Por quase três horas, um estranho ficou passando a mão na minha coxa dentro do ônibus, enquanto eu estava sentada ao lado do meu filho

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Chapter 2

Eu fiquei parada no corredor escuro, as costas coladas na parede fria, ouvindo cada palavra que escapava pela fresta da porta da sala de oração.

“Amanhã de manhã, antes do café”, Julian continuou, a voz baixa, mas cheia de urgência. “Se ela desconfiar de alguma coisa, perdemos a janela. O advogado só vem até sexta-feira.”

“E se ela se recusar a assinar?”, perguntou uma voz feminina que eu reconheci como sendo da tia Colette.

“Ela não vai se recusar”, Julian respondeu, com uma confiança que me deu calafrios. “Ela é só uma viúva cansada, sozinha, com um filho pra criar. Vamos apresentar como proteção pro futuro do Leo. Ela vai assinar sem nem ler direito.”

Senti o sangue gelar. Eles estavam contando com o meu cansaço, com a minha vulnerabilidade, pra me fazer assinar alguma coisa sem entender o que era.

Voltei pro quarto de hóspedes na ponta dos pés, o coração ainda acelerado, e verifiquei se Leo continuava dormindo tranquilo na cama ao lado. Estava.

Na manhã seguinte, encontrei os papéis exatamente onde Martha, minha sogra, tinha dito que estariam: numa pasta de couro sobre a mesinha de centro da sala de estar, ao lado de uma caneta cara demais pra ser coincidência.

Abri a pasta com cuidado, sozinha na sala, antes de qualquer outra pessoa acordar.

Era um testamento.

Não o testamento de Arthur — pelo menos não diretamente. Era um documento de “transferência antecipada de participação societária”, transferindo trinta por cento das ações da Sterling Holdings do meu falecido marido, Daniel, diretamente pra Julian, com a justificativa de que, como tutora de um menor, eu não teria “capacidade adequada” pra administrar aquele patrimônio em nome do Leo.

Meu marido tinha morrido há oito meses, num acidente de carro. Eu ainda nem tinha processado completamente aquilo, e já estavam tentando me convencer a assinar os direitos do meu filho pra longe.

Ouvi passos atrás de mim e fechei a pasta rápido demais, o coração na garganta.

Era Arthur.

Ele estava de pé na porta, apoiado numa bengala, muito mais firme do que a imagem de “moribundo” que Martha tinha me passado ao telefone.

“Você não devia ter visto isso ainda”, ele disse, a voz cansada, mas não fraca como eu esperava.

“O senhor sabia disso?”, perguntei, segurando a pasta com as duas mãos, tentando controlar o tremor na voz.

Arthur se aproximou devagar, olhando pra porta atrás dele antes de responder, baixinho.

“Eu sei de mais coisas do que meu filho Julian imagina. E sei que você recebeu um aviso ontem, no ônibus.”

Meu coração parou. “Como o senhor sabe disso?”

“Porque fui eu quem mandou.”

Fiquei olhando pra ele, tentando entender aquela revelação. “O homem no ônibus trabalha pro senhor?”

“Ele se chama Simon. Trabalhou pra mim durante trinta anos, antes de se aposentar. Eu não confiava em mais ninguém pra te avisar sem que Julian descobrisse.”

“Por que não me ligou diretamente?”

Arthur olhou pra porta de novo, a preocupação evidente no rosto enrugado.

“Porque Julian monitora meu telefone há meses. E porque, Sarah, o que está em jogo aqui é muito maior do que essas ações.”

“Maior como?”

Ele hesitou, os olhos cheios de um peso que eu não conseguia decifrar completamente.

“Tem uma coisa que sua sogra e eu escondemos da nossa família há mais de vinte anos. E, se Julian conseguir essas ações antes de eu conseguir te contar a verdade toda, ele vai ter poder suficiente pra enterrar esse segredo pra sempre — e pra garantir que o Leo nunca saiba quem ele realmente é dentro dessa família.”

Ouvi passos se aproximando pelo corredor.

Arthur fechou a pasta rapidamente e a colocou de volta na mesinha, exatamente como estava antes.

“Finja que não viu nada”, ele sussurrou. “E encontre um jeito de ficar sozinha comigo hoje à tarde. Não tenho muito tempo antes que eles percebam que Simon já falou com você.”

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