A neve caía suavemente sobre a Meridian Street naquela terça-feira em que a vida comum de Olivia Carter chegou ao fim.

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Chapter 1

A neve caía suavemente sobre a Meridian Street naquela terça-feira em que a vida comum de Olivia Carter chegou ao fim.

Ela se lembraria do calor do Café Lumière mais do que de quase qualquer outra coisa — as janelas embaçadas, o cheiro de canela no ar, o assobio da máquina de espresso, a lã do seu gorro de tricô ainda úmida contra os cachos castanho-avermelhados.

Mas, acima de tudo, ela se lembraria de como estava cansada.

Vinte e seis anos.

Dois empregos.

Duas contas de luz atrasadas.

Um irmãozinho de nove anos que dependia dela para quase tudo.

Noah era autista, apaixonado por pássaros, e se perdia diante de qualquer mudança inesperada. Era a pessoa mais importante que Olivia tinha no mundo, desde o incêndio de gás que matara os pais dos dois, dois anos antes.

Ela o carregara pela fumaça naquela noite.

Depois, abriu mão da bolsa de design gráfico e reconstruiu uma vida menor, toda voltada a mantê-lo seguro.

Livraria de dia.

Ilustrações à noite.

Consultas de terapia.

Compras do mês.

Aluguel.

Sobrevivência disfarçada de rotina.

Às 18h15, todas as mesas do Café Lumière estavam ocupadas.

Menos uma.

De frente para um homem sentado sozinho no canto, em um dos bancos reservados.

Alto, mesmo sentado.

Terno cinza-chumbo.

Cabelos escuros com fios de prata nas têmporas.

Um café preto intocado, ao lado de um livro aberto.

Ninguém se sentava perto dele.

Ninguém o encarava por muito tempo.

Olivia só reparou na cadeira vazia.

Atravessou o café.

— Com licença.

O homem ergueu os olhos.

— Esse lugar está ocupado?

Por uma fração de segundo, um genuíno espanto atravessou o rosto de Adrian DeMarco.

Fazia três anos que ninguém em sua organização via aquela expressão nele.

— Não.

— Obrigada.

Olivia se acomodou na cadeira, ajeitou as sacolas de compras no chão e pediu um chá verde e o último muffin de mirtilo.

Adrian tentou voltar ao livro.

Leu a mesma frase quatro vezes.

— Sabe — disse Olivia, partindo o muffin ao meio —, você parece alguém que está lendo esse livro como um aviso pros outros.

Os olhos dele se ergueram.

— Como assim?

Ela imitou a expressão severa dele.

— Tipo: “Não fale comigo. Eu tenho literatura.”

Adrian ficou olhando.

Olivia empurrou metade do muffin pela mesa.

— Você também parece alguém que esqueceu de comer.

Quarenta e oito horas antes, quatro homens armados tinham tentado matar Adrian em um estacionamento.

Ele comandava mais de duzentas pessoas espalhadas por seis cidades.

Delegados escolhiam cada palavra com cuidado ao falar perto dele.

Ninguém, jamais, tinha lhe oferecido metade de um muffin.

— É de mirtilo — disse Olivia.

— Ao invés de quê?

— Veneno.

Os lábios dele quase se moveram.

Conversaram por quarenta minutos.

Principalmente Olivia.

Sobre Noah.

Sobre pássaros migratórios.

Sobre a livraria.

Sobre desenhar desconhecidos, porque pessoas comuns também mereciam ser vistas.

Quando o caderno de esboços escorregou da bolsa dela, Adrian o segurou antes que caísse no chão.

A capa se abriu.

Retratos em aquarela.

Uma garçonete exausta, cochilando no intervalo.

Uma senhora alimentando pombos.

Um adolescente carregando compras para um homem com bengala.

— Esses desenhos são seus.

— É só um hobby.

— Não faça isso.

Olivia piscou.

— Fazer o quê?

— Diminuir o que você faz.

A voz dele ficou mais firme.

— Você enxerga as pessoas. Quase ninguém enxerga.

As palavras tocaram um lugar inesperadamente sensível.

Olivia olhou para a janela, tentando escapar daquela intensidade.

Então seus olhos se estreitaram.

Um homem estava parado do lado de fora.

Jaqueta escura.

Mãos nos bolsos.

Na mesma posição havia dezessete minutos.

Ela já o tinha visto antes.

Seis semanas atrás.

Na Birch Avenue.

E, acima da gola da jaqueta —

uma tatuagem de serpente mordendo o próprio rabo.

Olivia ergueu a xícara de chá.

— Aquele homem ali fora está observando você.

Adrian congelou por completo.

— Não olhe ainda.

Os olhos dele continuaram fixos nela.

— Tem certeza?

— Eu desenhei ele há seis semanas.

A expressão de Adrian mudou.

Não era medo.

Era algo bem mais frio.

Olivia completou, baixinho:

— Acho que, seja quem for, ele já sabe que você está aqui.

E, por baixo da mesa, Adrian DeMarco pegou o celular.

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