Chapter 2
A porta do quarto se abriu.
Chloe travou com o copo de água ainda na mão.
A Sra. Gable parou na entrada, olhos passando de Victor pra Chloe, da cama desarrumada pro uniforme amassado.
Ninguém disse nada por um segundo inteiro.
— Sr. Russo — disse a Sra. Gable, a voz perfeitamente controlada. — Não sabia que o senhor já tinha acordado.
— Bennett passou mal — respondeu Victor, sem hesitar. — Febre alta. Eu estava verificando se ela precisava de um médico.
A Sra. Gable olhou pra Chloe.
Chloe sentiu o rosto pegar fogo.
— Eu… eu tava trocando os lençóis e…
— Ela desmaiou — cortou Victor. — Isso é tudo que precisa saber.
A Sra. Gable ficou em silêncio por um momento longo demais pra ser confortável.
— Vou chamar o Dr. Ferreira.
— Faça isso.
A porta se fechou.
Chloe respirou fundo pela primeira vez em minutos.
— Você mentiu por mim.
— Eu disse a verdade — respondeu Victor. — Só não a versão completa.
— Ela não vai acreditar.
— A Sra. Gable trabalha pra mim há doze anos. Ela acredita no que eu digo, não no que ela pensa que viu.
Chloe se sentou na beirada da cama, ainda tonta.
— Por que você não me acordou?
Victor demorou pra responder.
— Porque fazia anos que eu não dormia direito.
Ela o encarou.
— E você achou que dormir do lado de uma empregada desconhecida ia resolver isso?
— Eu não achei nada. Só aconteceu.
O médico chegou quarenta minutos depois.
Diagnóstico: gripe forte, desidratação, exaustão.
— Ela precisa descansar. Pelo menos três dias — disse o Dr. Ferreira.
— Eu não posso — Chloe se sentou de repente. — Eu preciso do salário dessa semana.
Victor olhou pra ela.
— Você vai receber integral.
— Eu não posso aceitar isso.
— Não foi um convite, Bennett. Foi uma ordem.
Ela quis discutir. Não conseguiu.
Passou os três dias seguintes numa das suítes de hóspedes, porque a Sra. Gable insistiu que “funcionária doente não dorme no quarto de serviço com corrente de ar”.
No segundo dia, Victor apareceu na porta.
Sem aviso.
Segurando uma bandeja com sopa.
Chloe olhou pra ele, pasma.
— Você não tem gente pra fazer isso.
— Tenho. Mas eles não sabiam que sopa de macarrão com frango era a única coisa que eu sei fazer sem incendiar a cozinha.
Ela riu, apesar de si mesma.
Foi a primeira vez que ele a ouviu rir.
Guardou aquele som em algum lugar que não sabia que ainda funcionava.
Ele se sentou numa cadeira ao lado da cama.
Não muito perto.
Não muito longe.
— Por que trabalha dois empregos? — perguntou ele, do nada.
Chloe travou.
— Como você sabe disso?
— Ficha de contratação. Referências. Eu leio o que assino.
— Contas — ela respondeu, vaga.
— Que tipo de conta faz uma mulher de vinte e quatro anos trabalhar dezesseis horas por dia?
— O tipo que não é da sua conta.
Victor não insistiu.
Isso, mais do que qualquer outra coisa, surpreendeu Chloe.
Homens como ele, ela sempre imaginou, exigiam respostas.
Victor só assentiu e mudou de assunto.
— Meu irmão mais velho também gostava de sopa de frango.
Chloe percebeu o tempo verbal.
— Gostava?
— Ele morreu. Há muito tempo.
— Sinto muito.
— Não sinta. Você não sabe a história.
— Então me conta.
Victor olhou pra ela por um longo momento, como se estivesse decidindo algo importante.
— Não hoje.
Ele se levantou, ajeitou o paletó, e foi até a porta.
— Melhora, Bennett.
— Victor.
Ele parou.
Foi a primeira vez que ela usou o nome dele sem o “Sr. Russo” na frente.
Os dois perceberam ao mesmo tempo.
— Obrigada — ela completou, baixinho. — Pela sopa.
Ele saiu sem responder, mas o canto da boca dele se moveu de um jeito que não fazia há muito tempo.
No corredor, um homem alto de terno escuro esperava encostado na parede.
Marcus Kane. Braço direito de Victor há quinze anos.
O único homem vivo que Victor ainda confiava sem reserva.
— Você tá sorrindo — disse Marcus.
— Não estou.
— Victor. Eu te conheço desde os dezoito anos. Eu sei quando você tá sorrindo.
Victor não respondeu.
Marcus olhou pra porta da suíte de hóspedes, depois de volta pra Victor.
— A empregada nova.
— É temporário. Ela tá doente.
— Você trouxe sopa pessoalmente.
— E daí?
— Victor. Você não faz isso nem pros seus próprios sócios quando eles tão no hospital.
Victor começou a andar pelo corredor.
Marcus o seguiu.
— Fica de olho nela — disse Victor, sem se virar.
— De olho como?
— Segurança. Antecedentes. Só pra garantir que ela é quem diz ser.
Marcus parou de andar.
— Você tá falando sério.
— Eu sempre falo sério.
— Victor. Você não verifica os antecedentes das suas empregadas.
— Agora eu vou verificar.
Marcus observou o amigo por um instante, o rosto sério de quem já tinha visto Victor tomar decisões que mudavam o rumo de tudo.
— Tá bem — disse ele, finalmente. — Vou verificar.
Ele já ia saindo quando parou.
— Só uma coisa, Victor.
— O quê?
— Antecedentes de gente pobre e desesperada costumam vir com dívida. E dívida, nesse nosso mundo, é a porta de entrada favorita pros nossos inimigos.
Victor não respondeu.
Mas a frase ficou martelando na cabeça dele pelo resto da noite.
