Chapter 2
Acordei de verdade horas depois, o quarto agora iluminado por uma luz suave de abajur, a tempestade lá fora já mais fraca.
Eli dormia num berço improvisado ao lado da cama, a respiração tranquila subindo e descendo, como se as últimas horas não tivessem acontecido.
Tentei me sentar, e uma dor aguda percorreu minhas costelas, me fazendo soltar um gemido baixo.
— Devagar.
Gabriel estava sentado numa poltrona no canto do quarto, ainda de terno, agora seco, os olhos vermelhos de quem não tinha dormido nem um minuto.
— Quanto tempo eu… — comecei, a voz rouca.
— Onze horas.
Olhei para Eli.
— Ele está bem?
— Graças a você.
Havia algo na voz de Gabriel que eu nunca tinha ouvido antes, nem nas reuniões mais tensas, nem nos momentos mais frios com investidores nervosos.
Gratidão misturada com algo que parecia medo.
— Quem foram eles? — perguntei.
— Ainda estamos descobrindo. Mas alguém sabia exatamente qual carro do comboio atacar, e exatamente quando.
— Isso significa…
— Isso significa que alguém próximo vazou informação.
O silêncio que se seguiu carregava um peso diferente, o tipo que só existe quando confiança começa a rachar.
Gabriel se levantou, aproximando-se da cama devagar, como se tivesse medo de me machucar mais só de chegar perto.
— Por que você fez aquilo? — ele perguntou. — Podia ter deixado eles levarem o menino e fugido sozinha. Ninguém teria te culpado.
— Ele é um bebê, Gabriel. Eu não ia simplesmente entregar ele.
— A maioria das pessoas pensaria primeiro na própria vida.
— Talvez eu não seja a maioria das pessoas.
Ele ficou me olhando por um momento longo demais, como se estivesse reavaliando cada suposição que já tinha feito sobre mim nos últimos dois anos.
— Eu sempre soube que você era competente — ele disse, finalmente. — Não sabia que você era corajosa desse jeito.
— Eu também não sabia — admiti, sentindo o cansaço me envolver de novo.
Mason apareceu na porta, hesitante.
— Chefe, encontramos alguma coisa.
Gabriel trocou um olhar comigo antes de sair, uma promessa silenciosa de que voltaria.
Fiquei sozinha com Eli por um tempo, observando o peito pequeno dele subir e descer, sentindo uma conexão estranha se formar, algo que ia além do dever ou do acaso.
Quando Gabriel voltou, o rosto estava mais duro do que antes.
— O que aconteceu? — perguntei.
— Encontramos um rastreador no carro que te deu carona. Alguém colocou ali antes de sairmos do prédio.
— Alguém de dentro da sua própria segurança.
— É o que parece.
— Você tem alguma ideia de quem?
Gabriel hesitou, e aquela hesitação me disse que ele já tinha um nome em mente, mesmo que não quisesse dizer em voz alta.
— Ainda não tenho certeza suficiente para agir.
— Mas tem uma suspeita.
— Tenho um histórico. E histórico, nesse mundo, geralmente significa alguma coisa.
Ele se sentou na beirada da cama, mais perto do que qualquer situação profissional jamais teria permitido.
— Claire, eu preciso que você e Eli fiquem aqui, protegidos, até resolvermos isso.
— E minha vida lá fora? Meu apartamento, meu trabalho?
— Considere isso pausado temporariamente. Vou providenciar tudo que você precisar.
Eu devia ter discutido. Devia ter exigido mais explicações, mais controle sobre a própria vida que estava sendo reorganizada por um homem que, até algumas horas atrás, era apenas meu chefe distante.
Mas alguma coisa na forma como ele olhava para mim, misturando gratidão, culpa e algo mais que eu não ousava nomear, me fez simplesmente concordar com um aceno de cabeça.
