A meia-noite deveria me dar apenas um beijo inofensivo com um encontro às cegas que eu provavelmente nunca mais veria.

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Chapter 2

Fiquei paralisada por um segundo inteiro, o coração ainda martelando pelo pânico de minutos atrás, agora somado a um medo completamente diferente.

— Como você entrou aqui?

— A fechadura da sua porta é da década passada — disse Lucas, sem tirar os olhos de Noah. — Posso explicar isso depois. Agora, com licença.

Ele se abaixou mais, a voz baixando pra um tom quase inaudível, calmo de um jeito que eu nunca tinha conseguido alcançar nos piores momentos de crise do meu filho.

— Noah. Eu sei que está tudo muito alto e muito rápido agora. Eu vou ficar bem aqui, sem chegar mais perto, até você me dizer que está tudo bem.

Noah continuou gritando, o corpo todo tenso, as mãos tampando os ouvidos.

Lucas não se moveu.

Não tentou tocá-lo.

Só ficou ali, agachado, repetindo frases curtas e previsíveis, o mesmo tom de voz, sem nenhuma urgência forçada.

Depois de um tempo que pareceu impossivelmente longo, o choro de Noah começou a diminuir de intensidade.

— Ele processa som de um jeito diferente — disse Lucas, ainda sem se mexer. — Muita informação de uma vez sobrecarrega o sistema. Precisa de espaço, não de mais gente tentando ajudar ao mesmo tempo.

Eu o encarei, atônita.

— Como você sabe disso?

Ele finalmente ergueu os olhos pra mim, e pela primeira vez desde que tinha entrado no meu apartamento, algo genuinamente vulnerável cruzou o rosto controlado dele.

— Meu irmão mais novo era assim. Sensorial, palavras difíceis de sair, mundo grande demais boa parte do tempo.

— Era?

— Ele morreu quando eu tinha dezenove anos. Antes de eu aprender a maior parte do que sei agora sobre como ajudar.

O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros daquela noite — mais pesado, mais real.

Noah, aos poucos, se aquietou o suficiente pra se deixar levar de volta pro quarto, ainda tremendo, mas já não gritando. Passei os vinte minutos seguintes sentada ao lado da cama dele, cantando baixinho a música que sempre funcionava, até sua respiração ficar regular.

Quando voltei pra sala, Lucas ainda estava lá, os homens que tinham enchido o corredor agora esperando discretamente do lado de fora da porta aberta.

— Você precisa ir embora — falei, a voz tremendo mais do que eu queria. — E precisa me explicar quem você realmente é, porque isso — apontei pro corredor cheio de homens de terno — não é coisa de “Jake do aplicativo de namoro”.

— Eu não sou Jake.

— Isso eu já sei.

— Meu nome é Lucas Marino.

Alguma coisa no jeito como ele disse o nome, como se esperasse reconhecimento imediato, fez um arrepio de reconhecimento tardio subir pela minha espinha.

— Marino. Como em… a construtora Marino? Os hotéis?

— Entre outras coisas.

— Que outras coisas?

Ele hesitou — a primeira hesitação real que eu via nele a noite inteira.

— Coisas que normalmente eu não discuto com professoras de jardim de infância que conheci há duas horas num terraço.

— Você mentiu sobre quem era.

— Eu nunca disse que era Jake. Você perguntou, eu não corrigi. Foi um erro meu, e um que eu já lamento.

— Por que não corrigiu?

Ele deu um passo à frente, parando a uma distância cuidadosa, respeitosa.

— Porque, pela primeira vez em muito tempo, alguém estava falando comigo sem saber quem eu sou, sem calcular o que podia ganhar com isso. Eu não quis que aquilo acabasse rápido demais.

Cruzei os braços, tentando manter alguma distância entre a raiva que eu sabia que devia sentir e a estranha gratidão que ainda pulsava em mim por ele ter conseguido, em minutos, acalmar meu filho de um jeito que quase ninguém fora da nossa família conseguia.

— Isso não explica por que você apareceu aqui, de madrugada, com homens armados no meu corredor.

O rosto de Lucas se fechou, a máscara controlada voltando ao lugar.

— Isso é uma conversa mais longa. E, infelizmente, mais perigosa do que eu gostaria que fosse essa noite.

— Do que você está falando?

— Alguém sabia que eu estaria naquele terraço hoje. Alguém que queria me atingir usando qualquer pessoa que eu decidisse levar pra perto. Jake, seu encontro de verdade, recebeu uma ligação cancelando o encontro horas antes — uma ligação que ele nunca fez, porque nunca partiu dele.

O sangue gelou nas minhas veias.

— Você está dizendo que fui manipulada a te conhecer.

— Estou dizendo que alguém armou aquele encontro pensando em mim, não em você. E, quando eu te beijei àquela meia-noite, eu ainda não sabia disso.

— Mas descobriu.

— Descobri assim que saí do hotel. E vim pra cá porque, se alguém orquestrou aquilo, essa pessoa também sabe onde você mora, quem é seu filho, e exatamente como te machucar pra chegar até mim.

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