Chapter 4
— Eu estou ouvindo, Vincent — repetiu Danielle, a voz tremendo de um jeito que ele nunca tinha escutado nela.
Por um instante, Vincent não soube por onde começar. Sete anos de reuniões, de negociações, de discursos ensaiados, e agora as palavras não vinham.
— Eu li seu caderno — ele disse, finalmente. — Eu sei que não deveria ter lido. Mas li.
Um silêncio pesado.
— Então você sabe — disse Danielle.
— Sei que recusou a Whitfield por minha causa. Sei sobre 2019, sobre o cara que reclamava que você trabalhava demais. Sei que você foi cuidar da minha mãe sozinha, num fim de semana, sem nunca me contar.
— Eu não fiz aquilo pra você descobrir depois, Vincent. Fiz porque quis.
— Eu sei. — A voz dele quebrou de leve. — E é exatamente por isso que eu me sinto um idiota. Sete anos, Danielle. E eu nunca perguntei uma vez sequer como estava o seu dia.
Do outro lado da linha, ele ouviu ela respirar fundo, tentando se segurar.
— Você quer saber a verdade? — ela disse. — Não é sobre você ter me pedido pra achar uma esposa. Isso doeu, mas eu ia sobreviver a isso. O que doeu de verdade foi perceber que, depois de sete anos, você ainda não sabia quem estava bem na sua frente.
— Eu sei agora.
— Sabe mesmo? — A voz dela ficou mais firme. — Ou só sabe porque eu fui embora?
Vincent fechou os olhos, sentindo o peso justo da pergunta.
— Talvez eu só tenha enxergado porque você foi embora — admitiu ele. — Mas isso não muda o que eu sinto agora. E o que eu sinto agora é que era você. Sempre foi você.
Sarah, ao fundo, murmurou algo que Vincent não conseguiu entender, e depois o som de passos, uma porta fechando. Danielle deve ter saído para o corredor, porque a voz dela ficou mais próxima, mais direta.
— Você não pode simplesmente decidir isso numa noite, Vincent. Não depois de sete anos fingindo que eu era só uma peça da engrenagem.
— Eu nunca pensei em você como uma peça.
— Então por que demorou tanto?
A pergunta ficou no ar como uma acusação justa. Vincent pensou em todas as respostas fáceis que poderia dar — que estava ocupado, que não tinha percebido, que achava que tinha tempo. Nenhuma delas era suficiente.
— Porque eu tinha medo — disse ele, finalmente. — Se eu admitisse que era você, eu ia ter que admitir que podia te perder. E era mais fácil fingir que você sempre ia estar lá, do jeito que sempre esteve.
Danielle ficou em silêncio por um longo momento.
— Isso não é justo comigo, Vincent.
— Eu sei. E eu não estou pedindo pra você voltar pro escritório amanhã como se nada tivesse acontecido. Só estou pedindo uma chance de te mostrar que eu enxerguei. De verdade.
— E se eu disser que preciso de tempo?
— Então eu espero. — A voz dele era firme agora, sem hesitação. — Quanto tempo for. Mas eu não vou fingir que não sinto o que sinto só porque é mais confortável pra mim.
Do outro lado, ele ouviu Danielle soltar um suspiro trêmulo, quase um soluço contido.
— Eu preciso desligar — disse ela. — Preciso pensar.
— Tudo bem. — Vincent apertou os olhos, tentando manter a voz firme. — Só… me diz uma coisa antes de desligar.
— O quê?
— Aquela página do caderno, de setembro. Sobre a namorada que eu apresentei pra equipe.
Um silêncio tenso.
— O que tem ela?
— Ainda dói? — perguntou Vincent, baixinho. — Ou já ficou no passado?
A resposta demorou. Quando veio, foi apenas um sussurro:
— Isso não é justo você perguntar agora.
E a ligação caiu, deixando Vincent parado no meio da sala, o telefone ainda encostado no ouvido, sem saber se tinha acabado de ganhar ou de perder tudo que importava.
