Chapter 1
Matteo Moretti bateu na esposa grávida de sete meses com tanta força que ela foi arremessada contra a ilha de mármore da cozinha.
A cabeça de Elena bateu na quina.
Depois, no chão.
Por um segundo terrível, Matteo apenas ficou olhando para ela.
Ela estava encolhida de lado, embaixo das luminárias pendentes da cobertura deles em Manhattan, uma mão presa sob o próprio corpo, a outra repousando perto da curva da barriga. Os olhos estavam abertos, mas não enxergavam nada.
— Matteo… — ela sussurrou.
Quase não saiu som nenhum.
Depois ela parou de se mexer.
A respiração de Matteo saía pesada pelo nariz.
Ele olhou para os papéis espalhados pelo chão da cozinha — extratos financeiros, registros de empresas de fachada, números de contas, anotações à mão — e a raiva que tinha explodido dentro dele foi se transformando em outra coisa. Algo mais frio.
Não era arrependimento.
Era cálculo.
Ele ajeitou o punho da própria camisa.
Depois pegou o celular.
Não ligou para a emergência.
Ligou para o motorista.
Quando Gino Russo entrou na cobertura quatro minutos depois, encontrou Elena caída ao lado da ilha e Matteo servindo dois dedos de bourbon num copo de cristal.
Gino parou.
Trabalhava para a família Moretti havia onze anos. Já tinha carregado envelopes lacrados, esperado do lado de fora de galpões trancados, levado homens a reuniões das quais alguns nunca voltaram.
Gino tinha aprendido, havia muito tempo, que sobreviver naquele mundo dependia de enxergar só o que mandavam ele enxergar.
Mas Elena era diferente.
Ela lembrava do dia da formatura da filha dele.
Levava café para a equipe de segurança quando tempestades de neve os deixavam presos a noite toda.
Uma vez, ficou duas horas sentada ao lado de Gino numa sala de espera de hospital, quando a esposa dele precisou de uma cirurgia de emergência, porque disse que ninguém deveria esperar sozinho.
E agora ela estava sangrando no chão da cozinha de Matteo Moretti.
— Leva ela para o Lexington — disse Matteo, sem olhar para ele. — O Dr. Colton está esperando.
Gino o encarou.
— O que aconteceu?
Matteo ergueu os olhos.
A pergunta morreu entre os dois.
— Ela caiu.
Gino olhou ao redor da cobertura, que não tinha um único andar a mais.
— Não tem escada aqui.
Matteo bebeu devagar.
— Então ela caiu contra a ilha.
Gino entendeu o aviso.
Se abaixou e ergueu Elena com cuidado.
Ela estava assustadoramente leve, exceto pelo peso morno e redondo do bebê entre os dois corpos.
Sangue molhou a manga de Gino.
O maxilar dele travou.
— O que eu digo pro médico?
— A verdade — disse Matteo.
Gino olhou para ele.
Matteo sorriu, sem nenhum calor no sorriso.
— Ela teve um acidente.
Vinte minutos depois, Gino tomou a decisão mais perigosa da própria vida.
Passou direto pela clínica particular da família Moretti.
E continuou dirigindo.
Levou Elena para o Harbor Metropolitan Medical Center, um hospital grande e independente, onde o sobrenome Moretti abria bem menos portas.
Na entrada da emergência, enfermeiros correram até o carro.
— Ela tem trinta e um anos — disse Gino. — Sete meses de gravidez. Não acorda.
— O que aconteceu?
Gino olhou pelas portas de vidro enquanto levavam Elena correndo.
Sua boca ficou seca.
— Ela caiu.
A mentira teve um gosto diferente dessa vez.
Uma enfermeira perguntou o nome dele.
Pela primeira vez em onze anos, Gino deu o próprio nome, em vez do nome de Matteo.
Depois ficou sentado no carro até o amanhecer.
Às 6h14, mandou uma única mensagem.
Não para a polícia.
Não para Matteo.
Para a advogada de Elena.
Carol Hartwell tinha sessenta e dois anos, olhar afiado, cabelos grisalhos, e era famosa entre advogados corporativos por saber ouvir mais do que qualquer outra pessoa na sala.
O celular dela vibrou enquanto ela fazia café.
NÚMERO DESCONHECIDO.
Elena está no Harbor Metropolitan. Estado crítico. O bebê está vivo. Não confie nos Moretti.
Carol leu a mensagem duas vezes.
Depois ligou para a assistente de Elena, Rosa Bennett.
Rosa atendeu chorando.
Em trinta minutos, Carol já sabia dos ferimentos.
Fratura no crânio.
Três costelas quebradas.
