A meia-noite deveria me dar apenas um beijo inofensivo com um encontro às cegas que eu provavelmente nunca mais veria.

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Chapter 3

Não dormi naquela noite.

Lucas ficou — não dentro do apartamento, insistiu ele, mas dois de seus homens permaneceram no corredor, e ele mesmo passou a noite sentado na escada do prédio, algo que só descobri quando abri a porta às seis da manhã pra verificar se ainda estavam lá.

— Você não precisava fazer isso — falei, ainda no roupão, os olhos pesados de sono que não veio.

— Precisava, sim.

Ele se levantou, ajeitando o casaco amassado da noite inteira sentado no concreto frio.

— Como está o Noah?

— Dormindo. Finalmente.

Ofereci café, mais por hábito do que por hospitalidade genuína, e ele aceitou, sentando-se à minha pequena mesa de cozinha como se aquilo fosse o lugar mais natural do mundo pra um homem que, até doze horas atrás, eu não sabia que controlava metade de Filadélfia.

— Preciso que você me conte tudo — falei, servindo duas xícaras. — Quem faria isso? Quem armaria um encontro falso pra te atingir através de mim?

Lucas girou a xícara entre as mãos, os olhos fixos nela por um longo momento antes de responder.

— Há três meses, tomei o controle de uma operação de construção que pertencia à família Rossi. Não à força — comprei a dívida deles, adquiri o que restava do negócio legalmente. Mas Antonio Rossi não vê dessa forma.

— E ele descobriu sobre mim de algum jeito?

— Ele tem gente vigiando meus movimentos há semanas. Um encontro às cegas, marcado através de um aplicativo, num hotel onde eu estaria naquela noite por outro motivo completamente separado — foi fácil demais pra alguém como ele orquestrar, se soubesse onde procurar.

— Então ele sabia que Jake ia cancelar. Sabia que eu ficaria sozinha no terraço. Sabia que você estaria lá.

— E provavelmente esperava que eu simplesmente ignorasse você, ou que nossa interação fosse mínima o suficiente pra não significar nada.

— Mas não foi.

— Não.

O silêncio entre nós carregava mais peso do que qualquer palavra naquele momento.

— Emma me ligou de manhã — falei, finalmente, lembrando da mensagem que tinha ignorado a noite inteira. — Ela disse que alguém perguntou sobre mim numa das lojas perto da escola onde eu trabalho. Um homem, descrevendo minha aparência, perguntando meus horários.

O rosto de Lucas ficou absolutamente imóvel.

— Quando?

— Ontem de tarde. Antes de eu sequer ir pro hotel.

Ele se levantou tão rápido que a cadeira raspou o chão, o telefone já na mão.

— Preciso de segurança na escola dela imediatamente — disse ele a alguém do outro lado da linha, a voz cortante, sem nenhum traço da gentileza que eu tinha visto com Noah horas antes. — E localização completa em tempo real de qualquer veículo registrado à família Rossi nos últimos três dias.

Desligou e me encarou, uma urgência nova substituindo a calma controlada de minutos atrás.

— Você e Noah não podem ficar aqui.

— O quê? Isso é loucura, eu tenho trabalho, ele tem escola, uma rotina que ele precisa—

— Rossi já sabe onde vocês moram. Sabe onde você trabalha. Está construindo um mapa completo da sua vida, e a única razão pra fazer isso é usar vocês dois como alavanca contra mim.

— Eu mal te conheço, Lucas! Isso não devia ser problema meu!

— Eu sei — a voz dele quebrou levemente, algo raro escapando pela primeira vez. — E eu daria qualquer coisa pra que não fosse. Mas é. A partir do momento em que te beijei naquele terraço, isso se tornou problema seu, goste você ou não.

Fiquei olhando pra ele, o pânico e a raiva competindo dentro de mim por espaço, quando o celular dele vibrou de novo.

Ele leu a mensagem, e o que restava de cor no rosto dele desapareceu completamente.

— O que foi? — perguntei, o coração já martelando de novo.

— Um dos meus homens confirmou. Tem um carro parado na rua de trás do prédio da escola de Noah há quarenta minutos. Mesma placa vista perto da casa da sua irmã ontem à noite.

— Noah está na escola agora?

— Não, ele está aqui, dormindo.

— Então eles não sabem que ele faltou hoje.

Lucas já estava se movendo em direção à porta, os olhos duros, calculando.

— Precisamos sair daqui. Agora. Antes que percebam que vocês nunca chegaram lá e comecem a procurar em outro lugar.

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