Chapter 2
Moretti não olhou para o cardápio porque não precisava. Seus olhos estavam fixos em Emma, medindo cada movimento dela como quem avalia uma arma antes de decidir se vale a pena carregá-la.
— Café — ele disse, a voz baixa, quase entediada. — E me poupe da encenação de simpatia. Não estou com paciência hoje.
O tom cortou o ar como vidro quebrado. Atrás do balcão, Manny fez uma careta que dizia “eu avisei”. Os dois capangas continuaram de pé, imóveis, como estátuas de mau agouro.
Emma serviu o café sem pressa, sem tremer.
— Aqui ninguém encena simpatia por obrigação — ela respondeu, pousando a xícara com um baque seco de propósito. — Se quiser bajulação, tem um restaurante chique três quarteirões daqui que cobra trinta dólares pelo prato.
O silêncio na lanchonete ficou ainda mais pesado. O paramédico engoliu em seco. Um dos universitários largou o garfo.
Moretti ergueu uma sobrancelha, como se aquilo fosse a primeira coisa interessante que tinha acontecido em semanas.
— Você sabe quem eu sou.
— Sei — Emma disse. — Também sei que café não tem preço de respeito. Custa dois dólares e cinquenta, com reposição grátis.
Um dos capangas, o de sapatos engraxados, deu um passo à frente, o rosto contraindo de raiva.
— Você tá falando com quem, garota?
Moretti ergueu apenas dois dedos, sem olhar para trás, e o homem parou na hora, como um cachorro puxado pela coleira invisível.
— Deixa — Moretti disse, os olhos ainda em Emma. — É raro alguém aqui ter coragem de verdade. A maioria só finge.
— Eu não tenho tempo pra fingir — Emma respondeu, limpando um respingo de café no balcão. — Fingir dá trabalho. E eu já tenho trabalho suficiente.
Ele a estudou por um longo momento, como se estivesse decifrando um idioma estranho.
— Qual seu nome?
— Você não pediu com educação.
Isso quase arrancou dele algo parecido com um sorriso — só um puxão quase imperceptível no canto da boca, ali e sumindo antes que qualquer um pudesse jurar que tinha visto.
— Sta a raggiuni — ele murmurou, em siciliano, mais para si mesmo do que para ela. “Ela tem razão.”
Foi um erro de cálculo. Ele achou que ninguém ali entenderia.
Emma respondeu, na mesma língua, sem hesitar:
— Un mi cci mentu, sacciu com’è. — Não me engano, eu sei como é.
O tempo pareceu parar.
Manny, atrás do caixa, arregalou os olhos como se tivesse visto um fantasma. Um dos capangas trocou um olhar rápido e nervoso com o outro. Até o zumbido do letreiro de neon lá fora pareceu hesitar.
Moretti ficou imóvel.
Pela primeira vez em muito tempo — talvez em anos —, alguém tinha conseguido tirar dele a única coisa que ele nunca deixava escapar: a surpresa.
— Onde você aprendeu isso? — ele perguntou, a voz baixa agora, quase perigosamente calma.
— Minha avó — Emma respondeu, sustentando o olhar dele sem piscar. — Ela nasceu em Palermo. Me ensinou a rezar, a xingar e a cozinhar, tudo na mesma língua, antes de eu fazer dez anos.
Ele a encarou como se estivesse recalculando algo, reorganizando peças invisíveis dentro da própria cabeça.
— Interessante — ele disse, baixando os olhos para a xícara, depois voltando a erguê-los. — Muita gente nesta cidade finge não entender o que eu digo. Você é a primeira, em muito tempo, que entende — e ainda assim não finge medo.
— Talvez eu já tenha usado todo o medo que tinha — Emma respondeu, e havia algo cru naquilo, algo que ela não tinha planejado deixar escapar.
Moretti reparou. Ele sempre reparava.
— Todo mundo tem mais medo guardado do que imagina — ele disse, baixinho.
— E todo mundo tem mais coragem guardada do que os outros esperam — ela rebateu.
Por um instante, algo mudou no rosto dele — não suavidade, exatamente, mas uma espécie de atenção que ele raramente concedia a qualquer coisa que não fosse um problema a ser resolvido.
Ele bebeu um gole do café, sem pressa, sem tirar os olhos dela.
— Como é seu nome, garçonete que não tem medo e fala siciliano num balcão de lanchonete às três da manhã?
— Emma.
— Emma — ele repetiu, como se estivesse testando o peso da palavra. — Emma Gallagher, aposto, pelo sotaque irlandês que ainda sobra na sua voz por baixo do siciliano.
Ela não confirmou nem negou. Só segurou a garrafa de café com mais força.
— Você tem informação demais para quem só veio tomar café.
— Eu tenho informação sobre tudo o que importa nesta cidade — ele disse, e não havia arrogância na frase, só fato. — E, por acaso, eu sei
