Você já ouviu histórias de mulheres que perdem tudo e se reconstroem das cinzas.

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Chapter 2

O grito de Marisol ecoou pela sala de flores antes que ela sequer processasse o que tinha acontecido.

Isabel deu um passo para trás, a trança cortada ainda na mão, olhando para ela com uma expressão quase de surpresa — como se não esperasse que aquilo doesse tanto quanto doeu.

“Ah, relaxa”, Isabel disse, jogando a trança sobre a mesa de arranjos como quem descarta um pedaço de fita. “Já vai crescer de novo.”

Marisol levou a mão à nuca, sentindo a ausência onde antes havia peso, história, a herança da avó.

Não conseguiu dizer nada.

As lágrimas vieram antes das palavras.

Isabel revirou os olhos, já se afastando em direção à porta.

“Volte ao trabalho”, ela disse, por cima do ombro. “Ainda tem muito a fazer antes de amanhã.”

Marisol ficou sozinha na sala de flores, cercada por pétalas e o cheiro doce de lírios, segurando a própria trança cortada como se aquilo pudesse, de alguma forma, ser costurado de volta.

Foi Odette quem a encontrou, quase uma hora depois, ainda sentada no chão frio da sala.

“Meu Deus”, Odette sussurrou, ajoelhando-se ao lado dela. “Meu Deus, criança, o que ela fez com você?”

Marisol não conseguiu responder de imediato.

Só mostrou a trança na mão.

Odette a abraçou com força, o corpo tremendo de uma raiva que Marisol nunca tinha visto na mulher gentil que sempre guardava um prato para ela.

“Isso não vai ficar assim”, Odette disse, a voz baixa e firme. “Eu vou contar ao Sr. Dwarte.”

“Não”, Marisol disse rapidamente, o medo antigo voltando com força. “Vou perder o emprego. Ela é a noiva dele.”

“E você é uma pessoa, Marisol”, Odette respondeu, segurando o rosto dela com as duas mãos. “Isso não foi um erro. Foi crueldade escolhida. E o Rafael Dwarte, seja lá quem for, precisa saber o tipo de mulher que está prestes a colocar no comando desta casa.”

Naquela noite, Odette não esperou a permissão de Marisol.

Foi direto ao escritório de Rafael, ainda de luzes acesas àquela hora, e bateu à porta sem hesitar.

Rafael ergueu os olhos dos papéis na mesa, surpreso com a visita tardia.

“Odette? O que houve?”

“Preciso que o senhor venha comigo”, ela disse, a voz tremendo de indignação contida. “Agora.”

Ele a seguiu até a cozinha, onde Marisol ainda estava sentada, o rosto marcado de lágrimas secas, a trança cortada sobre a mesa à sua frente como uma prova silenciosa.

Rafael parou na porta, o rosto perdendo a cor.

“O que aconteceu?”, ele perguntou, a voz baixa.

“Isabel”, Odette respondeu antes que Marisol pudesse dizer qualquer coisa. “Ela cortou o cabelo dela. À força. Na sala de flores, sozinha, quase meia-noite.”

Rafael olhou para a trança na mesa, depois para Marisol, e algo em seu rosto mudou completamente — a expressão distante e cansada que ela sempre associava a ele desapareceu, substituída por algo muito mais duro.

“Marisol”, ele disse, se aproximando devagar, como quem se aproxima de um animal ferido. “Sinto muito. Profundamente.”

“Não precisa se desculpar, senhor”, ela sussurrou. “O senhor não fez nada.”

“Não”, ele concordou. “Mas devia ter prestado atenção antes. E vou consertar isso agora.”

Ele se virou para Odette.

“Chame Isabel até aqui. Imediatamente.”

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