Aos três anos, a filha da faxineira olhou pro chefão da máfia e disse: “Você é feio, mas não é malvado” — depois deixou o ursinho dela na porta dele. Vinte anos atrás.

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Chapter 5

Os dias seguintes transformaram a mansão Mercer numa fortaleza.

Câmeras extras foram instaladas. Homens armados começaram a circular pelo jardim em turnos que nunca paravam. Reggie mal dormia, sempre no telefone, coordenando informantes que rastreavam cada movimento dos Kowalski na cidade.

Brinley, sem entender nada daquilo, continuava “escapando” toda noite pra visitar Jude no escritório, como se o mundo lá fora não estivesse prestes a desabar.

“Você está triste”, ela disse, uma noite, sentada no colo dele — um lugar que, semanas atrás, teria sido impensável — enquanto ele lia um relatório de segurança com o rosto tenso.

“Estou preocupado”, ele corrigiu.

“Com o quê?”

“Com pessoas que podem tentar te machucar.”

Brinley pensou por um instante, séria como só uma criança de três anos consegue ser diante de algo que não entende completamente.

“Você não vai deixar, né?”

“Não”, ele disse, e a certeza na própria voz o surpreendeu. “Eu não vou deixar.”

Foi Reggie quem trouxe a notícia, três dias depois, tarde da noite.

“Localizamos o Elias Cross. Ele está pressionando outros funcionários da casa, oferecendo dinheiro em troca de informações. Dolores recusou. Webb também. Mas ele está ficando desesperado, senhor. E desesperado é perigoso.”

“Onde ele está agora?”

“Motel na Route 6. Sozinho, pelo que sabemos.”

Jude ficou em silêncio por um longo momento, olhando pra janela do escritório, de onde dava pra ver o jardim onde Brinley tinha brincado horas antes.

“Eu quero falar com ele. Pessoalmente.”

“Senhor, isso é arriscado—”

“Mais arriscado do que deixar isso continuar indefinidamente? Enquanto ele estiver solto, a Audrey e a Brinley não estão seguras em lugar nenhum, nem dentro dessa casa.”

Naquela noite, Jude foi até o motel com Reggie e mais dois homens.

Elias Cross não esperava a visita.

“Mercer”, ele disse, tentando manter a voz firme quando abriu a porta e viu quem estava do outro lado. “Não precisava vir pessoalmente.”

“Você ameaçou uma criança que mora sob a minha proteção”, Jude disse, a voz baixa, controlada, mais perigosa do que qualquer grito. “Isso exigia atenção pessoal.”

“Eu não ameacei ninguém. Eu só ofereci um negócio à mãe dela.”

“Você deu a ela duas opções, sendo que uma delas terminava com você fazendo alguma coisa ‘barulhenta’ perto da minha casa. Isso é uma ameaça, Elias.”

O rosto de Elias perdeu um pouco da cor.

“Os Kowalski só queriam informação. Nada além disso.”

“E agora eles vão ter que explicar aos chefes deles por que perderam o único homem que tinham dentro do meu perímetro.”

O silêncio que se seguiu foi absoluto.

“Você tem duas opções agora”, Jude continuou, ecoando as mesmas palavras que Elias tinha usado com Audrey dias antes. “Você sai da cidade essa noite e nunca mais aparece perto de mim, da Audrey, ou da filha dela. Ou eu deixo de ser um homem razoável.”

Elias engoliu em seco, olhando pros dois homens atrás de Jude, calculando as próprias chances, e não gostando do resultado.

“Cidade. Essa noite”, ele murmurou.

“Ótima escolha.”

Jude saiu do motel sem olhar pra trás, e por toda a viagem de volta, Reggie percebeu algo que nunca tinha visto no patrão: as mãos dele, apoiadas no colo, ainda tremiam levemente — não de medo, mas de uma raiva que ele tinha aprendido, havia muito tempo, a nunca deixar transparecer.

Quando chegou em casa, já passava da meia-noite. Ele foi direto pro quarto de Brinley, só pra ter certeza.

Ela estava lá, dormindo profundamente, o ursinho de um olho só apertado contra o peito.

Audrey estava sentada numa cadeira ao lado da cama, sem conseguir dormir.

“Está tudo resolvido”, ele disse, baixinho, da porta.

Ela olhou pra ele, os olhos cheios de uma gratidão que não cabia em palavras.

“Por que o senhor fez isso por nós?”

Jude olhou pra Brinley dormindo, depois pra Audrey, e por um instante pareceu prestes a dizer alguma coisa importante.

“Porque, há vinte e cinco anos, ninguém fez isso por mim”, foi tudo que ele respondeu, antes de fechar a porta suavemente e desaparecer no corredor escuro.

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