A um passo da meia-noite e treze, Victor Russo entrou no próprio quarto e encontrou uma mulher dormindo na sua cama.

Written by

in

Chapter 1

A um passo da meia-noite e treze, Victor Russo entrou no próprio quarto e encontrou uma mulher dormindo na sua cama.

Fazia quase seis anos que nenhuma mulher passava daquela porta.

Nem as socialites que sorriam pra ele em jantares beneficentes.

Nem as filhas de homens poderosos que tratavam casamento como fusão de empresas.

Nem a desconhecida linda de vestido vermelho que o próprio pai tinha oferecido a Victor durante um jantar, três noites antes, com a mesma naturalidade de quem oferece um terreno na beira do lago.

Victor tinha recusado todas.

Na experiência dele, mulher queria uma de três coisas de um homem como ele.

Dinheiro.

Proteção.

Ou a emoção de descobrir se um monstro tinha coração.

Victor não tinha interesse em oferecer nenhuma das três.

E mesmo assim, lá estava ela.

Enrolada de lado, debaixo do edredom cinza-chumbo.

Vestindo o uniforme de empregada.

Dormindo profundamente.

A mão de Victor foi por instinto até dentro do paletó.

Depois ele reconheceu o rosto.

Chloe Bennett.

Vinte e quatro anos. Funcionária nova. Quieta. Sempre parecia exausta. Nunca fazia perguntas.

Naquele exato momento, ela também estava cometendo a falta mais grave possível dentro da casa de Victor Russo.

E não fazia a menor ideia disso.

Victor ficou olhando pra ela enquanto a chuva congelante batia nas janelas da mansão, na região de Chicago.

Ele devia ter acordado ela.

Devia ter ligado pra Sra. Gable, a governanta severa da casa, e mandado escoltar Chloe pra fora da propriedade antes do amanhecer.

Em vez disso, Victor notou uma coisa estranha.

Ela estava tremendo.

Ele se aproximou.

As bochechas dela estavam vermelhas.

Uma mecha de cabelo castanho, úmida, grudada na testa.

Ele encostou de leve dois dedos na pele dela.

Ardendo em febre.

— Droga.

Chloe se mexeu, mas não acordou.

Victor olhou pra porta.

Depois voltou o olhar pra ela.

Ele tinha passado quinze anos se tornando o tipo de homem que nunca hesita.

Naquela noite, ele hesitou.

E aquela única hesitação mudou a vida dos dois.

Três semanas antes, Chloe Bennett estava parada na cozinha apertada de um apartamento em Oak Park, olhando pra uma conta de hospital de quarenta e sete mil, oitocentos e sessenta e dois dólares.

O irmão mais novo, Tommy, sentado à mesa, fingia que não estava olhando pra ela.

Ele tinha quinze anos e era magro demais.

A doença nos rins tinha tirado o peso do rosto dele, a cor da pele, e quase todas as coisas normais de adolescente que ele deveria estar preocupado em viver.

Garotas.

Basquete.

Aula de direção.

Em vez disso, ele sabia de cor o preço do remédio da diálise.

— Pode jogar fora — disse Tommy.

Chloe levantou o olhar.

— O quê?

— A conta.

Ele deu um sorriso fraco.

— Não é como se olhar mudasse o número.

Ela dobrou o papel com cuidado.

— Eu tô resolvendo.

— Você sempre diz isso.

— Porque eu sempre resolvo.

— Chloe.

— Come a sopa.

Ele ficou olhando pra tigela.

Os pais deles tinham morrido atropelados por um motorista bêbado cinco anos antes. Chloe tinha dezenove.

Tommy tinha dez.

Teve parente prometendo ajuda.

As promessas duraram uns três meses.

Depois vieram as desculpas.

Chloe trancou a faculdade, arrumou dois empregos, e aprendeu rápido como o orgulho desaparece quando o aluguel vence.

Agora ela trabalhava de manhã num hotel no centro e à noite fazendo faxina em escritórios.

Ainda não era suficiente.

Foi aí que ela viu o anúncio.

EQUIPE DE LIMPEZA RESIDENCIAL — VAGA PRIVADA

Salário excelente.

Plano de saúde.

Discrição exigida.

O endereço levava a uma mansão murada ao norte da cidade, propriedade de Victor Russo.

Até Chloe conhecia o nome.

Oficialmente, Victor comandava uma rede enorme de transportadoras, clubes privados, empresas de segurança e depósitos.

Não oficialmente, as pessoas baixavam a voz quando falavam dele.