Hematomas graves nos dois antebraços, compatíveis com ferimentos de defesa.
Possíveis complicações na placenta.
Equipe neonatal de emergência de prontidão.
Elena estava em coma induzido.
O bebê ainda tinha batimentos cardíacos.
Às oito da manhã, Carol também tinha confirmado que Matteo Moretti não tinha ido ao hospital.
Não tinha ligado.
Segundo o registro de reservas de um restaurante, ele tinha chegado numa churrascaria particular às 20h17 da noite anterior e ficado até depois das dez.
Carol se sentou à mesa e ficou olhando para as anotações que vinha guardando havia dezoito meses.
Dezoito meses antes, Elena tinha entrado no escritório dela carregando uma pasta de couro.
— Se alguma coisa acontecer comigo — Elena tinha dito — eu preciso que a senhora garanta que isso não desapareça junto comigo.
Dentro havia cópias de registros financeiros dos Moretti.
Transferências ilegais.
Propinas.
Compra de imóveis através de empresas fantasmas.
Empréstimos por fora dos livros.
Nomes de empresários, advogados e autoridades locais comprometidas.
Carol tinha olhado para a jovem sentada à sua frente.
— Seu marido sabe que você tem isso?
— Não.
— Alguém sabe?
— Uma pessoa, fora de Nova York.
Carol tinha fechado a pasta.
— Elena, se Matteo descobrir isso…
— Eu sei.
— Então por que está fazendo isso?
Elena tinha olhado para as próprias mãos.
— Porque descobri que estou grávida.
Carol não tinha entendido.
Não até Elena erguer os olhos de novo.
— Eu posso passar o resto da minha vida fingindo não saber o que meu marido é. Meu filho não pode.
Naquela manhã, Carol abriu os contatos e ligou para um número que tinha esperado nunca precisar usar.
Dante Bellarosa atendeu na segunda chamada.
— Carol.
— Elena Moretti está no hospital.
Silêncio.
— Ela apanhou até desmaiar ontem à noite. Está grávida de sete meses.
Outro silêncio.
Esse, mais pesado.
— Matteo?
— É o que eu acredito.
— Quão grave?
— Grave o suficiente pros médicos não garantirem que ela vai acordar.
A voz de Dante mudou.
— O que você precisa?
Carol olhou para os arquivos de Elena.
— De alguém que consiga ir a lugares onde eu não consigo.
Dante Bellarosa tinha cinquenta e um anos e tinha passado metade da vida sendo chamado de coisas que nunca apareciam no cartão de visitas dele.
Hoje em dia, era dono de restaurantes, construtoras, galpões e alguns prédios de apartamentos no Brooklyn.
Também comandava uma fundação beneficente.
Essa era a versão pública.
A versão privada era mais difícil de definir.
Dante tinha se afastado do crime organizado havia anos, mas o crime não tinha se afastado completamente dele.
Alguns homens ainda atendiam suas ligações porque o respeitavam.
Outros atendiam porque se lembravam dele.
Matteo Moretti fazia parte do segundo grupo.
Ao meio-dia, Dante já sabia que Elena não tinha simplesmente sido atacada.
Ela tinha sido armada.
As câmeras de segurança do prédio dos Moretti mostravam Vivien Rinaldi, diretora financeira de Matteo, entrando pela porta de serviço às 16h41 da tarde anterior ao ataque contra Elena.
Vivien saiu trinta e oito minutos depois.
Quando entrou, havia algo volumoso escondido sob o casaco.
Quando saiu, não havia mais nada.
Às duas da tarde, Dante se sentou diante do velho parceiro Paul DeLuca, na sala reservada dos fundos de um restaurante no Brooklyn.
Paul deslizou várias fotografias sobre a mesa.
— Vivien usou o código de acesso particular dela — disse ele. — Entrou na cobertura. O registro do prédio mostra que ela abriu o escritório da Elena.
— E o Matteo chegou em casa que horas?
— Seis e quarenta e sete.
Dante examinou a fotografia.
— O que ela colocou lá?
— Achamos que são documentos.
— Que tipo?
Paul colocou outra folha na frente dele.
Registros financeiros.
O mesmo tipo que Elena vinha reunindo em segredo havia dezoito meses.
Mas essas cópias tinham marcas de impressora ligadas aos escritórios corporativos dos Moretti.
Os escritórios de Vivien.
Dante se recostou na cadeira.
— Ela queria que o Matteo encontrasse.
— É o que parece.
— Por quê?
Alguém tinha armado uma cilada dentro da própria casa de Elena, e o motivo por trás disso ia revelar uma teia muito mais perigosa do que qualquer um deles imaginava até aquele momento.
