Chapter 3
Não dormi naquela noite.
Fiquei sentado na cadeira desconfortável ao lado da cama de Elena, observando o subir e descer quase imperceptível do peito dela, tentando reconstruir cada peça da mentira que tinha destruído nossa vida juntos.
Por volta das quatro da manhã, Marco entrou silenciosamente no quarto, o rosto carregando a expressão de quem tinha passado a noite inteira trabalhando sem descanso.
— Consegui algo — ele disse, entregando um tablet com um arquivo de áudio já pronto para tocar.
Apertei o play, o coração acelerando antes mesmo do som começar.
Era a voz de Nathaniel, gravada meses atrás por um dos contatos de Marco dentro da empresa, conversando com alguém que parecia ser um advogado de confiança duvidosa.
“O Luke vai se afastar dela assim que achar que a segurança dela está em risco. Ele sempre foi previsível assim, sempre colocando os outros na frente de si mesmo. Só precisamos garantir que as ameaças pareçam reais o suficiente.”
Senti a bile subir pela garganta.
— Ele planejou tudo — sussurrei, a voz falhando de fúria contida.
— Tem mais — Marco disse, gravemente, avançando para outro trecho da gravação.
“Depois que ele assinar o divórcio, cuidamos da garota discretamente. Sem emprego, sem apartamento, sem apoio nenhum. Se ela desistir da gravidez sozinha, melhor ainda para nós. Se não desistir, o Luke nunca vai saber a tempo de fazer diferença.”
Minhas mãos tremiam de um jeito que eu não sentia desde os dias mais perigosos da minha antiga carreira.
— Ele sabia da gravidez — falei, a voz gelada. — Sabia antes de mim.
— Aparentemente, ele tinha alguém monitorando a Elena desde muito antes do divórcio — Marco confirmou. — Provavelmente foi assim que ele descobriu a gravidez antes mesmo dela ter certeza.
Olhei para Elena, ainda inconsciente, ainda lutando silenciosamente por nós dois sem saber que eu finalmente estava começando a entender a verdade completa.
— Por que ele faria isso com tanto cuidado, tanto planejamento? — perguntei, mais para mim mesmo. — Ele sempre teve dinheiro suficiente, poder suficiente…
— Poder nunca foi suficiente para o Nathaniel — Marco respondeu, com a sabedoria de quem observava a família Mercer de perto havia anos. — Ele sempre quis o que você tinha, chefe. Não o dinheiro. O nome. O respeito que seu pai nunca deu a ele.
A dor daquela verdade atingiu um lugar antigo dentro de mim, memórias de infância que eu tinha enterrado há muito tempo.
Meu pai sempre tratou Nathaniel como uma obrigação, nunca como um filho de verdade, um lembrete constante de um casamento fracassado que ele preferia esquecer.
— Isso não desculpa o que ele fez — falei, endurecendo de novo. — Nada desculpa isso.
— Concordo plenamente — Marco respondeu, sem hesitação.
O celular de Marco vibrou de novo, e ele franziu a testa ao ler a mensagem.
— Chefe, Nathaniel sabe que você está no hospital. Um dos seguranças dele avisou que você chegou ontem à noite.
— Bom — respondi, sentindo uma calma perigosa tomar conta de mim, a mesma calma fria que precedia cada decisão importante da minha antiga vida. — Então ele já deve estar nervoso, esperando para ver quanto eu já descobri.
Naquele momento, um leve gemido veio da cama.
Elena.
Corri para o lado dela, segurando sua mão com um cuidado que eu temia ter perdido a capacidade de sentir.
— Elena — chamei, suavemente. — Elena, você está segura agora.
Seus olhos se abriram devagar, confusos, procurando algo familiar ao redor até finalmente encontrarem os meus.
— Luke? — sua voz saiu rouca, quase inaudível.
— Estou aqui — respondi, a emoção quase me sufocando. — Estou bem aqui.
Ela tentou se sentar, mas o esforço a fez estremecer de dor.
— O bebê… — ela sussurrou, o pânico crescendo rapidamente nos olhos dela.
— O bebê está bem — assegurei rapidamente. — Os batimentos estão fortes. Vocês dois vão ficar bem.
Lágrimas escaparam pelos cantos dos olhos dela, uma mistura de alívio e algo mais complicado, mais doloroso.
— Você não devia estar aqui — ela sussurrou, a voz carregada de uma mágoa profunda. — Você me deixou, Luke.
Cada palavra dela cortava mais fundo do que qualquer arma que eu já tivesse enfrentado.
— Eu sei — respondi, a voz embargada. — E eu preciso que você saiba a verdade sobre por que eu fiz isso, porque eu mesmo só descobri a versão completa nas últimas horas.
Ela me encarou, cautelosa, exausta demais para confiar facilmente, mas escutando mesmo assim.
— O Nathaniel forjou ameaças contra você — expliquei, cada palavra pesando como chumbo. — Ele me fez acreditar que ficar perto de você colocaria sua vida em perigo real, por causa de inimigos do meu passado. Eu assinei aqueles papéis achando que estava te protegendo, Elena. Eu juro por Deus que achava estar te salvando.
Ela ficou em silêncio por um longo momento, processando cada palavra através da névoa do próprio esgotamento físico e emocional.
— E o resto? — ela finalmente perguntou, a voz mais firme apesar da fraqueza. — O apartamento, o emprego, os meses de silêncio absoluto?
— Foi ele também — confirmei, a raiva voltando com força total. — Ele estava por trás de tudo, Elena. Cada obstáculo que apareceu na sua vida depois do divórcio.
Seus olhos se fecharam por um momento, uma lágrima solitária escapando.
— Eu sabia que tinha alguma coisa errada — ela sussurrou. — Coincidências demais, tudo acontecendo rápido demais depois do divórcio. Foi por isso que escrevi aquele bilhete, antes de desmaiar no meu apartamento. Eu tinha um pressentimento de que, se alguma coisa acontecesse comigo, você precisaria saber para não confiar em ninguém da sua própria família.
— Você estava certa — falei, apertando a mão dela com cuidado. — E eu vou consertar isso, Elena. Prometo.
Ela me encarou, ainda cautelosa, ainda machucada demais para confiar completamente, mas com uma pequena fresta de algo que parecia esperança começando a se abrir de novo em seus olhos exaustos.
— Prove isso, Luke. Não com palavras. Com ações.
