Quarenta e oito horas antes de eu me casar com uma mulher que eu não amava, usei a chave de emergência e entrei no apartamento da minha assistente.

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Chapter 2

O apartamento cheirava a álcool e ferro. Fechei a porta atrás de mim sem fazer barulho, como se o silêncio pudesse desfazer o que eu tinha acabado de ver.

Nora levantou os olhos, e por um segundo achei que ela fosse gritar. Em vez disso, apertou mais forte o pano contra o próprio braço.

— Você não devia estar aqui — disse ela, a voz tremendo mais do que a mão.

— Você não devia estar sangrando na sua própria mesa de jantar.

Me ajoelhei ao lado dela. A ferida era funda, feita com pressa, não com cuidado. Alguém tinha cortado — ou ela mesma tinha se cortado tentando arrancar alguma coisa da pele.

Foi então que vi. Uma marca pequena, quase escondida pelo sangue, logo abaixo do cotovelo.

— Isso é um microchip — falei, mais pra mim do que pra ela.

Nora fechou os olhos.

— Era.

— Nora.

— Eu tirei antes que eles rastreassem.

Peguei o anel de latão da mesa. Pesado, antigo, gravado com um brasão que eu reconhecia de longe: um leão mordendo uma âncora. O símbolo da família Bellandi, usado só pelos homens de confiança direta do patriarca, Salvatore.

— De onde você tirou isso?

Ela não respondeu. Peguei a fotografia por baixo do anel.

O metal retorcido. As chamas ainda visíveis, presas no instante da foto. O carro do meu irmão.

As mãos começaram a tremer, e não foi de raiva — foi de alguma coisa mais antiga, mais funda, que eu tinha enterrado havia três anos.

— Onde você conseguiu isso, Nora?

— Desmond, por favor, escuta antes de…

— ONDE.

Ela se encolheu, e aquilo me fez parar. Em cinco anos, eu nunca tinha levantado a voz com ela. Nem uma vez.

— Desculpa — falei, mais baixo. — Mas eu preciso saber.

Nora respirou fundo, olhando pra própria ferida como se decidisse quanto da verdade cabia ali.

— Eu trabalhava pra Ethan antes de trabalhar pra você.

O chão pareceu se mexer sob meus pés.

— Impossível. Eu contratei você depois que ele…

— Você me contratou dois meses depois da morte dele. Mas eu já estava dentro da organização há mais tempo do que você sabe.

— Fazendo o quê?

— Observando os Bellandi. A pedido dele.

Levantei, afastando-me um passo, como se distância pudesse organizar os pensamentos.

— Ethan não confiava nos Bellandi?

— Ethan descobriu alguma coisa que ele não devia. E duas semanas depois, o carro dele explodiu numa ponte vazia, às três da manhã, sem testemunhas.

— A polícia disse que foi um problema mecânico.

— A polícia recebeu uma ligação de alguém com sobrenome Bellandi antes mesmo do carro parar de queimar.

Senti o sangue gelar.

— Por que você nunca me contou isso?

— Porque no dia em que eu ia contar, encontraram meu antecessor morto num porto em Newark. E porque, Desmond… — a voz dela quebrou — eu tinha medo de que fizessem o mesmo com você.

Bati a mão na mesa, e o barulho ecoou pelo apartamento pequeno.

— Cinco anos, Nora. Cinco anos sentada do meu lado, sabendo disso.

— Eu ia te contar antes do casamento. Juro que ia.

— E o anel? A foto?

Ela olhou pra ferida no braço, depois pra mim, com os olhos cheios.

— Alguém colocou isso debaixo da minha porta hoje de manhã. Junto com um bilhete.

— Que bilhete?

— Eu queimei.

— Nora.

— Dizia que se eu contasse qualquer coisa pra você antes do casamento, o próximo carro em chamas seria o seu.

O silêncio que se seguiu pesou mais do que qualquer grito.

Peguei o pano e comecei a limpar a ferida dela mesmo, as mãos mais firmes do que eu esperava, considerando tudo que estava desmoronando por dentro.

— Quem colocou o chip em você?

— Salvatore. Como garantia. Pra saber onde eu estava, o que eu ouvia, quando eu ligava pra alguém.

— Há quanto tempo?

— Três anos. Desde a semana em que Ethan morreu.

Parei de limpar por um segundo.

— Você estava sendo vigiada esse tempo todo… e continuou trabalhando pra mim assim mesmo.

— Eu continuei porque você precisava de alguém que soubesse a verdade, mesmo que não pudesse te contar ainda.

Terminei o curativo improvisado em silêncio. Lá fora, a chuva tinha parado, mas o céu continuava do mesmo cinza pesado da manhã.

— O casamento é em dois dias — falei, mais pra mim do que pra ela.

— Eu sei.

— Se eu cancelar agora, sem provas, os Bellandi vão saber que eu descobri alguma coisa.

— E se você casar, você entra oficialmente na família que matou seu irmão.

Olhei pra ela, pra ferida enrolada no pano branco, pro anel ainda em cima da mesa como uma sentença.

— Então me diga uma coisa, Nora. E eu preciso da verdade completa dessa vez.

Ela assentiu, devagar.

— O que exatamente Ethan descobriu que valia a vida dele?

Nora olhou pra porta, como se tivesse medo de que as paredes tivessem ouvidos, e sussurrou uma única frase que fez o chão desmoronar outra vez debaixo de mim.

— Ele descobriu que o acordo de fusão nunca foi sobre unir as famílias, Desmond. Foi sobre apagar a sua.

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