Sangue tinha secado quase preto na barra do meu casaco bege rasgado, um dos sapatos tinha sumido, e meu rosto inchado ainda ardia onde eles me acertaram — mas nada disso importava, porque o bebê de seis meses dormindo contra o meu peito estava vivo

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Chapter 3

Os dias seguintes se transformaram numa rotina estranha dentro da casa segura, cercada por seguranças e protocolos que eu nunca tinha imaginado fazer parte da minha vida.

Gabriel aparecia todas as manhãs para ver Eli, e invariavelmente acabava ficando mais tempo do que planejava, sentado na sala enquanto eu preparava a mamadeira ou trocava a fralda.

— Você não precisa ficar — falei, numa dessas manhãs, tentando entender aquela nova dinâmica entre nós.

— Eu sei.

— Então por quê?

Ele olhou para Eli, que segurava firme o dedo dele com a mãozinha minúscula.

— Porque, pela primeira vez em onze meses, eu não sinto que estou prestes a perder ele também.

Aquela resposta ficou martelando na minha cabeça pelo resto do dia.

Comecei a perceber padrões dentro daquela casa que não fizeram sentido imediato: conversas que paravam quando eu entrava numa sala, olhares trocados entre Mason e outros seguranças, um clima de desconfiança que crescia silenciosamente.

Numa tarde, encontrei por acaso uma pasta esquecida sobre a mesa do escritório de Gabriel, que ele tinha deixado destrancado por engano.

Não devia ter olhado.

Mas olhei.

Dentro, fotos de vigilância, relatórios financeiros, e um nome sublinhado várias vezes em vermelho: Victor Reese.

O nome de um dos homens mais próximos de Gabriel, alguém que eu já tinha visto circulando pela casa segura várias vezes, sempre com um sorriso fácil e uma familiaridade que sugeria anos de confiança mútua.

Quando Gabriel entrou e me viu com a pasta na mão, seu rosto se fechou instantaneamente.

— Isso não é da sua conta, Claire.

— Você suspeita de Victor.

— Eu disse que não é da sua conta.

— Ele estava no comboio naquele dia?

Gabriel hesitou, e aquela hesitação foi resposta suficiente.

— Ele organizou as escalas de segurança daquela semana.

— Gabriel.

— Eu sei o que parece. Mas Victor trabalha comigo há oito anos. Ele estava ao lado do meu irmão quando ele morreu.

A menção ao irmão pairou no ar como algo que carregava mais peso do que as palavras simples sugeriam.

— O que aconteceu com seu irmão? — perguntei, suavemente, sentindo que estava pisando em território frágil.

Gabriel se sentou pesadamente na cadeira em frente à mesa, os ombros curvando por um segundo antes de se recompor.

— Acidente de avião. Pelo menos foi isso que todo mundo me disse na época.

— Você não acredita nisso.

— Eu tinha certeza de que era mentira. Mas nunca consegui provar. E Victor foi quem mais me ajudou a tentar investigar, na época.

— Então por que ele apareceria agora, numa lista de suspeitos?

— Porque padrões se repetem, Claire. E às vezes as pessoas em quem mais confiamos são exatamente aquelas capazes de nos trair sem que percebamos a tempo.

Fiquei em silêncio, absorvendo o peso daquela desconfiança que parecia consumir Gabriel por dentro havia quase um ano.

— O que você vai fazer?

— Investigar com cuidado. Sem alarmar ele antes da hora certa.

Naquela noite, depois de colocar Eli para dormir, encontrei Gabriel na varanda da casa segura, olhando para o jardim escuro com uma expressão distante.

— Você não devia carregar tudo isso sozinho — falei, me aproximando.

— Estou acostumado.

— Isso não significa que seja saudável.

Ele olhou para mim, um sorriso cansado se formando nos lábios.

— Desde quando você virou minha terapeuta, Bennett?

— Desde que salvei seu sobrinho e quase morri fazendo isso. Acho que ganhei o direito de me preocupar com você também.

Ele riu, um som baixo e genuíno que eu já tinha aprendido a valorizar mais do que gostaria de admitir.

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