Chapter 2
Dez minutos depois, a campainha tocou.
Mila ficou parada no meio da sala, o coração batendo tão forte que ela conseguia sentir o pulso no pescoço. Olhou pelo olho mágico da porta e viu Luca Romano parado do lado de fora, o terno impecável mesmo àquela hora da noite, os olhos escuros varrendo o corredor antes de focar na porta dela.
Ela abriu.
— Você veio — foi tudo que ela conseguiu dizer.
— Você pediu — ele respondeu, simples, entrando sem esperar convite, os olhos correndo pelo apartamento pequeno, avaliando cada detalhe com aquela atenção que ele dava a tudo.
— Eu não devia ter mandado aquela mensagem.
— Mas mandou.
Não havia julgamento na voz dele. Só constatação.
Mila cruzou os braços, ainda tentando entender por que as pernas dela tremiam tanto, se era pelo álcool ou pela presença dele ocupando um espaço que sempre tinha sido só dela.
— Está tudo bem com você? — ele perguntou, a voz mais baixa do que ela estava acostumada a ouvir no escritório.
— Estou. Só… envergonhada.
— Não precisa estar.
Ele se aproximou devagar, parando a uma distância respeitosa, mas perto o suficiente para que ela sentisse o cheiro do perfume dele, familiar de tantas manhãs entregando pastas na mesa dele.
— Por que eu, Mila?
A pergunta pegou ela de surpresa.
— Como assim?
— Você tem amigos. Família. Por que, num momento de vulnerabilidade, os seus dedos escolheram justamente meu número?
Ela sentiu o rosto esquentar, e não era só o álcool.
— Eu não sei explicar direito.
— Tenta.
Mila respirou fundo, encarando aqueles olhos que assustavam tanta gente, mas que para ela nunca tinham parecido perigosos.
— Porque você é a única pessoa que nunca me fez sentir invisível de verdade. Todo mundo passa direto por mim, Sr. Romano. Menos você.
Alguma coisa mudou na expressão dele — sutil, quase imperceptível, mas ela viu.
— Luca — ele corrigiu. — Fora do escritório, me chama de Luca.
— Luca — ela repetiu, testando o nome na própria boca.
Ele deu mais um passo, e agora a distância entre eles era quase inexistente.
— Eu reparo em você há mais tempo do que você imagina, Mila.
— Reparava como?
— Do jeito que você organiza minha agenda sem eu nunca precisar pedir duas vezes. Do jeito que você fica até tarde quando sabe que eu tenho reunião importante, mesmo sem eu falar nada. Do jeito que você nunca me trata com medo, quando todo mundo ao meu redor trata.
— Eu tinha medo — ela admitiu. — No começo.
— E agora?
Antes que ela pudesse responder, o celular dele vibrou no bolso, o som cortando o momento como uma faca.
Luca franziu a testa ao ver o nome na tela, e a expressão dele mudou completamente — o calor que tinha aparecido nos olhos dele sumindo, substituído por uma tensão que Mila reconhecia dos piores dias no escritório.
— Preciso atender — ele disse, já se afastando um passo.
— Está tudo bem?
Ele não respondeu na hora, os olhos fixos na tela por mais um segundo antes de atender.
— Fala.
Mila só conseguiu ouvir metade da conversa, mas o suficiente para sentir um arrepio gelado descer pela espinha.
— Como assim ela recebeu uma ligação de um número desconhecido essa noite? — Luca perguntou, a voz ficando mais dura a cada palavra. — Antes ou depois de ela ter saído do bar?
Mila sentiu o sangue gelar.
Alguém tinha ligado para ela? Ela nem lembrava de receber chamada nenhuma naquela noite, só se lembrava do próprio impulso bêbado de mandar aquela mensagem para Luca.
Ele desligou o telefone, o rosto agora completamente sério, qualquer traço da suavidade de minutos atrás desaparecido.
— Mila, eu preciso te fazer uma pergunta importante, e preciso que você pense bem antes de responder.
— Que pergunta?
— Alguém te ofereceu uma bebida essa noite? Alguém que você não conhecia bem?
Ela parou, tentando reconstruir a noite na cabeça, o álcool ainda deixando tudo um pouco embaçado.
— Sim… teve um homem no bar. Disse que trabalhava com importação, comprou uma rodada pra minha mesa toda. Por quê?
O rosto de Luca ficou tenso de um jeito que ela nunca tinha visto antes, nem nos momentos mais difíceis do escritório.
— Porque, segundo minha equipe de segurança, esse mesmo bar foi frequentado essa semana por um homem ligado a um dos meus maiores inimigos nos negócios. E esse homem esteve especificamente perguntando sobre quem trabalha comigo.
