Chapter 3
Isabel chegou à cozinha minutos depois, o roupão de seda balançando, uma expressão de tédio já preparada no rosto.
“Rafael, é quase uma da manhã, o que é tão urgente que não pode esperar até—”
Ela parou ao ver a trança sobre a mesa.
Por um segundo, algo parecido com hesitação cruzou seu rosto.
Depois desapareceu, substituído por um sorriso fino.
“Ah, isso”, ela disse, como se comentasse o tempo. “Eu já expliquei a ela que era necessário. Não podíamos ter os funcionários parecendo desalinhados na frente dos convidados.”
“Você cortou o cabelo dela sem permissão”, Rafael disse, a voz perigosamente calma. “Segurando-a contra a vontade dela.”
“Estou exagerando isso mais do que precisa”, Isabel respondeu, revirando os olhos. “É cabelo, Rafael. Vai crescer.”
“Não é sobre o cabelo”, ele disse, dando um passo à frente. “É sobre o que você achou que tinha o direito de fazer com uma pessoa que trabalha nesta casa.”
Isabel cruzou os braços, a máscara de tédio começando a rachar.
“Ela trabalha para a sua família. Eu vou ser parte desta família. Achei que tinha autoridade para—”
“Você não tem autoridade nenhuma sobre ninguém aqui”, Rafael a interrompeu, a voz agora cortante. “E, pelo visto, isso não foi um incidente isolado.”
Ele olhou para Odette.
“Há quanto tempo isso vem acontecendo?”
Odette hesitou, olhando para Marisol, que baixou os olhos, envergonhada.
“Meses”, Odette respondeu finalmente. “Pequenas coisas. Comentários. Ela sempre encontrava um jeito de fazer Marisol se sentir menor.”
O rosto de Isabel ficou vermelho.
“Vocês estão exagerando tudo isso porque não gostam de mim”, ela disse, a voz subindo de tom. “Sempre foi assim. Vocês dois, cochichando pelos cantos, tratando essa gorda como se fosse—”
“Chega”, Rafael cortou, a palavra saindo como um trovão baixo.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
“Amanhã”, ele disse, “você vai se desculpar com a Marisol. Publicamente, se for necessário. E, depois disso, vamos conversar sobre se este noivado realmente ainda faz sentido.”
“Você não pode estar falando sério”, Isabel disse, a voz agora carregada de pânico genuíno. “Rafael, meu pai é sócio da sua família em três contratos diferentes. Isso teria consequências—”
“Então talvez você devesse ter pensado nisso antes de humilhar uma funcionária desta casa”, Rafael respondeu, sem se abalar.
Isabel olhou para Marisol, os olhos cheios de um ódio que não tentava mais esconder.
“Isso ainda não acabou”, ela disse baixinho, antes de sair da cozinha, os passos ecoando pelo corredor de mármore.
Rafael se virou para Marisol, a expressão suavizando completamente.
“Sinto muito”, ele disse novamente. “Você merecia ser protegida muito antes disso.”
“O senhor não precisa fazer nada por mim”, Marisol sussurrou. “Já é mais do que eu esperava.”
“Não”, Rafael disse, se ajoelhando ao lado da cadeira dela para ficar na altura dos olhos dela. “Você merece muito mais do que isso, Marisol. E eu devia ter percebido antes.”
