Chapter 2
Fiquei parada segurando o envelope preto por um tempo que pareceu não ter fim, sentindo o peso do papel como se fosse feito de chumbo.
— Abre — disse Arthur, a voz tremendo. — Precisamos saber o que está acontecendo.
Minhas mãos tremiam enquanto eu quebrava o lacre.
Dentro havia uma única folha de papel, e um nome escrito em letras cursivas, elegantes, quase artísticas.
Dimitri Sokolov.
O ar saiu dos meus pulmões de uma vez.
Doze anos. Doze anos eu tinha passado tentando apagar aquele nome da minha memória, mudando de sobrenome, de sotaque, de cidade, de vida inteira.
— Nadia — chamou Arthur, percebendo minha palidez repentina. — Quem é esse homem?
Não consegui responder na hora. Meu corpo parecia ter voltado, num piscar de olhos, para um apartamento em São Petersburgo, para o som de tiros, para a mão do meu pai me empurrando para dentro de um armário e sussurrando “fica quieta, não importa o que você ouvir”.
— Ele quer você na mesa dele agora — repetiu Yuri, impaciente. — E não é um pedido.
Segui de volta para o salão, o envelope ainda apertado contra o peito, cada passo carregando o peso de uma vida inteira que eu tinha tentado enterrar.
Volkov estava exatamente onde eu o tinha deixado, a garrafa de Beluga já aberta, duas taças servidas.
— Sente-se — ele disse, em russo, apontando para a cadeira à sua direita.
Sentei, tentando manter as mãos firmes sobre o colo.
— Onde você conseguiu esse nome? — perguntei, sem conseguir esconder o tremor na voz.
— Isso é interessante — ele respondeu, ignorando minha pergunta. — Você não perguntou quem é Dimitri Sokolov. Perguntou onde eu consegui o nome. O que significa que você já sabe exatamente quem ele é.
Fechei os olhos por um segundo, percebendo que tinha me traído com uma única frase.
— Ele matou meu pai — falei, finalmente, em russo, deixando cair qualquer pretensão de sotaque americano. — Há doze anos, em São Petersburgo.
Volkov não pareceu surpreso. Apenas assentiu devagar, como quem confirma uma suspeita antiga.
— Seu pai era Mikhail Orlov.
Meu coração parou.
— Como você sabe esse nome?
— Porque Mikhail Orlov trabalhava para mim antes de trabalhar contra mim — respondeu Volkov, servindo as duas taças com uma calma que contrastava brutalmente com o terremoto acontecendo dentro de mim. — E porque, há doze anos, alguém dentro da minha própria organização decidiu que ele sabia demais sobre certas rotas de transporte que eu preferia manter em segredo.
— Você mandou matar meu pai.
— Não — ele respondeu, olhando diretamente nos meus olhos, sem nenhum sinal de mentira. — Eu descobri, tarde demais, que Dimitri Sokolov usou meu nome para justificar o assassinato dele, sem minha autorização, como parte de uma disputa de poder interna que eu só entendi completamente anos depois.
As palavras dele batiam contra tudo que eu tinha construído na minha cabeça durante uma década inteira — a certeza de que Volkov, ou alguém como ele, tinha sido o responsável direto pela morte do meu pai.
— Por que você está me contando isso agora? — perguntei, a voz quebrando ligeiramente.
— Porque, Nadia Orlova — ele disse meu nome verdadeiro devagar, saboreando cada sílaba —, você acabou de andar até a mesa de um homem que todo mundo neste restaurante tinha medo demais de se aproximar, falou russo perfeito, e ainda por cima me insultou com elegância suficiente para me fazer rir pela primeira vez em meses.
Ele se inclinou para frente.
— Isso não é coincidência. Isso é a filha de Mikhail Orlov mostrando exatamente a mesma coragem imprudente que custou a vida do pai dela.
Senti lágrimas ameaçando escapar, mas as segurei com toda a força que consegui reunir.
— Eu não vim aqui para reabrir feridas antigas — falei. — Eu só vim trabalhar, viver uma vida tranquila, longe de tudo isso.
— E, ainda assim, o destino te colocou bem na minha frente — respondeu Volkov, um brilho estranho nos olhos. — Dimitri Sokolov está em Nova York, Nadia. Chegou há três dias, negociando território que ele acredita ser seu por direito, agora que acha que eu envelheci demais para me importar.
Meu sangue gelou.
— Ele está aqui? Nesta cidade?
— A menos de trinta quarteirões daqui, jantando neste exato momento, com a arrogância de um homem que nunca imaginou que a filha de Mikhail Orlov sobreviveu, cresceu, e está parada bem na minha frente.
Eu me levantei tão rápido que quase derrubei a taça de vodca.
— Eu preciso ir embora.
— Sente-se, Nadia — disse Volkov, sua voz agora carregando uma autoridade que não admitia recusa. — Porque, se você sair correndo agora, sem entender exatamente o que está em jogo, Sokolov vai descobrir que você existe antes que você tenha qualquer chance de se proteger.
Sentei-me de volta, o corpo inteiro tenso como uma corda prestes a arrebentar.
— O que você quer de mim? — perguntei, finalmente, encarando aquele homem que o mundo inteiro temia.
Volkov sorriu, um sorriso lento, calculista, que me fez perceber que eu tinha acabado de entrar em um jogo muito maior do que qualquer bandeja de prata poderia carregar.
— Eu quero te oferecer a chance que você nunca teve há doze anos, Nadia: a chance de decidir o que acontece com Dimitri Sokolov, em vez de simplesmente sobreviver ao que ele decide fazer com você.
