Chapter 6
As semanas seguintes trouxeram uma calma que eu nunca tinha experimentado desde que entrei naquele mundo perigoso e complexo que era a vida de Gabriel Kane.
Com Doyle neutralizado e Victor removido de qualquer posição de confiança, a ameaça que pairava sobre a família Kane finalmente começou a se dissipar.
Voltei, aos poucos, a alguns aspectos da minha vida anterior, embora nada mais parecesse exatamente igual ao que era antes daquela noite no túnel.
Meu apartamento continuava lá, intocado, mas passei cada vez menos tempo nele, encontrando-me repetidamente atraída de volta para a casa onde Eli crescia dia após dia, e onde Gabriel, gradualmente, deixava as paredes ao redor do próprio coração ficarem mais baixas.
Numa tarde tranquila, sentada no jardim da propriedade principal com Eli brincando no colo, já mostrando os primeiros sinais de tentar engatinhar, Gabriel se aproximou e sentou ao meu lado, algo que tinha se tornado rotina nas últimas semanas.
— Recebi uma proposta de emprego para você hoje — ele comentou, casualmente demais para ser realmente casual.
— Ah é? De quem?
— De mim.
Olhei para ele, confusa.
— Você já é meu chefe, Gabriel.
— Não mais como contadora.
— Então como o quê?
Ele hesitou, algo raro nele, e por um momento pareceu genuinamente nervoso.
— Eu estava pensando em algo mais permanente. Você, eu, Eli. Uma vida real, não apenas proteção temporária numa casa segura.
Meu coração acelerou, entendendo exatamente o que ele estava tentando dizer sem dizer diretamente.
— Gabriel Kane, você está tentando me pedir em namoro de um jeito estranhamente formal?
Ele riu, aquele som raro e genuíno que eu tinha aprendido a amar profundamente ao longo daquelas semanas intensas.
— Estou tentando dizer que não imagino mais minha vida, ou a de Eli, sem você nela.
— Isso é bem mais direto que uma proposta de emprego.
— Eu nunca fui bom com palavras bonitas, Claire. Mas sou bom em reconhecer quando algo, ou alguém, vale mais que qualquer risco.
Olhei para Eli, que sorria sem entender absolutamente nada da conversa ao redor dele, e depois para Gabriel, cujos olhos carregavam uma sinceridade que nenhuma reputação perigosa conseguiria esconder.
— Eu também não imagino minha vida longe de vocês dois — admiti, finalmente, sentindo um peso enorme se dissolver no ar da tarde.
Ele segurou minha mão, entrelaçando os dedos com cuidado, o silêncio entre nós carregando uma paz que meses atrás parecia completamente impossível.
Naquela noite, colocando Eli para dormir juntos pela primeira vez como algo que parecia, finalmente, uma família de verdade, me peguei olhando para as cicatrizes que ainda marcavam meu corpo, lembranças daquela noite no túnel que mudou tudo para sempre.
Cicatrizes que, ao invés de me assombrarem, agora contavam uma história diferente: a de uma mulher comum que, num momento de coragem instintiva, encontrou um propósito e um amor que jamais imaginou possível.
Gabriel se aproximou por trás, envolvendo-me com os braços, o queixo apoiado suavemente no topo da minha cabeça, os dois observando Eli dormir em paz pela primeira vez sem nenhuma sombra de perigo pairando sobre ele.
— Obrigado — ele sussurrou, a voz carregada de uma emoção que raramente permitia transparecer. — Por não ter fugido naquela noite. Por ter lutado por ele quando tinha todo motivo para pensar apenas em si mesma.
Virei-me em seus braços, encarando aqueles olhos que, meses atrás, me apavoravam com sua reputação, mas que agora representavam a única coisa que eu realmente chamava de lar.
— Eu não fugi porque, no fundo, eu já sabia que algumas coisas valem qualquer risco — respondi, baixinho. — Eu só não imaginava que uma delas seria você.
E enquanto a chuva começava a cair suavemente lá fora, ecoando aquela primeira noite em que tudo mudou para sempre, me peguei pensando: quantas vezes a vida nos coloca literalmente no meio do fogo, só para nos mostrar exatamente para onde, e para quem, sempre deveríamos ter caminhado?
