Chapter 1
Sem querer, chamei o chefão da máfia mais temido da cidade de “amor” enquanto servia a bebida dele. Todos os seguranças ao redor levaram a mão à arma na mesma hora — mas, em vez de mandar me matar, ele se recostou, deu um sorriso de canto e disse cinco palavras que fizeram meu coração parar: “Fala de novo. Devagar.”
No fim do meu turno, meu corpo já nem parecia mais meu. Meus pés latejavam dentro dos sapatos Oxford pretos, minha cabeça pulsava atrás dos olhos, e meu uniforme tinha cheiro de gim derramado, de limão e do perfume barato de baunilha que eu tinha passado antes do trabalho. Já passava das duas da manhã, e a Onyx Club finalmente começava a esvaziar.
Menos a Mesa Quatro.
A Mesa Quatro nunca esvaziava cedo.
Fiquei atrás do balcão de mogno polido, limpando o tampo com mais força do que precisava, os olhos fixos num copo de cristal com bourbon envelhecido de vinte anos e dois cubos de gelo perfeitos. Aquele drink só tinha um destino.
Roman Gallagher.
Meu celular vibrou de novo dentro do avental.
Nem precisei olhar a tela para saber que era o Daniel, meu namorado. A noite inteira ele mandava o mesmo tipo de mensagem.
*Você pagou a conta de luz?*
*Traz o jantar pra casa.*
*Amor, atende o telefone.*
Aquela última palavra ecoou na minha mente já esgotada. Ele só me chamava de “amor” quando queria alguma coisa de mim, geralmente dinheiro. Depois de doze horas de pé, meu cérebro tinha virado um lugar perigoso, onde os pensamentos e as palavras já não ficavam mais em faixas separadas.
Peguei a bandeja e caminhei até a Mesa Quatro.
Quatro homens enormes, de terno sob medida, cercavam a mesa, os olhos varrendo o salão sem parar. E então havia o Roman.
Ele não estava simplesmente sentado ali.
Ele dominava o espaço sem precisar se mexer.
O paletó cinza-chumbo repousava ao lado dele, deixando as mangas brancas da camisa dobradas até os antebraços. O maxilar era anguloso, o nariz levemente torto por uma fratura antiga, e os olhos cinzentos e frios carregavam o tipo de autoridade que fazia qualquer pessoa baixar a voz assim que ele entrava num ambiente.
Todo mundo em Cleveland conhecia a família Gallagher.
Eles controlavam os portos, os sindicatos e metade dos negócios do centro da cidade.
Tinha gente que sussurrava que eles controlavam bem mais que isso.
Mantive os olhos fixos na bebida enquanto me aproximava.
Só coloca na mesa.
Não fala nada.
Não olha nos olhos.
Volta pro balcão.
Roman não desviou o olhar do livro-caixa de couro aberto na sua frente. Batia devagar uma caneta dourada pesada contra a página enquanto eu colocava um guardanapo de coquetel sobre a mesa polida.
Meus dedos cansados escorregaram na condensação que cobria o copo.
Por um segundo aterrorizante, quase deixei cair.
Consegui segurar bem na hora.
Um alívio percorreu meu corpo antes que o cansaço tomasse conta de vez do meu cérebro.
Coloquei o bourbon com cuidado sobre o guardanapo e suspirei.
— Aqui está, amor.
As palavras escaparam antes que eu percebesse o que tinha dito.
O silêncio engoliu o salão inteiro.
Até a música que retumbava lá embaixo, na pista de dança, pareceu desaparecer.
Meu sangue virou gelo.
Eu tinha acabado de falar com Roman Gallagher do mesmo jeito que falava com meu namorado carente quando entregava o controle remoto da TV.
Levantei os olhos devagar.
Os seguranças tinham congelado completamente.
Então, quase em uníssono, as mãos deles deslizaram para debaixo dos paletós.
Ninguém disse uma palavra.
Ninguém respirava.
Roman parou de bater a caneta.
Sem nenhum sinal de raiva, ele ergueu a cabeça devagar e fixou aqueles olhos cinzentos penetrantes nos meus. Eu queria me desculpar. Queria explicar que tinha trabalhado horas demais, que estava exausta, que minha boca tinha me traído.
Nada saiu.
Fiquei paralisada, o coração batendo tão forte que achei que todo mundo conseguia ouvir.
Ele olhou para o copo.
Depois, de volta para mim.
Um sorriso lento puxou o canto da boca dele, o primeiro sinal de emoção que qualquer pessoa naquela mesa tinha mostrado a noite inteira.
Os seguranças trocaram olhares, visivelmente confusos.
Roman se recostou na cadeira, sem desviar o olhar nem por um segundo.
Então, com uma calma divertida que, de alguma forma, me assustou ainda mais do que qualquer fúria seria capaz, ele disse:
— Fala de novo…
Fez uma pausa longa o suficiente para meu pulso parar completamente.
— …devagar.
