A um passo da meia-noite e treze, Victor Russo entrou no próprio quarto e encontrou uma mulher dormindo na sua cama.

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Chapter 3

O relatório de Marcus chegou dois dias depois, numa pasta fina deixada sobre a mesa do escritório de Victor.

Ele abriu sem pressa.

Chloe Elizabeth Bennett. Vinte e quatro anos.

Pais falecidos em acidente de trânsito, cinco anos atrás.

Um irmão, Thomas Bennett, quinze anos.

Diagnóstico do irmão: insuficiência renal crônica.

Dívida hospitalar acumulada: quarenta e sete mil, oitocentos e sessenta e dois dólares.

Dois empregos simultâneos.

Nenhum atraso em nenhum dos dois.

Nenhum antecedente criminal.

Nenhuma bandeira vermelha.

Só uma mulher tentando manter o irmão vivo.

Victor ficou olhando pro papel por um bom tempo.

Fechou a pasta.

Guardou no cofre da mesa, junto com os poucos documentos que considerava importantes de verdade.

Naquela tarde, ele passou pela cozinha de serviço, o que quase nunca fazia.

Chloe estava lá, já de volta ao trabalho, dobrando toalhas.

— Você deveria estar descansando mais um dia — disse ele.

— Eu tô bem.

— Você ainda tá pálida.

— Você agora é médico também?

Ele quase sorriu de novo.

— Sente-se comigo um minuto.

— Eu tenho trabalho.

— Isso não é um pedido, Bennett.

Ela se sentou, tensa, na cadeira do outro lado da mesa da cozinha.

— Você tem um irmão — disse Victor.

Chloe congelou.

— Como você sabe disso?

— Eu mandei verificar seus antecedentes.

O rosto dela mudou de vermelho pra pálido em segundos.

— Você fez o quê?

— É procedimento padrão pra…

— Não é, não é procedimento padrão. Você não fez isso com as outras cinco que entraram comigo.

Victor não negou.

— Você sabe da doença do meu irmão.

— Sei.

— E da dívida.

— Também sei.

Chloe se levantou tão rápido que a cadeira raspou no chão.

— Se isso é sobre me demitir com uma desculpa mais educada, pode falar logo.

— Não é sobre te demitir.

— Então é sobre o quê?

Victor a encarou.

— É sobre por que você nunca me pediu ajuda.

Chloe riu, sem humor nenhum.

— Ajuda? Você é meu chefe. Eu troco seus lençóis. Não peço favor pra homem como você.

— Homem como eu.

— Você sabe do que eu tô falando.

— Não, eu não sei. Me explica.

— Homem que faz as pessoas desaparecerem quando é conveniente. Homem que tem gente igual o Marcus verificando quem entra na casa dele porque não confia em ninguém. Eu não quero dever nada a um homem assim.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

— Você tem razão em ter medo — disse Victor, finalmente. — Sobre a maior parte disso.

Chloe não esperava aquela resposta.

— Mas eu não ofereço ajuda esperando alguma coisa em troca — ele continuou. — Se eu quisesse algo de você, Bennett, já teria pedido diretamente. Eu não faço rodeio.

— Então por que a proposta?

— Porque seu irmão de quinze anos não devia ter que escolher entre remédio e comida.

Os olhos de Chloe encheram de lágrimas antes que ela pudesse impedir.

— Eu não aceito caridade.

— Não é caridade. É um adiantamento de salário. Documentado, com contrato, com juros simbólicos se isso te fizer dormir melhor à noite.

— Por que você tá fazendo isso?

Victor demorou a responder.

— Porque uma vez, há muito tempo, ninguém fez isso por mim. E eu me lembro exatamente do que isso custou.

Chloe ficou olhando pra ele, tentando entender o homem que tinha na frente.

— Eu preciso pensar.

— Tem até sexta.

— Por que sexta?

— Porque foi o prazo que você mencionou dormindo, com febre, falando coisas que achava que eu não conseguia ouvir.

Chloe ficou vermelha de novo, dessa vez de vergonha.

— O que mais eu falei?

— Nome do seu irmão. Que você tem medo de falhar com ele do jeito que sente que falhou com seus pais.

— Eu nunca disse isso pra ninguém.

— Você disse dormindo. Isso não conta como confissão.

— Conta sim.

— Então considere isso uma confissão minha também.

Ela esperou.

— Eu não durmo bem há anos — disse Victor. — Com você no quarto, eu dormi cinco horas. Eu não sei o que fazer com essa informação. Mas eu não vou fingir que ela não existe.

Naquela noite, Chloe ligou pra Tommy pela primeira vez em semanas sem esconder o cansaço na voz.

— Você tá bem? — perguntou o irmão.

— Acho que sim.

— Você “acha”?

— Tommy, se eu te contasse uma coisa maluca, você ia rir de mim?

— Depende do quão maluca.

Ela olhou pela janela da suíte de hóspedes, pra luz acesa no escritório de Victor do outro lado do jardim.

— Acho que meu chefe quer pagar sua dívida do hospital.

Silêncio do outro lado da linha.

— O chefe mafioso?

— Ele não é… — ela parou. — É complicado.

— Chloe. Isso não parece complicado. Isso parece perigoso.

— Eu sei.

— Então por que sua voz tá desse jeito?

Ela não respondeu.

Porque não tinha resposta que fizesse sentido nem pra ela mesma.

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