Chapter 4
O homem no carro preto se chamava Elias Cross, e ele não trabalhava pros credores.
Trabalhava pra um grupo rival, os Kowalski, que há anos tentava encontrar uma brecha na operação de Jude Mercer — algo, alguém, qualquer coisa que pudesse ser usada como alavanca contra o homem mais fechado de Providence.
E, por puro acaso, eles tinham encontrado Tristan Wells.
O marido de Audrey não tinha simplesmente sumido por medo de uma dívida. Ele tinha trabalhado, nos últimos meses antes de desaparecer, como informante pros Kowalski — vendendo pequenas informações sobre a logística da operação de Jude em troca de dinheiro pra pagar as próprias dívidas de jogo. Quando os Kowalski perceberam que ele não tinha mais nada de valor pra oferecer, e que ficar perto dele era arriscado demais, simplesmente o descartaram.
Tristan não tinha desaparecido sozinho. Ele tinha sido levado.
E agora os Kowalski sabiam de uma coisa que podia valer muito mais do que qualquer informação que Tristan já tivesse dado: a esposa e a filha dele estavam morando dentro da própria casa de Jude Mercer.
Elias Cross passou três dias observando os portões antes de fazer contato.
Ele abordou Audrey numa tarde em que ela saiu, escoltada por Webb, pra comprar remédio pra Brinley numa farmácia a alguns quarteirões da mansão.
“Sra. Wells”, ele disse, aparecendo do nada ao lado dela na fila da farmácia, a voz baixa, quase gentil. “Eu sei o que aconteceu com o seu marido.”
Audrey congelou. “Quem é você?”
“Alguém que pode te ajudar a sair dessa casa antes que seja tarde demais.”
“Eu não preciso de ajuda nenhuma.”
“Não?” Ele deu um passo mais perto, a voz descendo ainda mais. “Você sabe pra quem você está trabalhando, Sra. Wells? Sabe o que aconteceu com a última mulher que se aproximou demais do Jude Mercer?”
Audrey sentiu o sangue gelar. “Saia daqui.”
“Eu só quero uma coisa”, Elias disse, ignorando a ordem dela. “Informação. Horários. Rotinas da casa. Nada que coloque você ou sua filha em perigo. E, em troca, sua dívida desaparece. Toda ela.”
“E se eu disser não?”
Ele sorriu, um sorriso fino, sem calor nenhum.
“Então eu vou ter que encontrar outro jeito de conseguir o que eu preciso. E esse outro jeito costuma ser bem mais… barulhento.”
Audrey voltou pra mansão naquela tarde tremendo por dentro, mas sem dizer uma palavra a ninguém. Ela passou a noite em claro, olhando pra Brinley dormir, tentando decidir o que fazer.
Contar a Jude significava admitir que sabia de algo perigoso e não tinha dito nada na hora. Não contar significava arriscar que os Kowalski tentassem alguma coisa dentro daquela casa — talvez usando a própria Brinley como instrumento de pressão.
No dia seguinte, ela não aguentou mais o peso sozinha.
Encontrou Jude no jardim, olhando Brinley brincar de longe, como tinha se tornado hábito nas últimas semanas.
“Preciso falar com o senhor. Agora.”
Alguma coisa no tom dela fez Jude se virar imediatamente, todo o corpo mudando de postura, como um interruptor sendo acionado.
“O que aconteceu?”
Ela contou tudo — Elias Cross, os Kowalski, a proposta, a ameaça.
O rosto de Jude não mudou enquanto ela falava. Mas, quando ela terminou, ele chamou Reggie com uma única palavra, num tom que Audrey nunca tinha ouvido antes.
“Agora.”
Reggie apareceu em segundos.
“Os Kowalski sabem sobre a Sra. Wells e a filha dela”, Jude disse, sem rodeios. “Provavelmente sabem há semanas. Quero segurança dobrada no perímetro, hoje, e quero saber exatamente como o marido dela se envolveu com eles.”
“Senhor, se os Kowalski sabem que elas estão aqui…”
“Eu sei o que isso significa, Reggie.”
Audrey sentiu o estômago revirar. “Eu sinto muito. Eu devia ter falado antes—”
“Você falou agora”, Jude cortou, a voz mais suave do que ela esperava. “Isso é o que importa.”
Ele se agachou, ficando na altura dos olhos dela, algo que ninguém naquela casa jamais tinha visto ele fazer.
“Escute com atenção, Audrey. Ninguém vai chegar perto da sua filha enquanto ela estiver debaixo do meu teto. Ninguém.”
Foi a primeira vez que ele chamou Audrey pelo primeiro nome.
E foi a primeira vez, em vinte e cinco anos, que Jude Mercer prometeu proteger alguém sem calcular o que isso custaria a ele.
