— Por favor — sussurrou o chefe da máfia mais temido do porto de Nova York, segurando o filho recém-nascido faminto sob as luzes moribundas da minha padaria.

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Chapter 3

O envelope continha fotografias, recortes de jornal antigos, e uma carta manuscrita que fez o rosto de Adrian empalidecer completamente conforme ele lia.

— O que é isso? — perguntei, incapaz de conter a curiosidade.

Ele demorou pra responder, os olhos ainda presos nas páginas.

— É sobre Isabel. Minha esposa.

— O que tem ela?

— Margaret era prima dela. Prima de segundo grau, mas próxima o suficiente pra ter sido praticamente criada junto com Isabel, como irmãs.

— E isso tem a ver com o envenenamento como?

Adrian entregou a carta pra mim, a caligrafia apressada, quase ilegível em alguns trechos.

Era de Margaret, escrita mas nunca enviada, aparentemente endereçada à própria consciência dela.

“Isabel nunca teria querido que essa mulher criasse o filho dela. Nunca teria aceitado ver uma estranha ocupando o lugar que era dela por direito. Se eu não fizer nada, essa padeira vai apagar completamente a memória de Isabel dessa casa, um dia de cada vez, até ninguém mais lembrar que ela existiu.”

Senti um arrepio percorrer minha espinha.

— Ela não queria matar o Lucas — falei, devagar, juntando as peças. — Ela queria me eliminar. O sedativo era pra mim, não pra ele.

Adrian ficou paralisado por um segundo, processando aquilo.

— A mamadeira de reserva. Ela nunca imaginou que fosse usada de verdade, porque você sempre amamenta ele diretamente. Ela devia ter colocado o sedativo na minha água, a que fica sempre ao seu lado quando você está com ele.

— E, por engano, ou por precipitação, a Priscilla usou a água errada pra preparar a mamadeira.

O horror da situação assentou entre nós dois, pesado e frio.

Confrontamos Margaret no quarto dela, cercados por Victor e mais dois seguranças, os objetos pessoais dela espalhados pela cama depois da revista.

Encontraram, escondido dentro de um livro antigo, um pequeno frasco do mesmo sedativo usado naquela manhã.

— Você queria envenenar a mim — falei, a voz tremendo entre raiva e alívio de que Lucas não tinha sido o alvo real. — Não o Lucas.

Margaret finalmente perdeu a compostura, as lágrimas escorrendo livres pelo rosto enrugado.

— Você não entende. Isabel era como minha irmã. Ela morreu tentando dar à luz aquela criança, e menos de um mês depois, essa mulher aparece do nada, dormindo no quarto ao lado, sendo tratada como se fosse a nova senhora dessa casa.

— Eu nunca tentei substituir a Isabel — falei, genuinamente chocada com a acusação. — Estou aqui pra manter o Lucas vivo, nada mais.

— Você acha que isso importa? — Margaret gritou, a voz quebrando. — Cada dia que você passa nessa casa, cada mamada, cada olhar carinhoso do Adrian na sua direção, é mais um dia que a memória de Isabel desaparece um pouco mais.

Adrian deu um passo à frente, o rosto duro como pedra.

— Margaret, você quase matou uma mulher inocente por causa de um luto que eu também carrego, mas que nunca me daria o direito de fazer o que você fez.

— Eu fiz por amor a ela, Adrian.

— Você fez por ciúme disfarçado de lealdade. Isabel nunca teria aprovado isso, e você sabe disso melhor do que ninguém.

Victor levou Margaret sob custódia, o rosto dela ainda banhado em lágrimas, murmurando o nome de Isabel repetidamente enquanto era conduzida pra fora do quarto.

Quando finalmente ficamos sozinhos, Adrian se sentou pesadamente na beirada da cama, as mãos cobrindo o rosto.

— Eu devia ter percebido — ele disse, a voz abafada. — O luto dela, a obsessão crescente com tudo que envolvia Isabel. Eu estava tão perdido no meu próprio luto que não vi o dela transbordando pra violência.

Sentei ao lado dele, Lucas ainda dormindo nos meus braços, e não disse nada por um longo momento, só deixando o silêncio existir entre nós, pesado, mas de alguma forma reconfortante.

— Ninguém culpa você por não ver, Adrian. O luto cega a gente pras coisas mais óbvias.

Ele levantou os olhos, encontrando os meus, e havia ali uma gratidão tão profunda que quase doía olhar diretamente.

— Você poderia ter ido embora hoje, depois de tudo isso. Ninguém culparia você.

— Eu sei.

— Por que você ainda está aqui?

Olhei pro Lucas, pra pequena mão dele agarrada no meu dedo mesmo dormindo, e depois pra Adrian, pro homem que eu tinha visto chorar em silêncio no dia em que nos conhecemos.

— Porque acho que a gente ainda não terminou de descobrir o que essa história significa pra mim, e talvez pra você também.

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