Aos três anos, a filha da faxineira olhou pro chefão da máfia e disse: “Você é feio, mas não é malvado” — depois deixou o ursinho dela na porta dele. Vinte anos atrás.

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Chapter 2

“Você é feio”, Brinley disse, com a total sinceridade que só uma criança de três anos consegue ter, “mas não é malvado.”

O silêncio que se seguiu pareceu durar uma vida inteira.

Jude Mercer não se mexeu. A caneta que ele segurava ainda estava suspensa sobre o papel, parada no meio de uma frase que ele nunca terminaria de escrever.

Ninguém, em vinte e cinco anos, tinha dito uma frase daquelas na frente dele. Nem os homens que trabalhavam pra ele havia décadas. Nem os poucos que ele chamava de amigos, se é que existia essa palavra no mundo dele.

“O que você disse?”, ele perguntou, a voz mais baixa agora, quase incerta — um tom que ninguém naquela casa jamais tinha ouvido sair da boca dele.

Brinley não pareceu perceber que tinha acabado de fazer algo perigoso. Ela deu um passo pra dentro do escritório, o ursinho de um olho só balançando preso na mão.

“Você tem cara de bravo”, ela explicou, como se estivesse ensinando alguma coisa óbvia pra um adulto lento. “Mas os olhos não são maus. Minha mamãe diz que dá pra saber se alguém é malvado pelos olhos.”

Jude olhou pra ela por um longo momento.

Foi nesse instante que Reggie apareceu correndo no corredor, o rosto pálido, sem fôlego.

“Senhor, eu sinto muito, eu juro que não sei como ela—”

“Saia”, Jude disse, sem tirar os olhos de Brinley.

Reggie parou na porta, hesitante. “Senhor?”

“Eu disse pra sair, Reggie. Feche a porta.”

A porta se fechou, e pela primeira vez em muito tempo, Jude Mercer ficou sozinho numa sala com outro ser humano sem sentir a necessidade de vigiar cada movimento.

Brinley se aproximou da mesa, olhando pra arma preta em cima dos papéis com curiosidade, não com medo.

“Isso é perigoso”, ela informou, apontando pro objeto. “Minha mamãe diz que coisa perigosa não é brinquedo.”

“Sua mãe está certa”, ele respondeu, guardando a arma numa gaveta com um movimento rápido, quase automático — um gesto que ele nunca tinha feito por ninguém.

Brinley subiu numa cadeira do outro lado da mesa, sem pedir permissão, e sentou-se com o ursinho no colo, como se aquilo fosse perfeitamente normal.

“Por que você fica sozinho aqui?”, ela perguntou.

A pergunta pegou Jude de um jeito que nenhuma bala jamais tinha conseguido.

“Porque é mais seguro assim”, ele respondeu, sem saber exatamente por que estava respondendo a verdade pra uma criança de três anos.

“Seguro pra quem?”

Ele não teve resposta pra isso.

Do lado de fora, Audrey descobriu que o quarto estava vazio no mesmo instante em que Reggie batia na porta da ala oeste, o rosto ainda branco.

“Sra. Wells. A sua filha está no escritório do patrão.”

O sangue de Audrey gelou. Ela correu pelo corredor sem se importar com nenhuma das regras que tinha memorizado nove dias antes.

Quando ela chegou à porta entreaberta, o que viu não fazia sentido nenhum: sua filha sentada na cadeira do lado de dentro do escritório mais temido da casa, conversando com Jude Mercer como se ele fosse um vizinho qualquer.

“Brinley!” A voz de Audrey saiu mais aguda do que ela pretendia.

A menina virou o rosto, sorrindo. “Mamãe, esse é o senhor que mora aqui. Ele é feio, mas não é malvado.”

Audrey sentiu o coração parar. “Brinley Rose, você não pode—”

“Está tudo bem”, Jude disse, interrompendo, sem levantar a voz. Era a primeira frase gentil que qualquer pessoa daquela casa já tinha ouvido sair da boca dele.

Audrey ficou parada na porta, sem saber se devia se ajoelhar em súplica ou pegar a filha no colo e sair correndo.

“Eu sinto muito, senhor Mercer. Ela não devia ter saído do quarto. Isso não vai se repetir.”

Jude olhou pra Brinley, depois pra Audrey, e alguma coisa na expressão dele mudou — algo que nem Reggie, que o conhecia havia quinze anos, jamais tinha visto antes.

“Como ela conseguiu passar pela porta trancada?”

“Eu não sei, senhor. Eu juro que tranquei—”

“Eu não estou perguntando pra te culpar”, ele cortou, mais suave do que o esperado. “Estou perguntando porque quero saber.”

Audrey engoliu em seco. “Ela sempre encontra um jeito. Desde bebê. Portas trancadas nunca significaram nada pra ela.”

Um silêncio estranho tomou conta da sala.

“Leve-a de volta pro quarto”, Jude disse finalmente, a voz voltando ao tom cortante de sempre, como se algo tivesse se fechado outra vez. “E, Sra. Wells.”

“Sim, senhor?”

“Da próxima vez, tranque a porta direito.”

Ela pegou Brinley no colo e saiu quase correndo, o coração ainda acelerado, sem entender por que ele não tinha gritado, não tinha chamado segurança, não tinha feito nada do que ela esperava que um homem como ele faria.

Naquela noite, depois que Brinley finalmente adormeceu, Audrey ficou olhando pro teto, repassando cada segundo daquela cena.

Ela não sabia — ninguém sabia — que, do outro lado da casa, Jude Mercer estava sentado na mesma cadeira, olhando pra prateleira mais alta do escritório, onde uma foto rachada de uma mulher que ele nunca tinha conseguido esquecer estava escondida há vinte e cinco anos.

E que, pela primeira vez em todo esse tempo, ele tinha sentido vontade de tirar aquela foto do esconderijo.

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