Chapter 2
Marin chegou em casa passando das duas da manhã, um apartamento pequeno de um quarto que dividia o corredor com outras seis famílias que trabalhavam turnos parecidos com o dela.
Antes de entrar, parou na porta ao lado, batendo baixinho três vezes seguidas de um jeito específico — o sinal combinado com a vizinha, Dona Alva, que cuidava do filho de Marin durante as noites de trabalho.
— Ele dormiu direitinho? — Marin perguntou, assim que a porta se abriu.
— Dormiu como um anjo. Só perguntou de você antes de fechar os olhinhos.
Marin sorriu, cansada, entregando um envelope pequeno com o pagamento combinado pela ajuda daquela noite.
De volta ao próprio apartamento, encontrou o filho, Theo, de seis anos, dormindo profundamente na cama pequena montada no canto da sala. Ela se ajoelhou ao lado dele, ajeitou o cobertor, e ficou ali por um momento, só observando o peito dele subir e descer.
Foi então que ela tirou do bolso a placa de latão gasta, aquela que balançava no chaveiro do carro, e a segurou com cuidado entre os dedos.
As letras gravadas, quando a luz da rua entrava pela janela no ângulo certo, formavam um nome: Marin Santoro.
Não Hollis.
Santoro.
O mesmo sobrenome do homem que ela quase tinha esbarrado no corredor do restaurante, horas antes.
Ela guardou a placa de volta no bolso, apagou a luz, e se deitou no colchão fino ao lado do filho, sem imaginar que, no dia seguinte, tudo aquilo que ela vinha escondendo havia anos estaria prestes a explodir.
No restaurante, na manhã seguinte, Bernadete Kowalski chegou mais cedo do que de costume, os olhos cansados de uma noite maldormida.
Passou horas revisando as planilhas de gorjetas distribuídas, comparando os valores registrados no sistema com os valores que ela mesma via sendo entregues aos garçons no fim de cada turno.
A diferença, semana após semana, era pequena o suficiente para passar despercebida por qualquer um que não estivesse prestando atenção de verdade. Mas Bernadete prestava atenção havia trinta e dois anos.
Ela separou os documentos, colocou numa pasta simples, e decidiu que, dessa vez, não deixaria ninguém a interromper antes de conseguir falar com Rafe.
Só que, quando ela finalmente conseguiu um momento a sós com ele, no início da tarde, outra interrupção aconteceu — mas dessa vez não foi um telefonema.
Foi um grito.
Vindo do corredor de serviço, perto da cozinha.
Rafe e Bernadete correram na direção do som, e o que encontraram fez o sangue de Rafe gelar instantaneamente.
Sua noiva, Vivienne Whitlock, vestida num casaco de pele apesar do calor da cozinha, segurava Marin pelo braço com força, o rosto contorcido de fúria.
— Você derramou vinho no meu Chanel, sua imbecil! — Vivienne gritava, a mão livre já erguida no ar, prestes a descer sobre o rosto de Marin.
Antes que o tapa acontecesse, Rafe atravessou a sala em passos largos e segurou o pulso de Vivienne no ar, impedindo o golpe com uma força controlada que fez até os garçons mais próximos recuarem instintivamente.
— Solta ela — ele disse, a voz baixa, mas carregando um peso que fez toda a cozinha parar de respirar.
— Rafael, essa garota arruinou meu casaco! — Vivienne protestou, tentando soltar o pulso da mão dele.
— Ela pediu desculpas?
— O quê?
— Ela pediu desculpas, Vivienne? Porque, pelo que estou vendo, ela estava com a bandeja cheia e provavelmente foi empurrada por alguém no corredor apertado, e você decidiu que a solução era bater nela na frente de toda a equipe.
Marin, ainda segurando o braço machucado onde os dedos de Vivienne tinham apertado com força, olhou para Rafe com uma mistura de choque e cautela, como quem não sabia se aquilo era proteção genuína ou só mais um jogo de poder entre pessoas ricas.
Vivienne, percebendo que o tom de Rafe não era o de costume, tentou suavizar.
— Amor, ela trabalha aqui. Isso é normal, esse tipo de coisa se resolve rápido, com um desconto no salário dela ou…
— Não existe desconto de salário nessa casa por acidente — Rafe interrompeu, finalmente soltando o pulso dela. — E não existe, nunca existiu, permissão para ninguém colocar a mão em quem trabalha para mim.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Bernadete, aproveitando o momento, deu um passo à frente, a pasta de documentos ainda apertada contra o peito.
— Sr. Santoro, já que estamos todos aqui, existe outra coisa que eu preciso mostrar ao senhor. Algo relacionado às gorjetas dos últimos meses.
Rafe olhou para ela, depois para Marin, ainda tremendo ao lado da parede, e algo dentro dele começou a se encaixar de um jeito que ele não gostou nem um pouco.
