O cheiro de fluido de transmissão queimado nunca saía de verdade. Ficava embaixo das unhas, dentro das camisas de trabalho, nas rachaduras profundas das mãos de Frankie Vale, por mais que ela esfregasse

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Chapter 1

O cheiro de fluido de transmissão queimado nunca saía de verdade. Ficava embaixo das unhas, dentro das camisas de trabalho, nas rachaduras profundas das mãos de Frankie Vale, por mais que ela esfregasse. Naquela terça-feira à tarde, ela estava debruçada na pia manchada de graxa da Vale Auto Repair, passando sabão de pedra-pomes nos nós dos dedos enquanto um Chevrolet velho esfriava o motor, fazendo tique-tique, na Baia Três.

Foi então que seu irmão Leo entrou pela porta do escritório.

Ele tinha trinta e quatro anos e parecia ter dez a mais. O olho esquerdo estava roxo e inchado, o lábio inferior partido, sangue seco escurecendo a barba por fazer ao redor da boca. Frankie fechou a torneira e deixou o pano de limpeza cair.

— Quanto?

Leo ficou olhando pro chão.

— Trezentos.

— Trezentos o quê?

A garganta dele se moveu antes das palavras saírem.

— Trezentos mil.

Por um instante, Frankie não ouviu mais nada além do motor do Chevrolet esfriando.

— Quem?

Leo sussurrou o nome.

— Gabriel Costa.

O estômago de Frankie gelou na hora.

Costa não era um agiota de bairro. Ele controlava a Vanguard Logistics, enormes extensões de imóveis industriais, políticos que fingiam não conhecê-lo, e homens que raramente eram fotografados. Os jornais o chamavam de empresário porque jornais preferiam continuar existindo.

Leo esfregou o queixo machucado.

— Ele quer a oficina.

— Não.

— Frankie—

— Não.

O pai deles tinha reconstruído a Vale Auto com as próprias mãos depois de perder tudo uma vez. Frankie tinha passado cinco anos mantendo o lugar vivo depois que ele morreu, trabalhando quatorze horas por dia enquanto Leo tratava o caixa da loja como se fosse conta de cassino.

— Ele disse que, se a gente assinar a escritura, ficamos quites.

— Você não pode assinar isso.

Leo ergueu os olhos.

— O quê?

— O papai me deu sessenta por cento.

Uma esperança surgiu no rosto machucado de Leo.

Frankie o odiou por isso.

Duas horas depois, ela estava no último andar da Vanguard Logistics, debaixo de janelas que davam pro horizonte escuro de chuva de Chicago. Gabriel Costa estava sentado atrás de uma imensa mesa de carvalho maciço, assinando documentos com uma caneta dourada, como se mulheres de jaqueta manchada de óleo o confrontassem por dívidas de jogo todas as tardes.

Ele finalmente ergueu os olhos.

Trinta e oito anos. Cabelos escuros. Terno cinza-chumbo. Um rosto controlado demais pra revelar se alguma coisa no mundo ainda o surpreendia.

— Francesca.

— Frankie.

— Eu esperava seu irmão.

— Ele não é dono de oficina suficiente pra entregar ela pro senhor.

Uma pausa.

Minúscula.

Mas ela viu.

Gabriel não sabia disso.

— Eu sou dona de sessenta por cento — continuou ela. — A escritura fica comigo.

— Seu irmão me deve trezentos mil dólares.

— Então cobre do meu irmão.

— Ele não tem como pagar.

— Eu também não tenho.

Gabriel se recostou na cadeira.

— Então eu fico com a propriedade e perdoo a diferença.

— O senhor armou um jogo, achou um idiota fraco, ficou estendendo crédito pra ele, e olha que coincidência: a garantia exata que o senhor quer é justamente o terreno que precisa pro seu novo centro de logística.

Os seguranças dele se mexeram.

Frankie deu um passo à frente.

— Isso não é caridade. É roubo com papelada.

Gabriel ergueu um dedo.

Os seguranças pararam.

A voz dele continuou baixa.

— Negócios.

Então ele explicou a alternativa.

A oficina continuaria fazendo parte da dívida. Frankie trabalharia pra frota de Costa até ele decidir que o restante estava quitado. Disponibilidade vinte e quatro horas. Caminhões do porto. Veículos particulares dele. A agenda dele.

— Você vai pertencer à organização até eu dizer o contrário.

Alguma coisa se rompeu dentro de Frankie.

O inglês, de repente, pareceu insuficiente.

Ela o xingou em siciliano.

Sem nenhuma elegância.

Ela chamou a honra dele de podre, a alma dele de morta, o dinheiro dele de amaldiçoado, e disse que o sangue dele tinha o azar de ter gerado um homem que comprava gente como quem compra carne.

O escritório ficou em silêncio absoluto.

Frankie terminou, respirando pesado.

Ela esperava violência.

Os ombros de Gabriel se moveram.

Então o homem mais temido daquela sala começou a rir.

Uma risada genuína, grave, surpresa.

Ele contornou a mesa e parou a menos de um passo dela.

— Minha avó usava essa mesma expressão quando eu roubava pão.

Frankie ergueu o queixo.

— Ela sabia julgar bem o caráter das pessoas.

O sorriso dele sumiu.

Algo mais afiado tomou o lugar.

— Fala de novo.

— O quê?

Gabriel se inclinou mais perto.

— Tudo de novo.

Os olhos escuros dele fixaram nos dela.

— Dessa vez, Francesca… olha direto pra mim.

E foi só naquele instante que Frankie percebeu: em vez de assustar Gabriel Costa, ela tinha feito algo bem mais perigoso.

Ela tinha despertado o interesse dele.

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