Quarenta e oito horas antes de eu me casar com uma mulher que eu não amava, usei a chave de emergência e entrei no apartamento da minha assistente.

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Chapter 4

As palavras dela demoraram a fazer sentido, como se meu cérebro se recusasse a processar rápido demais.

— Isso é impossível — falei, mesmo sabendo, no fundo, que nada mais naquela noite parecia impossível.

— Ela não organizou. Mas sabia. E ficou calada.

— Como você sabe disso?

— Porque ela me contou, Desmond. Há dois anos, bêbada, numa festa da família, ela disse que sentia culpa por “não ter avisado seu irmão a tempo”.

Encostei a cabeça na parede do beco, deixando a chuva fina molhar o rosto, como se aquilo pudesse limpar alguma coisa por dentro.

— E você nunca me contou.

— Eu não tinha provas. Só a fala de uma mulher bêbada numa festa.

— Ainda assim.

— Ainda assim eu devia ter contado. Eu sei.

Um carro passou devagar na rua principal, os faróis cortando o beco por um segundo antes de sumir. Meu corpo inteiro travou.

— Precisamos sair daqui — falei. — Se alguém já sabe que fugimos pela escada de incêndio, essa rua não é segura.

— Pra onde?

— Você tem o pen drive?

— Escondido num cofre de aluguel, no banco na Charles Street.

— Abre amanhã de manhã.

— Amanhã de manhã eu deveria estar organizando os últimos detalhes do seu casamento — ela disse, com uma risada amarga que não chegava aos olhos.

Peguei meu celular, as mãos ainda tremendo, e liguei pro único número em que eu confiava cegamente havia trinta e oito anos.

— Quem você está ligando?

— Minha irmã.

Bianca atendeu no terceiro toque, a voz sonolenta.

— Desmond? São dez da noite, o que…

— Preciso que você tire nossa mãe da casa de campo amanhã de manhã. Sem explicação, sem perguntas, só tira ela de lá.

Um silêncio pesado do outro lado da linha.

— Isso tem a ver com o casamento?

— Tem a ver com Ethan.

Outro silêncio, mais longo ainda.

— Eu sempre soube que aquele acidente não fazia sentido — ela sussurrou finalmente.

Desliguei antes que ela pudesse perguntar mais, guardando o celular no bolso ao lado do anel de latão que parecia queimar através do tecido.

Nora se encolheu mais contra a parede, o frio finalmente parecendo alcançá-la, ou talvez fosse só o medo tomando o lugar da adrenalina.

— O que você vai fazer sobre o casamento? — perguntou ela.

— Eu não vou casar com a filha do homem que matou meu irmão.

— Se você cancelar de repente, sem provas públicas, Salvatore vai agir antes de você conseguir se proteger.

— Então eu preciso das provas antes do café da manhã.

Foi nesse momento que uma segunda sombra apareceu na boca do beco, alta, parada, observando.

Empurrei Nora atrás de mim, o corpo tenso, pronto pra qualquer coisa.

— Desmond.

A voz era de Marcus Bellandi, calma demais pra alguém que tinha acabado de encontrar o noivo da irmã escondido num beco às dez da noite.

— Marcus.

— Meu pai está preocupado. Alguém invadiu o sistema de segurança do apartamento da sua assistente.

— Ela não foi invadida. Ela mora aqui.

Marcus deu um passo à frente, os olhos passando de mim pra Nora, parando no curativo improvisado no braço dela.

— O que aconteceu com você? — perguntou ele, quase gentil demais.

— Um acidente doméstico — respondeu Nora, a voz firme apesar do medo visível nos ombros.

— Curioso. Meu pai recebeu um alerta de que o chip de rastreamento dela parou de transmitir há três horas. Exatamente na hora de um “acidente doméstico”.

Senti o corpo inteiro de Nora enrijecer atrás de mim.

— O que você quer, Marcus? — perguntei, direto.

— Quero que você entenda uma coisa, Desmond, com todo respeito que ainda tenho por você. — Ele deu mais um passo. — O casamento vai acontecer em dois dias, com ou sem a cooperação de todo mundo nesse beco.

— E se eu disser não?

O sorriso de Marcus não chegou aos olhos, exatamente como o de Vanessa nunca chegava.

— Então eu sugiro que você pense na sua mãe, na sua irmã, e principalmente… — ele olhou pra Nora, devagar — na pessoa que você claramente veio proteger essa noite.

O ar pareceu sumir do beco inteiro.

— Isso é uma ameaça?

— É um lembrete. — Marcus recuou um passo, ajeitando o paletó molhado pela chuva. — Nos vemos no altar, Desmond.

Ele desapareceu tão silenciosamente quanto tinha aparecido, deixando só o eco dos passos na rua vazia.

Nora finalmente respirou, um som quebrado, quase um soluço contido.

— Eles sabem — disse ela. — Eles sabem que eu sei, e agora sabem que você sabe.

— Então não temos mais dois dias pra decidir nada.

— Temos até amanhã de manhã, antes que o banco abra e antes que Salvatore perceba que estamos indo atrás do pen drive.

Olhei pro céu, pra chuva que não parecia querer parar, pro reflexo distorcido dos prédios na água acumulada no chão do beco.

— Então vamos precisar de mais do que um pen drive, Nora. Vamos precisar de um plano pra sobreviver ao dia depois de usá-lo.

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