Chapter 1
Quarenta e oito horas antes de eu me casar com uma mulher que eu não amava, usei a chave de emergência e entrei no apartamento da minha assistente. Encontrei ela seminua na mesa da cozinha, tentando costurar o próprio braço sozinha.
Sangue nunca me assustou. Mas aquele anel de latão tremendo do lado da mão dela, sim — porque ele pertencia à família Bellandi, a mesma em que eu estava prestes a entrar pelo casamento. E debaixo do anel havia uma foto: o carro do meu irmão morto, em chamas.
Duas horas antes, meu maior problema era o mapa de mesas do casamento.
A chuva batia forte nas janelas da sala de reuniões da Hale Maritime, no trigésimo oitavo andar, no centro de Baltimore, enquanto seis homens discutiam rotas de frete. Eu ficava perto do vidro, vendo o porto desaparecer numa água cinza e reflexos quebrados.
Aos trinta e oito anos, eu já tinha aprendido que o silêncio assustava mais as pessoas do que qualquer grito. Quando eu parava de falar, os homens geralmente começavam a repensar qualquer mentira que estavam prestes a me contar.
— O Píer Doze é mais seguro — insistiu Marcus Bellandi. — Meu pai já resolveu com os fiscais.
— Isso — respondi — é exatamente o que me preocupa.
Do outro lado da mesa, Vanessa Bellandi cruzou as pernas com elegância. Em dois dias, ela seria minha esposa.
Bonita, refinada, criada para o mesmo mundo brutal que eu tinha herdado. O anel de noivado brilhou sob a luz quando ela disse:
— Meu pai só está tentando ajudar.
— Nas nossas famílias, ajuda geralmente vem junto com uma faca.
Alguns homens sorriram.
Vanessa não.
Nosso casamento nunca teve nada a ver com amor. Depois que meu irmão mais velho, Ethan, morreu há três anos, a organização Hale se fragmentou, e eu herdei negócios, inimigos e alianças que eu jamais quis.
Os Bellandi controlavam os contratos de transporte marítimo na costa leste. Minha família controlava armazéns, transportadoras e influência política suficiente para impedir que perguntas incômodas virassem problemas federais.
Um casamento encerraria a guerra fria entre as famílias.
Era isso que eu ficava repetindo pra mim mesmo.
Negócio.
Sobrevivência.
Responsabilidade.
Palavras que os homens usam quando não querem admitir que se renderam.
Então olhei para a cadeira ao meu lado.
Vazia.
Aquilo me incomodou mais do que qualquer outra coisa naquela sala.
Nora Reed sentava ali em quase todas as reuniões havia cinco anos. Oficialmente, era minha assistente executiva. Na prática, era a única pessoa capaz de impedir que minha vida desmoronasse sob o próprio peso.
Ela lembrava de cada cláusula de contrato, de cada rancor, de cada pagamento suspeito, de cada mentira que alguém já tinha me contado. Sabia quando uma reunião precisava terminar antes que as discussões virassem tiro, e sabia exatamente como eu tomava café dependendo da hora do dia.
Às duas da tarde, ela tinha entrado na minha sala usando uma blusa creme e uma expressão que eu nunca tinha visto antes.
— Eu preciso sair.
— Por quanto tempo?
— Não sei.
Aquilo me fez levantar os olhos.
Nora sempre sabia.
— Alguém está doente?
— Não.
— Então o que aconteceu?
Os olhos dela encontraram os meus, e alguma coisa ali quase me fez levantar da cadeira.
— Desculpa, Desmond.
Ela nunca tinha me chamado de Desmond no trabalho.
Depois foi embora.
Quatro horas depois, ainda não tinha voltado.
Vanessa percebeu que eu estava olhando para a cadeira vazia de Nora.
— Cadê ela?
— Saiu mais cedo.
Vanessa sorriu de leve. — Que rebelde.
Eu não disse nada.
— Minha mãe precisava que ela revisasse o posicionamento das mesas da recepção.
— Nora trabalha pra mim.
— Por mais dois dias.
Virei devagar.
— Como assim?
O sorriso de Vanessa sumiu.
E a resposta que ela me deu foi o motivo de eu ter dirigido direto até o apartamento de Nora, usado a chave de emergência que ela nunca soube que eu tinha, e abrir a porta pra encontrar sangue no chão.
