Chapter 1
Assim que ela mandou a mensagem, a realidade voltou com tudo.
Os olhos de Mila se arregalaram. O coração dela disparou. O pânico correu pelo corpo dela como água gelada. Ela ficou olhando para a tela, para as três palavras brilhando na luz fraca do apartamento. Vem me buscar.
— O que eu acabei de fazer? — ela sussurrou para o quarto vazio.
Largou o celular no sofá como se ele tivesse queimado a pele dela. As mãos foram direto para o rosto. Aquela não era ela. Ela não fazia esse tipo de coisa. Não convidava o perigo. Não cruzava linhas que não davam mais para voltar atrás.
Ela tinha passado vinte e seis anos sendo cuidadosa. Era a assistente que nunca errava, que nunca falava fora de hora, que nunca dava motivo para ninguém reparar nela. Cuidava da agenda de Luca Romano — um dos homens mais poderosos e perigosos da cidade — e fazia isso tão discretamente, tão bem, que tinha virado parte do cenário. Invisível. Segura.
E agora tinha destruído tudo isso com três palavras ditas bêbada.
Os segundos pareciam minutos. Ela levantou, sentou de novo, pegou o celular, largou de novo. Nenhuma resposta. Talvez ele nem fosse responder. Talvez achasse que foi engano. Talvez amanhã aquilo tudo parecesse só um pesadelo bobo.
Foi quando o celular vibrou.
O corpo inteiro dela travou. Uma mensagem nova acendeu a tela. “Onde você está, Mila?”
O coração dela martelava nos ouvidos. Aquilo não era brincadeira. Não estava sendo ignorado. Era real.
Ela nem sabia direito por que tinha mandado aquela mensagem para ele. A pergunta bateu assim que o pânico começou a passar, quando o silêncio do apartamento voltou a pesar. Por que ele? Entre todo mundo na cidade — amigos, colegas de trabalho, até estranhos — por que os dedos dela tinham escolhido justamente Luca Romano?
Ele não era só o chefe dela. Luca Romano era poder embrulhado num terno impecável. O tipo de homem que não precisava levantar a voz porque a sala inteira se curvava na direção dele assim que ele falava. Olhos frios que não deixavam nada passar. Ordens ditas baixinho que soavam menos como pedido e mais como fato consumado.
Os homens tinham medo dele sem nem saber explicar direito por quê. Ela via isso todo dia no escritório. Executivos com o dobro da idade dela se empertigavam quando ele entrava na sala. Conversas morriam no meio da frase. Até gente com cargo mais alto que o dela tratava ele com um respeito cuidadoso que parecia, na verdade, medo.
E Mila — Mila ficava fora do caminho dele.
Trabalhava na empresa jurídica dele, escondida com segurança atrás de papelada e agendas. Cuidava da agenda dele, filtrava as ligações, lidava com os e-mails que mais ninguém tinha permissão de tocar. O mundo dela eram pastas organizadas e eficiência silenciosa. O mundo dele eram salas trancadas e conversas que paravam quando ela entrava.
Existia uma linha invisível entre os dois. Ela nunca tinha tocado nele, nunca flertado, nunca ficado perto demais por tempo demais. Mantinha a cabeça baixa, fazia o trabalho, ia para casa. Essa era a regra.
Só que, naquela noite, a regra tinha se quebrado.
Ela ficou olhando para o celular. A última mensagem de Luca brilhando suavemente na tela. “Onde você está, Mila?”
O peito dela apertou. O que mais assustava não era só a mensagem que ela tinha mandado. Era a verdade por trás dela. Lá no fundo, debaixo de anos de cautela, ela sabia exatamente para quem ligar. Porque Luca Romano assustava todo mundo — menos ela.
Tentou lembrar da primeira vez que percebeu isso. Talvez tenha sido o jeito como ele sempre esperava ela terminar de falar, mesmo quando os outros a interrompiam. Ou como ele nunca levantava a voz com ela, mesmo quando algo dava errado. Ou aquela vez, baixinho, que ele disse “Pode ir para casa mais cedo hoje”, depois de reparar que as mãos dela tremiam de cansaço. Sem perguntas. Sem julgamento. Só controle. Calma. Certeza.
Mila abraçou os próprios braços. Naquela noite, a cidade parecia grande demais. O barulho lá fora parecia ameaçador em vez de festivo. Ela não se sentia mais bêbada. Só exposta. Vulnerável de um jeito que ela odiava admitir.
Estava com medo. Não de algo específico. Não de uma pessoa ou de uma sombra no corredor. Tinha medo de ficar sozinha.
O celular vibrou de novo. “Estou perguntando de novo. Você está segura?”
A garganta dela apertou. Era isso, não era? Luca Romano não fazia perguntas à toa. Não checava sem motivo. Se ele estava perguntando se ela estava segura, era porque ele se importava — pelo menos o suficiente para garantir que ela não estivesse em perigo.
E aquilo abriu uma rachadura dentro dela.
Ela tinha passado a vida inteira sendo cuidadosa, sendo boa, sendo invisível. Ninguém nunca checava se ela estava bem, a não ser quando isso era obrigação de alguém. Mas Luca — ele não precisava perguntar.
Ela digitou devagar, escolhendo cada palavra como se pudesse explodir. “Acho que sim. Estou em casa.”
A resposta veio quase na hora. “Manda o endereço.”
O coração dela tropeçou. Aquilo não era mais preocupação. Era ação. Ela hesitou. Aquele era o momento de parar, de rir de si mesma, de dizer que tinha sido engano. Ainda dava tempo de recuar, de proteger a vidinha pequena e previsível que ela conhecia.
Mas então imaginou a noite se arrastando. Os fogos apagando. Mais um ano começando exatamente igual ao anterior — quieto, vazio, intocado.
Os dedos dela se moveram. Mandou o endereço.
No instante em que fez isso, uma calma estranha tomou conta dela. Fosse lá o que aquilo fosse, ela já tinha escolhido. E a verdade finalmente ficou clara. Ela não tinha mandado mensagem para Luca Romano porque ele era poderoso, perigoso, ou porque era seu chefe. Tinha mandado porque, num mundo que nunca tinha parecido seguro para ela, ele era o único homem que parecia controle, em vez de caos.
