Todas as portas do hospital travaram no exato segundo em que o exame de sangue do meu filho de sete anos revelou um segredo que eu escondia havia anos

Written by

in

Chapter 3

— Isso não é possível — Adrian murmurou, mais para si mesmo do que para qualquer um de nós.

— Quem são os Volkov? — perguntei, o medo apertando ainda mais o peito.

Adrian levou um momento antes de responder, os olhos fixos num ponto distante, como se estivesse revendo anos de memórias dolorosas.

— Viktor Volkov era meu maior rival há oito anos. Nós disputávamos os mesmos territórios, os mesmos contratos. Numa negociação que deu terrivelmente errada, o irmão mais novo dele morreu.

— E ele culpa você por isso?

— Ele tem motivo para culpar. Eu estava lá quando aconteceu, mesmo não tendo sido eu quem puxou o gatilho.

Senti um arrepio gelado percorrer minha espinha.

— Adrian, isso foi há oito anos. Ethan tem sete. Como essa organização pode ter algo a ver com o sangue dele?

Ele ficou em silêncio por um momento, juntando peças que claramente o perturbavam profundamente.

— O marcador genético raro que Ethan carrega… ele vem da minha linhagem, Grace. É extremamente específico, passado apenas por uma pequena parte da minha família, incluindo Viktor Volkov, que por coincidência é meu primo distante, do lado da minha avó.

— Então ele sabia da existência de Ethan?

— Não sei como, mas parece que sim. E se ele bloqueou justamente o único estoque de sangue compatível fora do protocolo internacional que eu controlo, isso não é coincidência. É uma mensagem.

— Que tipo de mensagem?

Adrian me olhou, e pela primeira vez desde que ele tinha entrado naquele corredor, vi genuíno medo atravessar o rosto dele.

— Que ele sabe que meu filho existe. E que está disposto a deixá-lo morrer, só para provar que ainda pode me atingir onde mais dói.

Um dos homens de Adrian se aproximou, um tablet próprio na mão.

— Chefe, conseguimos localizar outro estoque do marcador raro. Numa clínica em Chicago. Mas o tempo de transporte é apertado — pelo menos seis horas de voo, considerando o clima atual.

— Ethan não tem seis horas — o médico interveio, a voz tensa. — Sem essa transfusão nas próximas três horas, o quadro dele vai se agravar rapidamente.

O desespero começou a tomar conta de mim.

— Então o que fazemos?

Adrian ficou em silêncio por um segundo, os olhos fechados, como se estivesse calculando cada opção possível.

— Existe outra alternativa — ele disse, finalmente. — Eu mesmo posso ser o doador direto. Meu tipo sanguíneo é compatível com o marcador de Ethan, e como sou geneticamente mais próximo dele do que qualquer estoque armazenado, a transfusão direta tem uma taxa de sucesso ainda maior.

— Isso é seguro? — perguntei, olhando para ele, pela primeira vez em sete anos vendo Adrian não como uma ameaça, mas como a única pessoa que talvez pudesse salvar nosso filho.

— Para mim, sim — o médico respondeu. — Precisamos apenas confirmar a compatibilidade exata através de um teste rápido, mas dado o vínculo genético direto, as chances são excelentes.

— Então faça — Adrian disse, já arregaçando a manga da camisa. — Agora.

Enquanto os médicos preparavam tudo, um dos seguranças de Adrian se aproximou, o rosto tenso.

— Chefe, recebemos confirmação. Os homens de Volkov estão a caminho do hospital. Chegada estimada: quarenta minutos.

Meu sangue gelou.

— Ele vai vir pessoalmente? — Adrian perguntou.

— Segundo nossa fonte, sim.

Adrian olhou para mim, depois para a porta da Sala de Trauma Três, calculando cada movimento como se estivesse jogando xadrez com a vida do próprio filho.

— Precisamos reforçar a segurança de todo o andar — ele ordenou. — Ninguém entra ou sai sem autorização direta minha. Se Volkov quer terminar isso aqui, ele vai descobrir que eu não vou deixar chegar perto do meu filho.

Enquanto os homens se movimentavam, executando as ordens, Adrian se virou para mim, a voz mais suave do que eu esperava.

— Grace, eu sei que você tem todos os motivos para não confiar em mim. Mas eu preciso que você confie agora, só até resolvermos isso. Pelo Ethan.

Olhei para ele, para os sete anos de medo, de mentiras, de fuga, tudo colapsando naquele único corredor de hospital.

— Tudo bem — sussurrei. — Pelo Ethan.

← Capítulo AnteriorPróximo Capítulo →

Lista de Capítulos