Chapter 4
“Sobre os remédios dele”, eu respondi antes que Arthur precisasse inventar alguma coisa, minha voz mais calma do que eu me sentia por dentro. “Sua mãe me pediu pra confirmar os horários com o seu pai, já que ela está com as crianças no jardim.”
Julian olhou pra mim por um segundo a mais do que o necessário, como se avaliasse se comprava a explicação ou não.
“Certo”, ele disse, finalmente, virando-se pra Arthur. “Pai, o Dr. Halloway ligou. Quer remarcar a consulta de amanhã pra hoje à noite. Falou que é melhor conversarmos sobre o quadro clínico enquanto toda a família ainda está reunida.”
Havia algo estranho na formalidade daquela frase — “enquanto toda a família ainda está reunida” — como se Julian estivesse orquestrando o tempo de cada evento daquele fim de semana.
“Diga a ele que eu aceito”, Arthur respondeu, mantendo o tom neutro. “Mas quero que Sarah esteja presente também. Já que envolve o futuro do Leo.”
Julian hesitou, claramente sem gostar da ideia, mas sem uma justificativa pronta pra recusar.
“Claro, pai. Vou avisar todo mundo.”
Assim que ele saiu, Arthur se virou pra mim, a urgência de volta na voz.
“Ele está acelerando as coisas. Isso significa que ele sabe, ou desconfia, que o tempo está acabando.”
Naquela noite, o “médico” que apareceu não era exatamente quem eu esperava. Dr. Halloway, sim, mas acompanhado de um homem de terno que Julian apresentou rapidamente como “consultor da família” — na verdade, como eu descobriria depois, um advogado contratado especificamente pra formalizar a transferência de ações antes do fim de semana.
Durante o jantar, o clima ficou cada vez mais tenso. Julian insistia, de forma sutil, em trazer o assunto do testamento à tona, mencionando “proteção financeira pro Leo” e “simplificar as coisas antes que fique complicado demais pra Sarah administrar sozinha”.
“Eu não preciso de proteção”, eu disse, finalmente, cansada de fingir que não entendia o jogo. “Eu administro minhas próprias finanças perfeitamente bem, Julian.”
“Ninguém está duvidando disso, Sarah”, ele respondeu, o sorriso ficando mais tenso. “Só estamos pensando no melhor pro Leo, considerando que ele é muito jovem pra entender a complexidade dos negócios da família.”
“O Leo tem nove anos. Ele não precisa entender nada agora. Mas, quando tiver idade, ele vai precisar da herança completa que é dele por direito — não de uma fração que sobrou depois que outras pessoas decidiram o que era ‘melhor’ pra ele.”
O silêncio que se seguiu foi pesado o suficiente pra Martha desviar o olhar pro prato, desconfortável.
Depois do jantar, aproveitei um momento em que Julian estava distraído conversando com o advogado, e me aproximei de Arthur discretamente.
“O sinal”, eu disse, baixinho. “É agora?”
Ele assentiu, quase imperceptível. “Amanhã de manhã. Diga que vai levar Leo pra passear antes do café. Simon vai buscar vocês dois na esquina, três quarteirões daqui.”
“E se Julian perceber que sumimos?”
“Deixa que eu cuido do Julian amanhã de manhã. Você só precisa se concentrar em chegar até a Renata.”
Na manhã seguinte, saí de fininho com Leo antes mesmo do sol nascer completamente, dizendo a Martha que íamos “tomar café da manhã fora, só nós dois, pra ele espairecer um pouco”.
Simon estava esperando exatamente onde Arthur tinha dito, o mesmo homem discreto do ônibus, agora sem o disfarce de passageiro qualquer.
“Sra. Sterling”, ele disse, abrindo a porta do carro pra mim e pro Leo. “Vamos encontrar alguém que precisa saber que finalmente tem uma família.”
