“Uma mãe que esconde a filha entre pilhas de caixas não tem moral para continuar neste emprego”, disparou Brenda, a gerente, apontando para o meu uniforme.

Written by

in

Chapter 4

Minhas pernas tremiam, mas dei um passo à frente, saindo da cozinha.

Não ia deixar Alexander enfrentar aquilo sozinho.

“Derek”, eu disse, tentando manter a voz firme. “Você não devia ter vindo até aqui.”

“E você não devia ter fugido”, ele respondeu, o sorriso ainda no rosto, mas os olhos frios. “Achei que fôssemos uma família, Hannah.”

“Uma família não faz o que você fazia”, eu disse, sentindo cada palavra rasgar algo antigo dentro de mim. “Uma família não grita até a gente ter medo de respirar alto. Uma família não tranca a porta e some por dois dias só pra provar um ponto.”

O rosto dele se contraiu, só por um segundo, antes de voltar à máscara de calma.

“Isso é exagero seu”, ele disse, olhando de relance para Alexander, como se buscasse aprovação. “Ela sempre foi dramática.”

“Tenho as mensagens”, eu disse, sentindo uma coragem que não sabia que ainda tinha. “Tenho as fotos dos hematomas. Tenho o boletim de ocorrência que fiz naquela noite, antes de decidir não seguir com ele porque tinha medo do que você faria depois.”

O salão ficou em silêncio absoluto.

Alexander olhou para mim, e pela primeira vez desde que nos conhecemos, vi algo além de calma controlada em seu rosto — vi raiva contida, guardada com cuidado.

“Você tem provas disso guardadas?”, ele perguntou baixinho.

“Tenho”, respondi. “Nunca tive coragem de usá-las. Só queria sumir, recomeçar, proteger a Paige.”

Derek deu um passo em direção a mim, e Alexander se moveu instantaneamente, ficando entre nós dois.

“Acho melhor você ir embora, Sr. Sanders”, disse Alexander, a voz agora completamente sem calor. “Antes que eu decida entregar essas provas para quem realmente pode usá-las contra você — a polícia, a imprensa, ou seus sócios na Sanders Capital, que provavelmente adorariam saber que tipo de homem é o parceiro deles.”

Derek encarou Alexander por um longo momento, calculando.

“Isso ainda não acabou”, ele disse, por fim, dando um passo para trás. “Ela é a mãe da minha filha. Vou conseguir pelo menos direito de visita, nem que seja a última coisa que eu faça.”

“Se você tiver algum direito real, vai exercê-lo através de um tribunal, com supervisão, como qualquer pessoa com o histórico que você tem”, Alexander respondeu. “Até lá, não se aproxime dela. Nem da Paige. Nem deste restaurante.”

Derek olhou para mim uma última vez, os olhos carregados de algo que fez meu estômago revirar — não raiva, mas uma promessa silenciosa de que aquilo não terminaria ali.

Então ele se virou e saiu, os passos ecoando pelo salão vazio.

Só quando a porta se fechou atrás dele foi que percebi que estava tremendo dos pés à cabeça.

Alexander se virou para mim, o rosto suavizando pela primeira vez desde que Derek tinha chegado.

“Você está bem?”, ele perguntou.

“Não sei”, respondi, sincera. “Faz dois anos que vivo com medo de que ele me encontrasse. E agora ele encontrou.”

“Ele não vai chegar perto de vocês duas de novo”, Alexander disse, com uma convicção que eu quase consegui acreditar. “Eu prometo isso.”

Foi então que percebi algo que não tinha notado antes: a forma como ele dizia “vocês duas”, como se já nos tivesse incluído em algo maior do que uma simples questão de emprego.

“Por que você está tão disposto a brigar essa briga que nem é sua?”, perguntei, a voz mais suave agora.

Alexander ficou em silêncio por um longo momento, os olhos fixos nos meus.

“Porque, há dois dias, eu segurei sua filha nos braços e ela parou de chorar”, ele disse finalmente. “E, desde então, não consigo parar de pensar que talvez vocês duas precisem de alguém do lado de vocês. E talvez eu também precise disso.”

Foi a primeira vez, desde que Paige nascera, que alguém disse algo assim para mim — e, pela primeira vez em muito tempo, eu quis acreditar.

← Capítulo AnteriorPróximo Capítulo →

Lista de Capítulos