Chapter 3
Passei a manhã inteira representando um papel — sorrindo pros parentes, respondendo perguntas superficiais sobre como o Leo estava indo na escola, fingindo que não tinha visto absolutamente nada de estranho.
Julian, ao meu lado no café da manhã, foi generoso demais com o charme.
“Sarah, sei que isso tudo deve ser difícil, vindo tão pouco tempo depois do que aconteceu com o Daniel”, ele disse, servindo café pra mim como se fosse um cavalheiro perfeito. “Mas quero que saiba que a família está aqui pra te apoiar. Em tudo.”
“Obrigada, Julian”, respondi, mantendo a voz neutra, calculando cada palavra.
Depois do almoço, consegui a brecha que Arthur tinha pedido. Martha levou as crianças — Leo e os dois filhos pequenos de uma prima — pro jardim, alegando que precisavam “tomar um pouco de ar”, e Julian foi resolver alguma coisa por telefone na varanda, deixando a casa quase vazia por alguns minutos.
Encontrei Arthur no escritório particular dele, a porta fechada com cuidado atrás de mim.
“Temos pouco tempo”, ele disse, já sentado atrás da escrivaninha, uma caixa de metal velha aberta na sua frente. “Sente-se.”
Sentei, o coração ainda acelerado.
“Há vinte e três anos”, Arthur começou, a voz mais firme do que eu tinha ouvido em todo o dia, “eu tive um caso. Não foi com a Martha que eu me casei. Foi antes, quando ainda estava construindo a empresa sozinho, numa viagem de negócios em Portland.”
Fiquei em silêncio, sem saber ainda pra onde aquilo levava.
“Dessa relação, nasceu uma filha. Eu nunca contei pra Martha na época. Fiz um acordo financeiro com a mãe da menina, garanti que ela nunca precisasse de nada, mas nunca reconheci publicamente.”
“Isso tem a ver com o testamento?”, perguntei, ainda tentando conectar os pontos.
“Tem tudo a ver.” Ele tirou da caixa metálica um envelope antigo, amarelado pelo tempo. “Porque, legalmente, essa filha — que hoje tem vinte e três anos, chamada Renata — também é herdeira da Sterling Holdings. E Julian descobriu isso há dois anos.”
Meu estômago revirou. “Como ele descobriu?”
“Contratou um investigador particular, depois que começou a suspeitar de transferências antigas que eu fazia pra conta da mãe dela. Desde então, ele vem tentando garantir controle suficiente da empresa antes que essa informação venha à tona — porque, se Renata for reconhecida oficialmente, a divisão de participação muda completamente. E Julian perderia boa parte do controle que ele acha que já é dele por direito.”
“E o testamento que ele quer que eu assine…”
“…é uma tentativa de consolidar as ações do Daniel antes que isso aconteça, transferindo pra ele o suficiente pra neutralizar qualquer reivindicação futura da Renata, mesmo depois que a verdade vier à tona.”
Fiquei olhando pra Arthur, tentando processar o tamanho daquela revelação. “E o Leo? Onde ele entra nisso?”
“Se você assinar essas ações pro Julian, o Leo perde não só a herança que é dele por direito, como perde qualquer voz futura numa empresa que, tecnicamente, também vai pertencer à irmã que ele nem sabe que existe.”
O som de passos no corredor nos fez congelar.
Arthur guardou o envelope de volta na caixa metálica rapidamente, fechando a tampa.
“Preciso que você confie em mim, Sarah, mesmo sem entender tudo ainda”, ele disse, rápido, baixinho. “Não assine nada. E, quando eu te der um sinal, preciso que você leve Leo pra conhecer alguém, discretamente, antes do fim de semana.”
“Quem?”
A porta começou a abrir.
“Renata”, ele sussurrou, um segundo antes de Julian entrar na sala, sorrindo daquele jeito calculado de sempre.
“Aí estão vocês dois”, Julian disse, os olhos passando de Arthur pra mim com uma desconfiança mal disfarçada. “Conversando sobre o quê?”
