Chapter 3
Sentados no carro de Gerald, estacionado a uma rua de distância da casa de Marissa, Adrian sentiu o tempo esticar enquanto o advogado organizava os pensamentos.
— Você lembra do Nathaniel Cole? — Gerald perguntou, finalmente.
Adrian franziu a testa, o nome ecoando vagamente em algum canto da memória.
— O nome me soa familiar, mas não consigo lembrar de onde.
— Ele trabalhou pra Whitmore Infraestrutura. Engenheiro-chefe, há uns cinco anos. Foi ele quem identificou uma falha estrutural grave num dos projetos residenciais que seu pai tinha aprovado pra construção rápida, cortando custos.
Um arrepio frio percorreu a espinha de Adrian.
— Que falha?
— Fundação inadequada pro solo da região. Nathaniel insistiu, por escrito, várias vezes, que o projeto precisava ser revisado antes de continuar. Seu pai ignorou os relatórios pra cumprir prazo com os investidores.
— E o que aconteceu?
Gerald hesitou, os dedos batendo nervosamente no volante.
— O prédio foi concluído. Seis meses depois, parte da estrutura cedeu durante uma reforma interna. Duas pessoas morreram. Nathaniel tentou expor tudo publicamente, mostrando que tinha alertado a empresa antes.
O coração de Adrian disparou.
— Isso nunca apareceu em nenhum registro que eu já vi.
— Porque seu pai enterrou o caso. Pagou um acordo extrajudicial enorme pras famílias das vítimas, silenciou a imprensa, e demitiu Nathaniel sob a acusação forjada de negligência, exatamente o oposto do que realmente aconteceu.
— E Nathaniel?
Gerald baixou os olhos.
— Ele nunca mais conseguiu emprego como engenheiro depois disso. Ninguém contratava alguém “demitido por negligência” de uma empresa como a Whitmore. Ele morreu quatro anos atrás, num acidente de carro, oficialmente classificado como fadiga ao volante.
Adrian sentiu o mundo girar levemente.
— Nathaniel Cole era o marido da Marissa.
— Era.
— E ela sabia de tudo isso? Sabia que era minha família quem tinha destruído a vida dele?
— Ela sabia. E, quando ele morreu, ela precisava desesperadamente de um emprego que pagasse as contas, e o único disponível, através de uma agência terceirizada, foi… limpar a casa do filho do homem que arruinou a carreira do marido dela.
O silêncio que se seguiu foi sufocante.
— Por que ela aceitou? — Adrian sussurrou, mais pra si mesmo.
— Porque órfãos de justiça não têm o luxo de escolher orgulho no lugar de sobrevivência, Adrian.
Adrian sentiu uma vergonha profunda, quase física, se instalar no peito.
— E o envelope? O que tinha dentro?
— Documentos originais que Nathaniel guardou antes de ser demitido. Relatórios técnicos, e-mails internos provando que ele alertou a diretoria repetidamente. Cópias que ele escondeu, temendo que algo assim acontecesse.
— Por que ela guardou isso por tanto tempo sem usar?
— Porque, sem recursos pra um processo longo contra uma empresa do tamanho da sua, ela sabia que não tinha chance nenhuma. E, além disso… — Gerald hesitou — ela tinha medo de perder o único emprego estável que conseguiu, se a verdade viesse à tona.
Adrian fechou os olhos, a cabeça latejando com o peso de tudo aquilo.
— E por que você está com o envelope agora?
— Porque, Adrian, quando você pediu a ficha completa dela hoje de manhã, o sistema automaticamente sinalizou o nome do Nathaniel pro departamento jurídico, já que ele ainda consta como parte envolvida num processo tecnicamente “suspenso”, nunca oficialmente encerrado. Fui até a casa dela avaliar se era hora de reabrir o caso, com ou sem o conhecimento do seu pai.
— Meu pai sabe que você está fazendo isso?
Gerald encarou Adrian, a expressão grave.
— Seu pai não pode saber ainda. Porque, Adrian, se ele descobrir antes de você decidir o que fazer com essa informação, ele vai enterrar tudo de novo, do jeito que fez da última vez.
Adrian sentiu a raiva e a vergonha se transformarem, lentamente, em algo mais firme, mais decidido.
— Então me dê esse envelope.
— Adrian…
— Eu preciso ler cada palavra que meu pai enterrou. E depois, Gerald, eu vou decidir exatamente como corrigir isso.
