Chapter 2
O apartamento cheirava a álcool e ferro. Fechei a porta atrás de mim sem fazer barulho, como se o silêncio pudesse desfazer o que eu tinha acabado de ver.
Nora levantou os olhos, e por um segundo achei que ela fosse gritar. Em vez disso, apertou mais forte o pano contra o próprio braço.
— Você não devia estar aqui — disse ela, a voz tremendo mais do que a mão.
— Você não devia estar sangrando na sua própria mesa de jantar.
Me ajoelhei ao lado dela. A ferida era funda, feita com pressa, não com cuidado. Alguém tinha cortado — ou ela mesma tinha se cortado tentando arrancar alguma coisa da pele.
Foi então que vi. Uma marca pequena, quase escondida pelo sangue, logo abaixo do cotovelo.
— Isso é um microchip — falei, mais pra mim do que pra ela.
Nora fechou os olhos.
— Era.
— Nora.
— Eu tirei antes que eles rastreassem.
Peguei o anel de latão da mesa. Pesado, antigo, gravado com um brasão que eu reconhecia de longe: um leão mordendo uma âncora. O símbolo da família Bellandi, usado só pelos homens de confiança direta do patriarca, Salvatore.
— De onde você tirou isso?
Ela não respondeu. Peguei a fotografia por baixo do anel.
O metal retorcido. As chamas ainda visíveis, presas no instante da foto. O carro do meu irmão.
As mãos começaram a tremer, e não foi de raiva — foi de alguma coisa mais antiga, mais funda, que eu tinha enterrado havia três anos.
— Onde você conseguiu isso, Nora?
— Desmond, por favor, escuta antes de…
— ONDE.
Ela se encolheu, e aquilo me fez parar. Em cinco anos, eu nunca tinha levantado a voz com ela. Nem uma vez.
— Desculpa — falei, mais baixo. — Mas eu preciso saber.
Nora respirou fundo, olhando pra própria ferida como se decidisse quanto da verdade cabia ali.
— Eu trabalhava pra Ethan antes de trabalhar pra você.
O chão pareceu se mexer sob meus pés.
— Impossível. Eu contratei você depois que ele…
— Você me contratou dois meses depois da morte dele. Mas eu já estava dentro da organização há mais tempo do que você sabe.
— Fazendo o quê?
— Observando os Bellandi. A pedido dele.
Levantei, afastando-me um passo, como se distância pudesse organizar os pensamentos.
— Ethan não confiava nos Bellandi?
— Ethan descobriu alguma coisa que ele não devia. E duas semanas depois, o carro dele explodiu numa ponte vazia, às três da manhã, sem testemunhas.
— A polícia disse que foi um problema mecânico.
— A polícia recebeu uma ligação de alguém com sobrenome Bellandi antes mesmo do carro parar de queimar.
Senti o sangue gelar.
— Por que você nunca me contou isso?
— Porque no dia em que eu ia contar, encontraram meu antecessor morto num porto em Newark. E porque, Desmond… — a voz dela quebrou — eu tinha medo de que fizessem o mesmo com você.
Bati a mão na mesa, e o barulho ecoou pelo apartamento pequeno.
— Cinco anos, Nora. Cinco anos sentada do meu lado, sabendo disso.
— Eu ia te contar antes do casamento. Juro que ia.
— E o anel? A foto?
Ela olhou pra ferida no braço, depois pra mim, com os olhos cheios.
— Alguém colocou isso debaixo da minha porta hoje de manhã. Junto com um bilhete.
— Que bilhete?
— Eu queimei.
— Nora.
— Dizia que se eu contasse qualquer coisa pra você antes do casamento, o próximo carro em chamas seria o seu.
O silêncio que se seguiu pesou mais do que qualquer grito.
Peguei o pano e comecei a limpar a ferida dela mesmo, as mãos mais firmes do que eu esperava, considerando tudo que estava desmoronando por dentro.
— Quem colocou o chip em você?
— Salvatore. Como garantia. Pra saber onde eu estava, o que eu ouvia, quando eu ligava pra alguém.
— Há quanto tempo?
— Três anos. Desde a semana em que Ethan morreu.
Parei de limpar por um segundo.
— Você estava sendo vigiada esse tempo todo… e continuou trabalhando pra mim assim mesmo.
— Eu continuei porque você precisava de alguém que soubesse a verdade, mesmo que não pudesse te contar ainda.
Terminei o curativo improvisado em silêncio. Lá fora, a chuva tinha parado, mas o céu continuava do mesmo cinza pesado da manhã.
— O casamento é em dois dias — falei, mais pra mim do que pra ela.
— Eu sei.
— Se eu cancelar agora, sem provas, os Bellandi vão saber que eu descobri alguma coisa.
— E se você casar, você entra oficialmente na família que matou seu irmão.
Olhei pra ela, pra ferida enrolada no pano branco, pro anel ainda em cima da mesa como uma sentença.
— Então me diga uma coisa, Nora. E eu preciso da verdade completa dessa vez.
Ela assentiu, devagar.
— O que exatamente Ethan descobriu que valia a vida dele?
Nora olhou pra porta, como se tivesse medo de que as paredes tivessem ouvidos, e sussurrou uma única frase que fez o chão desmoronar outra vez debaixo de mim.
— Ele descobriu que o acordo de fusão nunca foi sobre unir as famílias, Desmond. Foi sobre apagar a sua.
