Chapter 4
Ninguém dormiu naquela noite.
Olivia ficou sentada em um canto da sala de operações, um cobertor sobre os ombros que alguém lhe deu sem que ela pedisse, os olhos fixos nas telas onde imagens de câmeras trocavam a cada poucos segundos.
Adrian não parava.
Ele passava de uma mesa a outra, ligações indo e vindo, a mandíbula travada, os olhos injetados de cansaço e algo mais fundo — raiva controlada com uma disciplina que só vinha de muitos anos de prática.
Às cinco da manhã, Sofia voltou.
— Confirmamos — disse ela, a voz sem cor. — Uma câmera de trânsito próxima ao galpão captou o menino sendo levado para dentro, ainda com vida, há duas horas.
Olivia sentiu as pernas cederem, mas dessa vez de alívio, um alívio tão intenso que doía.
— Ele está vivo.
— Ele está vivo — confirmou Sofia. — Mas o galpão tem pelo menos seis homens armados de guarda, possivelmente mais.
Adrian se virou para ela.
— E a fonte do vazamento?
Sofia hesitou — a mesma hesitação de antes, e dessa vez Olivia prestou atenção com cada célula do corpo.
— Ainda estou verificando.
— Sofia.
O nome saiu da boca dele como uma ordem, não como um chamado.
— Adrian, eu juro que não sei quem—
— Foi você quem soube da localização exata do esconderijo na quinta-feira passada. Foi você quem sugeriu movermos o menino… quer dizer—
Ele parou.
O erro na frase pairou no ar como fumaça.
— Você disse “movermos o menino” — repetiu Olivia devagar, o sangue gelando. — Mas o Noah ainda não tinha sido levado na quinta-feira.
O silêncio na sala foi absoluto.
Sofia deu um passo para trás, as mãos erguidas.
— Adrian, eu posso explicar.
— Explica agora.
A voz dele não era mais humana — era pura contenção, prestes a se romper.
— Os Volkov me pegaram há seis meses — disse Sofia, as palavras saindo rápidas, desesperadas. — Meu irmão mais novo devia dinheiro a eles. Eles disseram que o matariam se eu não passasse informações pequenas, sem importância…
— Não existe informação pequena no meu mundo, Sofia. Você sabe disso.
— Eu não sabia que eles iam atrás de uma criança! Juro por Deus, Adrian, eu nunca imaginei que chegariam a esse ponto.
Olivia se levantou, tremendo, e encarou a mulher que, minutos antes, tinha lhe passado um copo de água com as mesmas mãos que traíam todos ali.
— Onde exatamente eles estão com meu irmão? Você sabe o layout do galpão?
Sofia assentiu, envergonhada, incapaz de olhar diretamente para Olivia.
— Então você vai nos ajudar a trazer ele de volta — disse Adrian. — E depois disso, você e eu vamos ter uma conversa sobre o resto da sua vida.
Ninguém discutiu.
Às seis da manhã, oito homens se posicionaram ao redor do galpão junto ao rio, com Adrian à frente, um colete à prova de balas por baixo da camisa preta.
— Você fica no carro — disse ele a Olivia, a voz sem espaço para negociação.
— Não.
— Olivia.
— Ele é meu irmão. Se alguma coisa der errado lá dentro, eu preciso estar por perto, não trancada num carro a duzentos metros de distância.
Adrian a segurou pelos ombros, os olhos fixos nos dela com uma intensidade que parecia querer imprimir cada palavra diretamente no peito dela.
— Eu vou trazer ele até você. Vivo. Eu prometo. Mas eu preciso saber que você está segura enquanto eu faço isso, porque eu não aguentaria perder vocês dois na mesma manhã.
Foi a primeira vez que ele disse algo assim em voz alta.
Olivia engoliu em seco, e assentiu, e ficou no carro.
O que aconteceu nos vinte minutos seguintes, ela só reconstruiria depois, em pedaços, pelos relatos de Marcus.
Adrian entrou pela lateral do galpão, dois homens ao seu lado.
Os guardas dos Volkov, avisados tarde demais pela chegada silenciosa, foram neutralizados um a um, sem os tiros dramáticos que Olivia esperava — mais silêncio tenso, mais movimentos calculados, do que qualquer coisa de filme.
No fundo do galpão, numa sala pequena com uma única lâmpada pendurada, encontraram Noah sentado no chão, os joelhos junto ao peito, balançando o corpo para frente e para trás no ritmo que Olivia reconheceria em qualquer lugar do mundo — o ritmo que ele usava havia anos para se acalmar quando o mundo ficava grande demais.
— Noah.
Adrian se ajoelhou à distância que ele sabia, por tudo que Olivia tinha contado naquela tarde no café, que era segura.
Não tocou nele.
Não se aproximou depressa demais.
— Meu nome é Adrian. Sou amigo da sua irmã. Ela está te esperando lá fora, num carro azul, e ela trouxe o casaco que você gosta, o cinza com as listras.
Foi um chute — ele não sabia sobre casaco nenhum — mas algo na calma da voz, no jeito de falar devagar e sem pressa, fez Noah erguer os olhos pela primeira vez.
— Ela sabe sobre os falcões-peregrinos? — perguntou o menino, a voz fina e trêmula.
Adrian não hesitou.
— Ela me contou que são as aves mais rápidas do mundo. Trezentos e oitenta quilômetros por hora, em mergulho.
Alguma coisa no rosto de Noah se abrandou, só um pouco, o suficiente.
— Ela está bem ali fora?
— Está.
Noah se levantou devagar, e Adrian o guiou para fora do galpão sem tocá-lo uma única vez, apenas caminhando ao lado, na mesma velocidade, deixando o menino escolher cada passo.
Quando as portas se abriram e Olivia viu o irmão saindo, inteiro, andando com as próprias pernas, ela saiu do carro correndo, ignorando qualquer instrução de segurança, e caiu de joelhos na frente dele.
— Noah.
— Você trouxe o casaco cinza? — ele perguntou, olhando ao redor, confuso.
Ela riu e chorou ao mesmo tempo, um som que não fazia sentido nenhum e fazia todo o sentido do mundo.
— Vou trazer, amor. Prometo que vou trazer.
Atrás deles, Adrian observava a cena com uma expressão que Sofia, ainda sob custódia de dois homens, nunca tinha visto naquele rosto em oito anos de trabalho.
Alívio puro.
Sem qualquer máscara por trás.
