Chapter 3
Fiquei parado por tanto tempo que Nora acabou se levantando primeiro, ainda segurando o braço enfaixado contra o corpo.
— Explica isso direito — falei, a voz mais controlada do que eu me sentia.
— O contrato de fusão entre Hale Maritime e a operação dos Bellandi não é o que está escrito no papel que os advogados assinaram.
— Então o que é?
— É uma cláusula de sucessão. Se alguma coisa acontecer com você depois do casamento, o controle total das rotas, dos armazéns e das licenças passa automaticamente pra Vanessa.
Senti um frio subir pela espinha.
— E se alguma coisa acontecer comigo antes do casamento?
— Nada muda. Sua irmã mais nova herda tudo, e os Bellandi voltam à estaca zero.
— Então eles precisam que o casamento aconteça.
— Precisam que você diga “sim” no altar. Depois disso, sua vida vira uma formalidade incômoda.
Sentei na cadeira em frente a ela, as pernas de repente pesadas demais pra sustentar o resto do corpo.
— E Ethan descobriu isso há três anos?
— Ele encontrou o rascunho original do contrato, antes de Salvatore reescrever tudo com uma cláusula mais limpa, mais difícil de rastrear. Ethan ia te mostrar numa reunião de família. Ele nunca chegou.
— Por que ele não me procurou direto, em segredo?
— Ele tentou. A noite em que ele morreu, ele estava indo te encontrar num restaurante perto do porto. Você não lembra?
Lembrava. Ethan tinha cancelado por mensagem, dizendo que “resolveria pessoalmente” antes de conversar comigo. Eu tinha ficado bravo na época, achando aquilo típico dele — sempre querendo proteger todo mundo sozinho.
— Ele não queria te envolver até ter provas sólidas — continuou Nora. — Então ele foi buscar uma cópia física do contrato original, guardada no escritório particular de Salvatore.
— E foi pego.
— Foi visto saindo com uma pasta debaixo do braço. Duas horas depois, o carro dele estava em chamas numa ponte vazia.
Passei as mãos pelo rosto, tentando organizar três anos de luto reconstruídos do zero em cima de uma mentira que eu nunca soube que existia.
— Onde está essa pasta agora?
— Eu não sei. Foi por isso que eles me colocaram pra vigiar você. Achavam que Ethan tinha me entregado uma cópia antes de morrer.
— E entregou?
Ela hesitou o suficiente pra que eu soubesse a resposta antes mesmo de ouvir.
— Nora.
— Ele me entregou um pen drive uma semana antes. Disse pra eu guardar até ele pedir de volta.
— Onde está?
— Escondido. Num lugar que só eu sei.
Levantei, andando até a janela, olhando pra rua molhada lá embaixo como se ela tivesse alguma resposta pra me dar.
— Por que você nunca usou isso? Pra provar, pra derrubar os Bellandi, pra vingar Ethan?
— Porque sozinha, com um pen drive contra a família mais poderosa da costa leste, eu duraria uma semana. E porque, Desmond… — ela parou, escolhendo as palavras com cuidado — eu não sabia se você ia acreditar em mim ou neles.
Aquilo doeu mais do que eu esperava.
— Cinco anos, Nora.
— Eu sei.
— E ainda assim você duvidou.
— Eu tinha medo. Não de você. Do que a verdade ia fazer com você.
Foi nesse momento que ouvimos passos no corredor do prédio. Passos lentos, deliberados, parando bem em frente à porta dela.
Nora empalideceu.
— Ninguém sabe que eu moro aqui além de você.
Peguei a foto queimada do carro de Ethan e o anel de latão da mesa, guardando os dois no bolso do casaco.
— Tem outra saída?
— Pela escada de incêndio, na cozinha.
A maçaneta da porta começou a girar, devagar, como se quem estivesse do outro lado quisesse que ouvíssemos cada milímetro do movimento.
Puxei Nora pelo braço bom, guiando ela até a janela da cozinha, o coração batendo tão forte que doía.
— Quem sabe do chip que você arrancou? — sussurrei.
— Só quem colocou.
A porta da frente estalou, como se alguém estivesse testando a força da fechadura.
— Então eles já sabem que você descobriu — falei, abrindo a janela da escada de incêndio. — E agora sabem que eu também sei.
Descemos os primeiros degraus de ferro sob a chuva fina que tinha voltado a cair, o som dos nossos passos abafado pelo trovão distante.
Foi só quando chegamos ao beco, ofegantes, encostados na parede molhada, que Nora segurou meu braço com força.
— Desmond. Antes de qualquer coisa. Tem uma coisa que eu não te contei sobre aquela noite.
— O que mais falta?
Ela olhou pra cima, pros últimos andares do prédio, onde uma sombra passou rápido demais pela janela do apartamento dela.
— Vanessa sabia do plano contra Ethan antes de acontecer.
