Às exatas 22h03, noventa e três dias depois de eu assinar os papéis do divórcio e convencer a mulher que eu amava de que não sentia mais nada por ela

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Chapter 2

— Meu sobrenome? — repeti, sentindo cada palavra de Marco cravar como uma lâmina gelada. — Do que você está falando?

Marco virou o celular para mim, a tela mostrando uma foto de câmera de segurança, com data e hora sobrepostas no canto.

Nathaniel.

Meu meio-irmão, parado na porta do antigo apartamento de Elena, três semanas atrás, entregando um envelope ao zelador do prédio.

— Meu segurança tem monitorado a Elena de longe, discretamente, desde o divórcio — Marco explicou, a voz baixa, cautelosa. — Você me pediu para garantir a segurança dela à distância, mesmo depois de tudo. Eu nunca imaginei que fosse encontrar isso.

— Continua — falei, sentindo o sangue latejar nas têmporas.

— Três semanas depois do divórcio, o contrato de aluguel dela foi rescindido de repente, sem aviso prévio, alegando “reforma urgente do prédio”. Duas semanas depois disso, o emprego dela na editora foi cortado numa reestruturação repentina que afetou exatamente um cargo: o dela.

Meu estômago revirou.

— Está me dizendo que o Nathaniel…

— Estou dizendo que, toda vez que a Elena tentou se reerguer sozinha, alguém tirou o chão debaixo dela antes que ela conseguisse — Marco completou. — E as datas, os padrões, tudo aponta para a mesma pessoa.

Olhei de volta para Elena, ainda inconsciente na cama do hospital, o soro pingando devagar em seu braço frágil demais.

— Por quê? — sussurrei, mais para mim mesmo. — Por que ele faria isso?

Marco hesitou, o que raramente acontecia com um homem que eu conhecia há quinze anos por sua frieza calculada em qualquer situação.

— Chefe, acho que você sabe o motivo melhor do que eu.

A empresa.

Meu pai tinha deixado claro, em testamento, que o controle total do grupo Mercer passaria para mim assim que eu tivesse um herdeiro legítimo, algo que sempre irritou profundamente Nathaniel, filho do primeiro casamento do meu pai, sempre convencido de que o sobrenome dele valia menos por um acidente de nascimento que ele nunca superou.

— Um herdeiro — falei, a peça finalmente se encaixando com um horror gelado. — Se Elena perdesse esse bebê, ou se eu nunca soubesse da gravidez…

— A cláusula do testamento expira em seis meses — Marco completou. — Depois disso, o controle vai automaticamente para o conselho, onde Nathaniel já garantiu votos suficientes para assumir a presidência.

Senti uma fúria que não sentia desde os tempos mais sombrios da minha vida anterior, antes de eu tentar me tornar um homem melhor por causa de Elena.

— Onde ele está agora?

— No escritório, provavelmente. Mas, chefe… — Marco hesitou de novo — antes de fazer qualquer coisa precipitada, acho que você precisa entender uma coisa.

— O quê?

— As datas do que ele fez para a Elena começam há quase quatro meses. Antes do divórcio.

O chão pareceu se mover sob meus pés.

— Está dizendo que ele já estava por trás disso antes de eu assinar os papéis?

Marco assentiu, gravemente.

— Chefe, você me contou, na época, que recebeu ameaças contra a Elena. Que precisou se afastar dela “para protegê-la” de inimigos antigos do seu passado na segurança privada.

Fechei os olhos, lembrando daquela noite terrível, três meses e meio atrás, quando recebi fotos de Elena sendo seguida por homens desconhecidos, mensagens anônimas ameaçando fazer mal a ela se eu não me afastasse imediatamente.

— As ameaças — sussurrei, a verdade se formando lentamente, dolorosamente. — Você está dizendo que…

— Estou dizendo que preciso verificar a origem daquelas mensagens antes de afirmar qualquer coisa com certeza — Marco respondeu, cauteloso como sempre. — Mas conhecendo o Nathaniel, e vendo o padrão dos últimos meses… chefe, eu não ficaria surpreso se ele mesmo tivesse forjado aquelas ameaças.

Uma dor diferente de tudo que eu já tinha sentido atravessou meu peito.

Eu tinha destruído meu próprio casamento, machucado a mulher que amava, tudo baseado numa mentira criada pelo meu próprio meio-irmão.

— Ele fez eu mesmo destruir minha família — falei, a voz tremendo entre choque e uma fúria que ameaçava engolir qualquer resquício de controle que eu ainda tinha. — E depois passou os últimos meses garantindo que ela não tivesse recursos para se reerguer sozinha, enquanto carregava meu filho.

— Chefe, respira — Marco disse, colocando uma mão firme no meu ombro. — Precisamos de provas concretas antes de qualquer confronto. Ele é perigoso o suficiente para negar tudo se agirmos com pressa.

Olhei de volta para Elena, tão frágil, tão distante da mulher forte que um dia me desafiou a ser uma pessoa melhor.

— Eu vou conseguir as provas — falei, a determinação substituindo lentamente o choque. — E depois vou fazer ele pagar por cada dia que ela sofreu sozinha.

A médica voltou naquele momento, verificando os monitores ao lado da cama.

— Sr. Mercer, ela está estabilizando, mas ainda precisamos monitorá-la de perto pelas próximas quarenta e oito horas. E o bebê…

— O bebê está bem? — perguntei, com um misto de esperança e terror na voz.

— Os batimentos continuam fortes — a Dra. Bennett confirmou, um pequeno alívio cruzando o rosto dela. — Mas ela vai precisar de muito repouso, cuidado nutricional intensivo, e, honestamente, senhor Mercer, de alguém que garanta que ela nunca mais passe por isso de novo.

Encarei o envelope ainda na minha mão, as palavras de Elena queimando na minha mente.

Para o Luke — Não confie em ninguém.

Ela sabia.

De alguma forma, mesmo isolada, mesmo sozinha, Elena tinha descoberto pelo menos parte da verdade que eu só estava começando a compreender.

— Marco — falei, guardando o envelope com cuidado extremo no bolso interno do casaco —, prepare tudo. Amanhã de manhã, eu vou visitar meu irmão.

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