Chapter 5
Victor não voltou até o amanhecer.
Chloe passou a noite sentada na cozinha, incapaz de dormir, ouvindo cada carro que passava na rua principal, cada som na propriedade.
Marcus apareceu por volta das seis da manhã, o rosto cansado, mas sem tensão nos ombros.
— Está resolvido — foi tudo que ele disse.
— Resolvido como?
— Victor conversou com Volkov. Cara a cara.
— E?
Marcus se serviu de café antes de responder.
— Digamos que Volkov entendeu que ameaçar a família de alguém importante pro Victor não era uma jogada inteligente. Ele recuou. Formalmente, em nome de todos os interesses envolvidos.
— Isso quer dizer que acabou?
— Quer dizer que, por enquanto, você e seu irmão estão seguros. Victor garantiu isso pessoalmente.
Chloe sentiu o peito apertar de um jeito que não era mais medo.
Victor entrou na cozinha minutos depois, o terno amassado, olheiras fundas, mas inteiro.
Chloe se levantou tão rápido que quase derrubou a cadeira.
Correu até ele antes que pudesse se conter.
Ele a recebeu nos braços como se tivesse feito aquilo a vida inteira.
— Você tá bem — ela sussurrou contra o peito dele, mais afirmação que pergunta.
— Estou.
— O que você fez?
— O que precisava ser feito.
— Isso não é resposta.
— Eu sei. Mas é a única que eu posso te dar agora.
Ela se afastou o suficiente pra olhar pro rosto dele.
— Victor, eu não posso viver com medo de telefone tocando de madrugada.
— Eu sei.
— Então o que muda?
Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, cuidado, como quem segura algo que já quebrou uma vez e não quer quebrar de novo.
— Eu vou tirar você e o Tommy dessa vida de instabilidade. De verdade. Casa nova, segurança de verdade, tratamento médico completo pro seu irmão, sem depender de mim ficar vivo ou não pra isso continuar.
— Eu não entendo.
— Eu já assinei os papéis essa manhã. Um fundo em nome do Tommy. Independente de mim, do meu negócio, de qualquer coisa que aconteça comigo daqui pra frente.
Os olhos de Chloe encheram de lágrimas.
— Por que você faria isso?
— Porque seis anos atrás eu decidi que ninguém mais ia entrar na minha vida. E aí uma mulher com febre alta dormiu na minha cama e eu descobri que eu ainda tinha alguma coisa que valia a pena proteger.
— Victor…
— Eu não sei ser um homem bom, Chloe. Eu sei ser útil. Sei proteger o que é meu. Se isso for suficiente pra você, eu quero tentar.
Ela ficou em silêncio por um momento, processando tudo.
— E se eu disser que não quero um fundo, não quero segurança comprada, não quero nada disso?
— Então eu pergunto o que você quer.
— Eu quero saber se isso — ela gesticulou entre os dois — é real, ou se é só o medo da noite passada falando mais alto.
Victor pensou antes de responder, porque ela merecia uma resposta pensada, não impulsiva.
— Eu dormi cinco horas a primeira noite que você esteve na minha cama. Depois disso, eu dormi bem toda vez que sabia que você estava em algum lugar da casa. Isso não é medo, Chloe. É a primeira coisa em quinze anos que fez sentido pra mim sem eu precisar entender o motivo.
Três meses depois, Tommy fez o transplante que precisava, num hospital particular, com toda a equipe médica que o dinheiro — dessa vez, sem culpa nenhuma pesando sobre ele — podia pagar.
Chloe ainda trabalhava na propriedade.
Só que agora não dormia mais no quarto de serviço.
E ninguém mais precisava fingir que aquilo era só coincidência.
Numa tarde de primavera, sentada no jardim vendo Tommy correr atrás de um cachorro que Victor tinha comprado sem perguntar pra ninguém, Chloe se virou pra Victor, que lia ao lado dela pela primeira vez em anos sem parecer estar fugindo de alguma coisa.
— Sabe o que é engraçado? — ela disse.
— O quê?
— Se eu não tivesse ficado doente naquele dia, nada disso teria acontecido.
Victor olhou pra ela, o livro esquecido no colo.
— Ou talvez tivesse acontecido de outro jeito, mais devagar. Algumas coisas encontram um caminho, mesmo quando a gente insiste em fechar todas as portas.
Chloe sorriu, encostando a cabeça no ombro dele.
E você — alguma vez já deixou uma porta fechada por medo, até que alguém, sem querer, encontrou uma brecha que você nem sabia que existia?
