Chapter 1
A primeira coisa que eu perguntei pra Gabriel Mercer foi se eu podia tocar nele.
A segunda coisa que ele me perguntou foi se eu queria me casar com ele.
Nenhuma das duas perguntas deveria ter sido feita dentro de um haras.
As duas mudaram a minha vida.
Em minha defesa, o braço do Gabriel era muito distraente.
Ele estava lutando pra acalmar um garanhão preto apavorado atrás dos estábulos da propriedade dos Mercer, no Hudson Valley. O cavalo tinha prendido a corda embaixo do portão e chutava com força suficiente pra rachar madeira de carvalho.
Três funcionários do estábulo ficavam por perto, sem saber se chegar mais perto ia acalmar o animal ou matar alguém.
Gabriel não hesitou.
Entrou.
Sem paletó. Sem seguranças. Sem sapatos caros.
Só uma calça jeans desbotada, botas enterradas na palha, e uma camisa social branca com as mangas dobradas até o cotovelo.
Ele pegou a corda e se plantou no chão.
— Calma — murmurou.
O garanhão puxou com violência.
Gabriel absorveu a força pelos ombros.
— Calma, Atlas.
Outro puxão brutal.
Gabriel não levantou a voz.
Não bateu no cavalo.
Só ficou ali, impossivelmente firme, falando no mesmo tom calmo até que a fúria virasse medo, o medo virasse tremor, e o tremor finalmente virasse quietude.
Levou quatro minutos.
Eu contei.
Eu vinha contando coisas impróprias desde que tinha chegado na propriedade naquela manhã.
Quantas SUVs pretas estavam estacionadas depois do portão sul.
Quantos homens armados fingiam não estar armados.
Quantas mulheres no almoço abaixavam a voz quando Gabriel Mercer entrava na sala.
E, infelizmente, quantas veias apareciam no antebraço dele quando apertava mais forte a corda.
Vinte e quatro anos de educação rígida deveriam ter me preparado pra me comportar melhor.
Não prepararam.
Gabriel soltou Atlas e passou a mão no pescoço do cavalo.
— Bom garoto.
Depois se virou.
E me pegou olhando.
Preciso explicar uma coisa.
Meu nome é Lily Bennett.
Eu tinha vinte e quatro anos, um metro e sessenta e cinco, curvas o suficiente pra minha mãe passar boa parte da minha adolescência achando que as lojas de departamento tinham uma conspiração pessoal contra ela, e a maldição de nunca conseguir esconder o que estava pensando.
Minha mãe chamava isso de falta de refinamento.
Minha irmã mais nova chamava de falta de filtro.
Meu pai geralmente só suspirava.
Gabriel Mercer parecia achar aquilo divertido.
— Alguma coisa interessante, senhorita Bennett?
A voz dele ecoou pelo estábulo.
Grave. Controlada. Levemente divertida.
Olhei pra Atlas.
— Cavalo lindo.
Gabriel olhou por cima do ombro.
— O cavalo está atrás de mim.
Existem momentos em que uma pessoa consegue recuar com dignidade.
Eu raramente reconheço esses momentos a tempo.
Caminhei mais perto.
— Eu estava admirando sua técnica.
— Minha técnica.
— Com o cavalo.
Uma sobrancelha se levantou.
— Claro.
Meu olhar me traiu de novo.
Caiu direto no antebraço dele.
Gabriel seguiu o olhar.
Senti o calor subir pro meu rosto.
Ele tinha trinta e seis anos, segundo minha mãe, que tinha entregado a biografia dele inteira durante o trajeto desde Manhattan, como se estivesse me preparando pra uma cúpula diplomática.
Solteiro.
Extremamente rico.
Dono de restaurantes legítimos, imóveis comerciais e uma transportadora regional.
Também, dependendo de qual boato sussurrado alguém acreditasse, a figura do crime organizado mais temida da costa leste.
Nenhuma condenação jamais tinha pegado.
Nenhum rival parecia disposto a explicar o motivo.
Minha família tinha sido convidada porque meu pai administrava uma pequena empresa de hospitalidade que Gabriel estava considerando comprar.
Minha mãe achava que o convite significava oportunidade.
Eu suspeitava que ela quisesse dizer oportunidade de casamento.
O que nenhuma de nós duas sabia era que Gabriel já tinha aguentado um verão inteiro de famílias ambiciosas apresentando filhas refinadas, que falavam cinco idiomas, frequentavam eventos beneficentes, e conseguiam sorrir por três horas seguidas sem aparentar dor facial.
Eu tinha fugido do almoço no jardim porque mais uma conversa sobre casas de veraneio ia acabar me jogando dentro do lago de carpas.
Agora eu estava a um metro de Gabriel Mercer, olhando pro braço dele.
Eu podia ter parado ali.
Em vez disso, perguntei:
— Posso tocar?
Silêncio.
Até Atlas pareceu ofendido com meu bom senso.
Gabriel não se mexeu.
Os olhos cinza-claros dele mudaram.
A diversão continuava ali, mas alguma coisa mais afiada apareceu por baixo.
— Como é que é?
— Seu braço.
— Eu sei muito bem qual parte de mim você está olhando.
— Eu queria saber se é realmente tão firme assim.
A boca dele se contraiu levemente.
— Ou?
— Ou se a camisa está enganando todo mundo.
— Você acha que minha camisa está cometendo fraude.
— É possível.
— Lily.
Foi a primeira vez que ele usou meu primeiro nome.
Eu gostei demais daquilo.
— Sim?
— Você entende o que acabou de me perguntar?
— Eu pedi permissão.
— Num estábulo. Sozinha.
— Tem cavalos aqui.
— Cavalos são péssimos acompanhantes, como todo mundo sabe.
Cruzei as mãos atrás das costas.
— Então isso é um não?
