A meia-noite deveria me dar apenas um beijo inofensivo com um encontro às cegas que eu provavelmente nunca mais veria.

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Chapter 5

A propriedade de Lucas ficava a quarenta minutos da cidade, cercada por muros altos, câmeras discretas escondidas entre as árvores, e um nível de segurança que fez qualquer dúvida remanescente sobre quem ele realmente era desaparecer por completo.

Noah, ainda confuso com a mudança abrupta de ambiente, se agarrou ao cobertor pesado que Lucas, de alguma forma, tinha conseguido trazer da casa antes de sairmos, e passou a manhã sentado num canto silencioso da nova casa, observando tudo com aquela atenção cuidadosa que só ele tinha.

— Ele vai ficar bem? — perguntei a Lucas, observando meu filho à distância.

— Ele vai precisar de tempo. Mudança brusca é difícil, mesmo quando é pra segurança dele.

— Você fala como quem realmente entende isso.

— Eu passei anos aprendendo tarde demais o que meu irmão precisava. Não vou cometer o mesmo erro de novo, se puder evitar.

Àquela tarde, Marcus — o homem que parecia coordenar toda a segurança de Lucas — trouxe notícias que fizeram o clima da casa mudar completamente.

— Localizamos o esconderijo temporário dos homens de Rossi — disse ele, espalhando um mapa sobre a mesa. — Eles estão reunindo mais gente. Isso não é só vigilância. Estão se preparando pra fazer um movimento.

— Que tipo de movimento? — perguntei, a voz tremendo apesar de mim mesma.

Lucas e Marcus trocaram um olhar que respondeu antes mesmo das palavras.

— Rossi quer forçar uma reunião — disse Lucas, finalmente. — Provavelmente usando vocês dois como garantia de que eu vou aparecer, sozinho, nos termos dele.

— Um sequestro.

— Uma tentativa de um.

Senti o chão se abrir sob meus pés.

— Isso não pode estar acontecendo. Meu filho não devia fazer parte disso, ele não escolheu nada disso, ele só—

— Eu sei.

Lucas se aproximou, e pela primeira vez desde a noite anterior, tomou minhas mãos entre as dele, um gesto que parecia estranhamente natural apesar de tudo.

— E é exatamente por isso que ele nunca vai sair dessa propriedade sem seis homens ao redor até isso terminar completamente.

Naquela mesma noite, os homens de Rossi tentaram.

Um veículo se aproximou do portão principal por volta das dez, seguido de perto por outro, ambos ignorando os avisos de segurança até que o sistema automático bloqueou completamente o acesso, luzes e alarmes despertando toda a propriedade de uma vez.

Corri pro quarto de Noah, o coração na garganta, encontrando-o já acordado, as mãos nos ouvidos, o corpo balançando no ritmo que eu conhecia bem demais.

— Está tudo bem — sussurrei, me ajoelhando ao lado dele sem tocá-lo, do mesmo jeito que tinha visto Lucas fazer. — Mamãe está aqui. Está tudo bem.

Lá fora, ouvi vozes, passos rápidos, e depois — silêncio.

Lucas apareceu na porta minutos depois, sem casaco, a camisa amassada, mas inteiro, sem nenhum ferimento visível.

— Está terminado — disse ele, a voz ainda tensa da adrenalina. — Capturamos dois dos homens antes que chegassem perto do portão. O resto recuou quando perceberam que a segurança aqui era mais forte do que Rossi tinha calculado.

— E Rossi? Ele vai tentar de novo?

Lucas se ajoelhou ao lado de Noah e meu, respeitando a mesma distância cuidadosa de sempre.

— Não. Porque amanhã de manhã, eu vou até ele pessoalmente, com provas suficientes da tentativa de sequestro de hoje pra garantir que as próprias famílias que ele responde vão decidir que ele se tornou um problema demais caro de manter por perto.

— Isso é perigoso pra você.

— Menos perigoso do que deixar isso continuar.

No dia seguinte, Lucas voltou depois de horas que pareceram uma eternidade, o rosto cansado mas aliviado de um jeito que eu nunca tinha visto nele antes.

— Acabou — disse ele, simplesmente, entrando na sala onde eu esperava com Noah brincando silenciosamente ao meu lado. — Rossi não vai mais representar ameaça nenhuma. As famílias decidiram isso por conta própria, assim que entenderam o que ele tinha tentado fazer.

Deixei escapar um suspiro que parecia ter ficado preso no peito há dias inteiros.

— O que acontece agora? — perguntei, olhando ao redor daquela casa estranha que, de alguma forma, já não parecia tão estranha assim.

Lucas se sentou ao meu lado, cuidadoso, deixando espaço suficiente entre nós até que eu decidisse fechá-lo.

— Agora, se você permitir, eu gostaria de conhecer você de verdade. Não o homem do terraço, não o nome que assusta as pessoas. Só eu, tentando merecer o tipo de confiança que você e seu filho me deram essa semana, mesmo sem escolher isso.

Olhei pra Noah, que tinha se aproximado alguns centímetros de Lucas nas últimas horas, um gesto pequeno que, pra quem conhecia meu filho, significava mais do que qualquer palavra.

— Ele nunca chega perto de estranhos — falei, baixinho.

— Eu notei.

— Acho que ele decidiu antes de mim que você não era estranho.

Lucas sorriu, um sorriso genuíno e cansado, o primeiro que eu via sem nenhum cálculo por trás.

— Então acho que tenho dois motivos pra tentar merecer isso, não só um.

Lá fora, a propriedade voltava lentamente à calma, o perigo que tinha começado com um beijo à meia-noite finalmente cedendo espaço pra alguma coisa que, pela primeira vez em muito tempo, parecia com o começo de algo real — não perfeito, não simples, mas real.

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