Na primeira manhã de Chloe, a Sra. Gable alinhou seis funcionárias novas contra a parede de mármore do corredor de serviço.

— Vocês falam quando forem chamadas — disse ela.

— Não abrem portas trancadas. Não fotografam nada. Não repetem conversa que ouvirem. Não perguntam ao Sr. Russo sobre as visitas dele.

Uma mulher nervosa levantou a mão.

A Sra. Gable encarou ela.

A mão baixou devagar.

— Ótimo — disse a Sra. Gable. — Estão aprendendo rápido.

Chloe não se importava com o que Victor Russo fazia.

O contracheque caía todo sexta-feira.

Isso já bastava.

Por três semanas, ela quase não o via.

Aprendeu quem ele era através de vestígios.

Café preto intocado na mesinha de cabeceira.

Livros empilhados ao lado da poltrona.

Paletós sob medida.

Sapatos impecavelmente engraxados.

Um quarto que parecia menos habitado do que vigiado.

Nenhuma foto de mulher.

Nenhum perfume.

Nenhuma segunda escova de dente.

Nada macio ali.

Victor Russo vivia como um homem pronto pra evacuar a própria vida a qualquer momento.

Aí veio aquela terça-feira de dezembro.

Chloe acordou doente.

Garganta doendo. Cabeça latejando. Corpo todo dolorido.

Foi trabalhar mesmo assim.

Tommy precisava do remédio até sexta.

Faltar por doença era um luxo que a pobreza nunca tinha deixado ela ter.

No fim da tarde, ela estava trocando os lençóis de Victor quando o quarto começou a girar.

Ela se segurou na beirada do colchão.

— Só um minutinho.

Era só isso que ela pretendia.

Um minuto.

Sentou.

Depois deitou.

O colchão parecia impossivelmente macio.

Puxou o edredom em volta do corpo porque não conseguia parar de tremer.

E apagou.

Quatro horas depois, Victor a encontrou.

Por alguns minutos ele ficou parado ao lado da cama, olhando pra aquela pequena bagunça estranha no cômodo mais controlado do mundo dele.

Depois tirou os sapatos.

Deitou do outro lado.

Um metro de distância entre os dois.

Totalmente vestido.

Ele esperava que o sono continuasse impossível.

Fazia anos que Victor dormia em média três, quatro horas por noite.

Às vezes menos.

O silêncio ficava alto demais depois da meia-noite.

Trazia lembranças.

O pai sangrando no chão do armazém.

A cadeira vazia do irmão mais velho.

As pessoas em quem Victor tinha confiado, antes de aprender na marra a diferença cara entre lealdade e conveniência.

Mas Chloe respirava suave ao lado dele.

Sem perguntas.

Sem expectativas.

Sem medo.

Só respiração.

Victor fechou os olhos.

Dormiu cinco horas seguidas.

A noite de sono mais longa que ele tinha em anos.

Chloe acordou com um pé encostado em algo quente.

Abriu os olhos.

Encarou Victor Russo.

Ele estava deitado ali do lado.

Acordado.

Olhando pra ela.

Ela gritou.

Não muito alto.

Mais parecido com um guincho engasgado de alguém cuja alma tinha saído do corpo por um segundo.

Chloe se afastou de gatinho pela cama.

— Meu Deus.

Victor ergueu uma sobrancelha.

— Meu Deus.

— Você repetiu.

— Desculpa.

— Isso eu também ouvi.

— Eu dormi.

— Percebi.

— Eu não quis…

— Óbvio que não.

Ela pulou da cama e quase caiu.

Victor segurou o cotovelo dela.

O toque fez os dois congelarem.

Chloe olhou pra mão dele.

Ele soltou na hora.

— Estou demitida.

— Não.

Ela piscou.

— Como assim?

— Você está com febre.

— Eu tô bem.

— Você tá balançando parada em pé.

— Ainda consigo trabalhar.

— Isso não foi um elogio.

Ela olhou pra ele desconfiada.

Victor se levantou.

Era mais alto do que ela lembrava.

Ombros largos, cabelo escuro bagunçado do sono, camisa branca amassada.

Humano.

Essa era a parte perturbadora.

Ela nunca tinha considerado Victor Russo humano antes.

Ele serviu água de uma garrafa de vidro e entregou pra ela.

Chloe encarou o copo.

Victor suspirou.

— Se eu quisesse te matar, Bennett, água envenenada seria constrangedoramente dramático demais.

O rosto dela ficou vermelho.

Ela bebeu.

— Por que você não me acordou?

E foi bem nesse momento que a porta do quarto se abriu.

Próximo Capítulo →

Lista de Capítulos