Chapter 2
Leo ficou em silêncio por um longo momento, os olhos ainda fixos em mim como se estivesse tentando decidir o que fazer com a verdade que eu tinha acabado de trazer para dentro do escritório dele.
“Você não devia estar aqui sozinha, descalça, no meio da noite,” ele disse finalmente, a voz mais suave do que eu esperava.
“Eu não tinha mais nenhum lugar para ir,” respondi, e a verdade daquilo pesou mais do que eu queria admitir.
Ele se levantou devagar, tirando o próprio paletó da cadeira e estendendo para mim. “Vista isso. Vou pedir para Rosa preparar o quarto de hóspedes.”
“Eu não posso ficar aqui,” eu disse, mesmo enquanto meus dedos já seguravam o tecido quente do paletó dele. “Nico vai perceber que eu sumi.”
“Deixa ele perceber,” Leo respondeu, um traço de dureza voltando à voz. “Você não deve satisfações a ele essa noite.”
Fiquei no quarto de hóspedes daquela casa enorme, incapaz de dormir, ouvindo cada som que ecoava pelos corredores, esperando o momento em que Nico descobriria minha ausência.
Na manhã seguinte, acordei com vozes abafadas vindo do andar de baixo — a voz de Nico, alta e alterada, misturada com o tom controlado de Leo tentando acalmá-lo.
Desci as escadas devagar, ainda vestindo as roupas emprestadas da noite anterior, e encontrei os dois parados na sala principal, o ambiente carregado de uma tensão que eu nunca tinha visto entre pai e filho.
“Onde ela está?” — Nico perguntava, os olhos percorrendo a sala freneticamente até finalmente pousarem em mim no topo da escada.
“Myra,” ele disse, a voz mudando instantaneamente para aquele tom doce que eu tinha aprendido a amar, mas que agora soava vazio. “Graças a Deus. Eu fiquei preocupado a noite inteira.”
“Preocupado,” repeti, descendo os últimos degraus devagar. “Interessante escolha de palavra, considerando que você estava bem ocupado quando eu saí.”
O rosto de Nico empalideceu visivelmente. “Do que você está falando?”
“Chloe,” eu disse simplesmente. “E a aposta de dez mil dólares.”
Leo, que estava observando tudo em silêncio, cruzou os braços, o rosto se fechando numa expressão que eu nunca tinha visto nele antes — pura decepção paterna.
“Nico,” Leo disse, a voz baixa, mas carregando um peso enorme. “Diga que ela está enganada.”
Nico não conseguiu responder, o silêncio dele sendo confissão suficiente para todos na sala.
“Você fez uma aposta sobre ela?” — Leo perguntou, a voz agora tremendo de uma raiva contida que parecia prestes a explodir. “Sobre a filha do homem que tomou uma bala por um dos meus próprios homens?”
“Pai, deixa eu explicar—”
“Não.” — Leo cortou, dando um passo à frente que fez Nico recuar instintivamente. “Você usou a dívida da minha própria consciência para machucar essa garota.”
Aquelas palavras confirmaram o que Chloe tinha dito na noite anterior, mas ouvir da boca do próprio Leo trouxe uma dor diferente, mais definitiva.
“Eu vou embora,” eu disse, já me virando em direção à porta.
“Espera,” Leo disse, e havia algo na voz dele que me fez parar. “Você não precisa ir a lugar nenhum. Essa casa é tão sua quanto de qualquer um aqui, depois de tudo que passou por causa da minha família.”
Nico olhou entre nós dois, algo mudando em sua expressão — não mais culpa, mas um ciúme frio e calculado.
“O que está acontecendo aqui?” — ele perguntou, os olhos estreitando ao observar a maneira como o pai me olhava.
“Nada está acontecendo,” Leo respondeu rapidamente, talvez rápido demais. “Estou apenas corrigindo um erro que você cometeu.”
Mas eu tinha visto algo no rosto de Leo antes de ele desviar o olhar — algo que parecia perigosamente próximo de sentimentos que ele não deveria estar tendo por mim.
E pela expressão de Nico, ele tinha visto a mesma coisa.
