Chapter 3
Naquela noite, depois que o restaurante fechou e os últimos guardas de Volkov desapareceram na escuridão de Manhattan, ele me levou para uma sala privada nos fundos do próprio Liora, um espaço que Arthur claramente reservava para conversas que nunca deveriam existir nos livros de reserva.
— Me conta o que você lembra daquela noite — pediu Volkov, servindo chá em vez de vodca, um gesto que me pegou de surpresa.
Fechei os olhos, deixando as lembranças voltarem, mesmo doendo como cacos de vidro.
— Eu tinha doze anos. Meu pai trabalhava até tarde, sempre nervoso, sempre olhando por cima do ombro. Naquela noite, ele me acordou no meio da madrugada e disse que precisávamos ir embora, imediatamente.
— Ele sabia que algo ia acontecer — completou Volkov, mais para si mesmo do que para mim.
— Antes de conseguirmos sair de casa, três homens invadiram o apartamento. Meu pai me escondeu dentro de um armário embutido, atrás de casacos de inverno, e disse para eu não sair, não importasse o que eu ouvisse.
Minha voz falhou.
— Eu ouvi tudo. Os gritos dele. Os tiros. E depois, silêncio.
Volkov ficou em silêncio, deixando o peso daquela memória se assentar entre nós.
— Fiquei escondida por horas, até minha tia aparecer na manhã seguinte e me tirar dali. Ela me levou para os Estados Unidos duas semanas depois, mudou meu sobrenome, me ensinou a esconder o sotaque, e nunca mais falamos sobre aquela noite.
— Sua tia foi sábia — disse Volkov. — Porque, se Sokolov soubesse que existia uma testemunha viva daquela noite, ele teria caçado você até encontrar.
— Por que ele mataria meu pai, afinal? O que meu pai sabia que era tão perigoso?
Volkov hesitou pela primeira vez desde que eu o conhecia, como se estivesse decidindo o quanto revelar.
— Seu pai descobriu que Sokolov estava desviando cargas inteiras de mercadoria através das rotas que eu supervisionava, vendendo informações para uma organização rival em troca de proteção pessoal caso algum dia eu descobrisse a traição.
— E meu pai ia contar para você.
— Seu pai já tinha marcado uma reunião comigo para a semana seguinte. Sokolov descobriu antes que essa reunião acontecesse.
A raiva que eu tinha guardado por doze anos, direcionada a um vulto sem rosto que eu imaginava ser Volkov, de repente encontrou um alvo concreto, real, específico.
— Ele matou meu pai para proteger a própria pele.
— E, nos últimos doze anos, construiu um império paralelo usando exatamente as informações e conexões que roubou de mim através da traição dele — completou Volkov, a voz agora carregada de um ódio antigo, cuidadosamente controlado. — Eu já suspeitava de tudo isso há anos, mas nunca tive provas suficientes para agir sem desencadear uma guerra que colocaria em risco centenas de pessoas inocentes envolvidas na minha organização.
— E agora?
— Agora, Nadia, o destino colocou nas minhas mãos algo que eu não tinha há doze anos: uma testemunha viva, capaz de confirmar publicamente a traição de Sokolov, além de provas financeiras que meus próprios investigadores reuniram silenciosamente ao longo dos últimos três anos.
Senti um arrepio percorrer minha espinha.
— Você quer que eu testemunhe contra ele.
— Eu quero te oferecer a escolha que você nunca teve. Você pode desaparecer essa noite, mudar de identidade novamente, viver escondida pelo resto da vida, sempre olhando por cima do ombro, exatamente como fez nos últimos doze anos.
— Ou?
— Ou pode me ajudar a expor Sokolov de uma vez por todas, garantindo que ele nunca mais represente perigo para você, nem para mais ninguém.
— Isso não colocaria minha vida em risco imediato?
— Colocaria — admitiu Volkov, sem rodeios. — Mas, sob minha proteção direta, o risco seria consideravelmente menor do que continuar vivendo à sombra dele, sem saber quando ele descobriria sua existência por conta própria.
Fiquei em silêncio por um longo momento, sentindo o peso de doze anos de medo colidindo com uma raiva que eu nunca tinha permitido florescer completamente.
— Se eu aceitar — falei, finalmente —, eu quero uma garantia. Não apenas para mim, mas para minha tia, que ainda mora em Queens.
— Ela já está sendo discretamente vigiada por dois dos meus homens desde o momento em que você atravessou aquela porta com a bandeja de prata — respondeu Volkov, um meio sorriso surgindo no rosto dele. — Eu não deixo detalhes ao acaso, Nadia.
Aquilo deveria ter me assustado, mas, de alguma forma estranha, me trouxe um alívio que eu não sentia há anos.
— Por onde começamos? — perguntei, sentindo a determinação tomar o lugar do medo, pela primeira vez desde que Yuri tinha colocado aquele envelope preto na minha mão.
Volkov se levantou, estendendo a mão para selar aquele acordo perigoso.
— Começamos amanhã à noite, numa reunião que Sokolov não sabe que está prestes a se tornar sua própria armadilha.
