que sabia dar.
Agora Danielle colocou o crachá ao lado do envelope.
— Vou terminar a transição até sexta.
— Danielle.
Ela parou na porta. Vincent se levantou.
— Isso não faz sentido nenhum.
O rosto dela suavizou, quase com dor.
— Esse é o problema, Vincent. Pra você, realmente não faz.
Então ela saiu, e ele ficou parado atrás da mesa até a porta de vidro se fechar.
A pasta continuou aberta na página de Caroline Whitmore, Rebecca Sloan e Lauren Pierce — três mulheres que Danielle tinha passado catorze dias pesquisando, porque Vincent confiava mais no julgamento dela do que no próprio. Ele lembrou das maneiras impecáveis de Caroline, e da irritação estranha que sentiu quando ela perguntou o que ele bebia quando estava sobrecarregado. Ele respondeu “chá”, e só depois percebeu que era Danielle quem colocava chá na mesa dele toda vez que ele não tinha dormido direito.
Rebecca tinha feito ele rir numa galeria em Soho, mas mesmo assim a atenção dele tinha ido parar em Danielle, que estava a seis metros dali. Lauren o desafiou em menos de dez minutos, exatamente como ele tinha pedido, mas na recepção beneficente da noite anterior, ela olhou para Danielle e disse:
— Sua secretária pode nos trazer champanhe?
Danielle esperou.
Vincent hesitou porque um investidor tocou o braço dele. Três segundos. Sete anos resumidos em três segundos.
Depois, Danielle disse a ele:
— Você não percebe o que as pessoas abrem mão por você, porque já se acostumou que todo mundo abre espaço pra sua vida.
Ele perguntou se aquilo era sobre Lauren.
— Não — ela respondeu. — É sobre mim.
Vincent olhou pela parede de vidro para a mesa vazia de Danielle e sentiu, pela primeira vez, que talvez a pessoa que mais o entendia estivesse falando uma língua que ele nunca tinha se dado ao trabalho de aprender.
Foi então que a mãe dele ligou. No momento em que Eleanor Moretti ouviu que Danielle estava se demitindo, ela ficou em silêncio.
— O que você fez? — ela perguntou.
O maxilar de Vincent travou.
— Por que todo mundo assume que eu fiz alguma coisa?
— Porque a Danielle aguenta você há sete anos.
Ele suspirou.
— Eu pedi pra ela encontrar uma esposa pra mim.
Outro silêncio tomou conta da ligação. Dessa vez, mais longo.
Então Eleanor sussurrou, com uma certeza devastadora:
— Ah, Vincent…
E antes que ele pudesse pedir uma explicação, ela desligou.
