Chapter 2
O telefone tocou às duas da manhã.
Olivia acordou sobressaltada, o coração ainda preso num sonho que já não conseguia lembrar.
O número na tela não era conhecido.
Ela quase deixou cair no viva-voz de tanto que suas mãos tremiam.
— Alô?
Silêncio do outro lado.
Depois, a voz dele.
— Olivia.
Ela se sentou na cama, puxando o cobertor contra o peito.
— Adrian? Como você conseguiu meu número?
— Isso não importa agora.
Havia algo na voz dele que ela nunca tinha ouvido antes.
Não era a calma controlada do café.
Era outra coisa.
Algo raspado, contido à força.
— Adrian, o que foi?
Ele demorou para responder.
Quando falou, cada palavra pareceu custar um pedaço dele.
— Por minha causa, levaram seu irmão.
O quarto pareceu girar.
— O quê?
— Noah. Eles pegaram o Noah.
Olivia já estava de pé, procurando os sapatos no escuro, o coração disparado.
— Isso não é engraçado, Adrian. Não é hora pra brincadeira.
— Eu não brincaria com isso.
A certeza fria na voz dele foi o que a fez gelar por completo.
— Onde ele está? Onde está meu irmão?
— Ainda não sei ao certo. Mas sei quem levou.
— Como você sabe disso? Como você sabe que foi ele levado e não… não sei, ele pode ter saído sozinho, ele às vezes se perde quando muda a rotina, ele—
— Olivia.
A voz dele cortou o pânico dela como uma lâmina.
— Havia uma câmera na esquina da escola. Um carro preto parou. Duas pessoas saíram. Ele não entrou por vontade própria.
As pernas dela cederam, e ela se sentou na beira da cama.
— Por que ele faria isso? Por que alguém levaria uma criança que nem conhece você direito?
— Porque eles sabem que eu conheço você.
O silêncio que se seguiu foi pior do que qualquer grito.
— Do que você está falando, Adrian?
— O homem do café. A tatuagem de serpente. Ele trabalha para uma família que está em guerra com a minha há três anos.
— Guerra.
Ela repetiu a palavra como se não fizesse sentido em português, em nenhuma língua.
— Eles me viram com você. Perceberam que você importa pra mim de um jeito que ninguém mais importou em muito tempo. E foi o suficiente.
— Suficiente pra quê?
— Pra fazer de você um alvo. E, através de você, fazer do seu irmão um alvo também.
Olivia levou a mão à boca.
— Isso é loucura. Eu conversei com você uma vez. Uma vez, Adrian.
— Eu sei.
— Isso não é… isso não pode estar acontecendo por causa de um muffin e quarenta minutos de conversa.
— Não é sobre o muffin.
A voz dele baixou, quase um sussurro.
— É sobre o que você viu em mim naquela mesa. Ninguém enxerga isso. E eles perceberam que, pela primeira vez em anos, eu deixei alguém enxergar.
Lágrimas começaram a escorrer sem que ela percebesse.
— Eu preciso do meu irmão de volta. Agora. Você entende isso? Ele não entende o que está acontecendo, ele deve estar apavorado, ele precisa da rotina dele, ele precisa—
— Eu vou trazer ele de volta.
— Você não pode simplesmente prometer isso!
— Eu não prometo coisas que não posso cumprir.
Havia algo definitivo naquela frase, algo que não deixava espaço para dúvida — e, ao mesmo tempo, nenhum conforto real.
— Onde você está agora? — ele perguntou.
— Em casa. Sozinha. Meu Deus, e se eles vierem atrás de mim também?
— Não vão. Não esta noite. Tem um carro parado na sua rua faz vinte minutos. Está me protegendo, não ameaçando.
Olivia foi até a janela, o coração na garganta, e afastou a cortina um centímetro.
Lá estava.
Um sedan escuro, motor ligado, um vulto imóvel ao volante.
— Você está me vigiando.
— Estou te protegendo.
— Desde quando?
— Desde o momento em que aquele homem te viu no café.
Ela deixou a cortina cair, as mãos ainda tremendo.
— Eu quero ver você. Agora. Preciso entender o que está acontecendo de verdade, preciso de um plano, eu não posso simplesmente ficar sentada esperando notícias do meu irmão.
Do outro lado da linha, ele hesitou — e, para um homem como Adrian DeMarco, aquilo já dizia muito.
— Em quinze minutos, um carro vai estar na sua porta.
— Adrian.
— Sim?
— Se alguma coisa acontecer com o Noah…
Ela não conseguiu terminar a frase.
— Não vai acontecer — ele disse, e pela primeira vez, a voz dele tremeu, quase imperceptivelmente. — Eu vou trazer ele de volta nem que seja a última coisa que eu faça.
A ligação caiu.
Olivia ficou parada no meio do quarto escuro, o celular ainda apertado contra o peito, ouvindo o silêncio da casa vazia onde, até algumas horas atrás, Noah devia estar dormindo tranquilo no quarto ao lado.
Ela não sabia ainda que aquela ligação de duas da manhã marcava o fim de tudo que ela conhecia como vida normal.
E não fazia ideia de que a pessoa que tinha levado seu irmão já sabia exatamente onde ela morava — havia muito mais tempo do que ela imaginava.
